Cristianismo Ortodoxo

Cristianismo Ortodoxo

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Por que a Ortodoxia é a verdadeira fé (A. I. Osipov)

Hoje em dia vivemos em tal situação que não mais é possível nos separar do mundo. Qual é a verdadeira fé? Vivemos no mundo do pluralismo religioso. Damos de cara com muitos missionários, cada qual oferece seus ideais, seus padrões de vida, suas opiniões religiosas de que a geração anterior ou minha geração não o invejaria por isso. Era mais fácil para nós. A escolha principal que encarávamos era a escolha entre religião e o ateísmo.

Atualmente sua escolha é mais ampla, mas muito mais difícil. Encontrar a resposta à pergunta - se Deus existe ou não - é apenas o primeiro passo. Se uma pessoa passa a acreditar que há Deus, o que acontece depois? Existem muitas crenças, mas deve-se converter para qual? Deve-se tornar-se cristão, ou por que não muçulmano ou budista ou krishnaita? Eu não vou citar todas elas. Hoje existem diversas religiões, você sabe disso melhor que eu. Por quê? Bem, tendo trilhado o caminho através dos bosques e matas desta árvore multi-religiosa tal pessoa tornou-se cristão. Ele entendeu que o cristianismo é a melhor religião, a religião correta.

Mas que tipo de cristianismo? Existem muitas faces. O que se deve ser? Um ortodoxo, um católico, um pentecostal, um luterano? Novamente, está além da conta. Esta é a situação que os jovens enfrentam hoje. Além disso, como regra, representantes de religiões novas e antigas, de denominações não-ortodoxas, ativamente elevam suas vozes e possuem melhores chances de declarar seus pontos de vista na mídia, diferente de nós, ortodoxos.

Assim, a primeira coisa que se enfrenta hoje é a grande variedade de crenças, religiões, opiniões. É por isso que gostaria de caminhar rapidamente por essas fileiras de opções que se abrem hoje diante das pessoas que procuram a verdade e as consideram brevemente - porém levando em consideração as características fundamentais - pois não se deve ser somente cristão, mas ortodoxo.

Deste modo, o primeiro problema é: religião ou ateísmo. Em diferentes conferências, mesmo em reuniões de alto nível, encontro pessoas bem-educadas, eruditas, não superficiais, que sempre me fazem as mesmas perguntas: Quem é Deus? Ele existe? E até mesmo: Por que eu precisaria dele? Ou, se Deus existe, por que Ele não faz um discurso em uma sessão da ONU e declara Sua existência? As pessoas realmente dizem essas coisas. O que devo responder?

Na minha opinião, podemos responder a esta questão usando a idéia central da filosofia moderna, que é melhor expressa no conceito de existencialidade. Qual é o objetivo da existência humana, qual é o sentido da vida humana? Certamente, em primeiro lugar, a vida em si mesma. O que mais pode ser? Que sentido eu ambiciono quando durmo? O sentido da vida só pode estar na compreensão, no "desfrutar" os frutos de sua vida e atividade. E ninguém jamais afirmou ou acreditou (ou fará no futuro), que o sentido último da vida pode ser a morte. É aqui que reside a divisão intransponível entre religião e ateísmo. O cristianismo afirma: para o homem esta vida terrena é apenas o começo, a pré-condição e os meios para se preparar para a eternidade: Prepare-se, a vida eterna está esperando por você. O cristianismo diz: para entrar nela você tem que fazer isso e ser assim. E qual é a idéia do ateísmo? Não há Deus, nem alma, nem eternidade; então acredite, humano, a morte eterna está esperando por você! Você não sente o terror, o pessimismo e desespero em tais palavras? Fazem o sangue gelar: homem, a morte eterna está esperando por você! Isso sem mencionar a argumentação estranha que fundamenta esta idéia. Só essas palavras já fazem tremer a alma humana. De jeito nenhum, eu não posso aceitar tal fé.

Se alguém perdeu seu caminho na floresta e está procurando o caminho para casa e ao encontrar alguém, pergunta: "Existe uma saída?" E o outro responde: "Não e não procure, se estabeleça por aqui como puder", alguém acreditaria nele? Eu duvido. Ele não procuraria mais? E ao encontrar outro homem, que diz: "Sim, há uma saída, eu vou te dizer os sinais e os passos de como você pode chegar em casa", - não acreditaria nele? O mesmo acontece quando se escolhe os seus pontos de vista entre religião e ateísmo. Enquanto ainda existir uma centelha de busca da verdade, pelo sentido da vida, não é possível aceitar a idéia que no fim, o homem, enquanto personalidade e, consequentemente, todas as outras pessoas encontrarão a morte eterna e, a caminho disso, devemos preparar um melhor meio econômico, social, político e cultural. E depois tudo será O.K. - amanhã você morrerá e nós o enterraremos no cemitério. Maravilhoso!

Eu mostrei para você apenas um lado, psicologicamente muito importante, o qual acredito que é suficiente para cada pessoa com alma ainda viva entenda que somente essa visão religiosa do mundo nos permite abordar o sentido da vida, quando aceitamos como nosso fundamento o Um, a quem chamamos Deus.

Então eu acredito em Deus. Vamos supor que passamos a primeira sala. E com fé em Deus entro na segunda ... Meu Deus, o que eu vejo e ouço aqui? Muitas pessoas, e cada uma grita: "Só eu tenho a verdade". Isso é realmente um problema ... Existem muçulmanos, confucionistas, budistas, judaístas etc. Há também muitos aderindo ao cristianismo. Aqui há um missionário cristão, entre outros, e estou procurando por aquele que está certo, aquele que posso acreditar.

Há duas abordagens aqui, talvez existem mais, mas vou apontar apenas duas. Uma delas, para entender qual religião é a verdadeira (que corresponde objetivamente à natureza humana, aos esforços humanos, à compreensão humana do sentido da vida), é o método da teologia comparativa. É um longo caminho; para passar, deve-se estudar cada religião. Mas nem todos são capazes de fazê-lo, é preciso tempo, força e certas habilidades para estudar tudo isso - além do mais é preciso muito esforço da alma.

Mas também existe uma maneira diferente. Afinal cada religião é destinada ao homem, dizem: a verdade é essa e nada mais. Ao mesmo tempo, todos os pontos de vista e todas as religiões afirmam uma coisa simples: o estado atual das coisas, as condições em que vivemos (políticas, sociais, econômicas, por um lado e espirituais, morais, culturais, por outro) não são normais, não podem nos contentar e, mesmo se alguém estiver pessoalmente satisfeito, a maioria esmagadora sofre com isso em maior ou menor grau. As condições não satisfazem a humanidade como um todo, procura-se por algo diferente, algo maior. Esforça-se por um futuro desconhecido, espera-se pela "era de ouro" - o estado atual das coisas não satisfaz ninguém.

Deste modo fica claro por que a essência de cada religião e todo tipo de visão de mundo se resume à doutrina da salvação. E apenas aqui estamos diante de algo que nos dá a chance de fazer uma escolha razoável nesta diversidade religiosa. Em contraste com as outras religiões, o cristianismo afirma algo que é absolutamente desconhecido nas outras religiões (sem mencionar visões não-religiosas). Não só isso, elas não sabem disso e rejeitam com indignação quando o enfrentam. É a ideia do chamado pecado original. Todas as religiões - e até todas as visões de mundo e ideologias - falam sobre o pecado. Elas chamam isso de forma diferente, mas não importa. Mas nenhuma delas considera a natureza humana em seu estado atual como corrompida, doente. E o cristianismo afirma que o estado em que nós, humanos, nascemos, crescemos, nos educamos, amadurecemos, o estado, no qual desfrutamos da vida, nos divertimos, estudamos, realizamos descobertas e assim por diante - este estado é de uma doença profunda, corrupção profunda. Estamos doentes. Não se trata de gripe ou bronquite ou de uma doença psíquica. Não; somos psicologicamente e fisicamente sãos - podemos resolver problemas e voar para o espaço, mas ainda assim estamos gravemente doentes. No início da existência humana, ocorreu uma estranha e trágica separação do único ser humano em partes - mente, coração, corpo - autônomas e muitas vezes antagonicas. É absurdo o que o cristianismo afirma, certo? As pessoas estão indignadas: "Estou louco? Desculpe, talvez os outros, mas não eu". Mas se o cristianismo está certo, é bem aqui, na própria raiz, onde se encontra a fonte porque a vida humana (individualmente ou na escala universal) conduz a uma tragédia após a outra. Pois, se uma pessoa está gravemente doente, e não sabe - e conseqüentemente não cura a doença-, tal doença matará pessoa.

Outras religiões não reconhecem essa doença no ser humano. Elas a rejeitam. Elas acreditam que o homem é uma semente saudável, que pode desenvolver-se normalmente, ou anormalmente. O seu desenvolvimento é condicionado pelo ambiente social, condições econômicas, fatores psicológicos e muitas outras coisas. É por isso que o homem pode ser bom ou ruim, mas por natureza ele é bom. Esta é a principal antítese da percepção não-cristã. Somente o cristianismo afirma que nosso estado presente é o estado de corrupção profunda, que é impossível para o homem sozinho curá-lo. Essa idéia é o fundamento do maior dogma cristão de Cristo, o Salvador.

Essa idéia é a principal divisão entre o cristianismo e todas as outras religiões.


Além disso, vou tentar mostrar que o cristianismo, diferentemente das outras religiões, tem uma confirmação objetiva desta afirmação. Examinemos  na história da humanidade e seus propósitos em todo o período acessível para nossa análise. Certamente, a humanidade quis criar o Reino de Deus na Terra, criar o paraíso. Às vezes, com Deus, e neste caso, Ele era considerado como o meio para alcançar o bem-estar na Terra, mas não como o propósito final da vida. Às vezes, sem Deus. Mas o que é importante aqui é que todo mundo entendeu que o Reino de Deus na terra é impossível sem coisas tão básicas como a paz, a justiça, o amor (é claro que o paraíso é impossível onde há guerras, injustiças e a maldade prevalece, etc.), e talvez, respeito mútuo. Todo mundo compreende perfeitamente, sem tais valores morais básicos, sem a sua compreensão, é impossível alcançar qualquer bem-estar na Terra. Não está claro? Sim. Mas com o que a humanidade está ocupada em toda a história? O que estamos fazendo? Erich Fromm afirmou muito bem: "A história humana é escrita com sangue. É história de uma violência incessante". Bem direto ao ponto.

Penso que os historiadores, especialmente os militares, poderiam mostrar de forma muito clara a história da humanidade: guerras, derramamento de sangue, violência e crueldade. O século 20 deveria ter sido, teoricamente, o século do humanismo mais elevado. E, no entanto, nos mostrou o humanismo em sua "perfeição", superando todos os séculos anteriores pelo sangue derramado. Se nossos antepassados ​​pudessem ver o que aconteceu no século 20, eles estremeceriam com horror pela escala de crueldade, injustiça e mentiras. Existe uma espécie de paradoxo incompreensível de que, no curso de sua história, a humanidade faz exatamente o oposto de sua idéia e objetivo principal; objetivos visados originalmente por todos os seus esforços.

É por isso que faço a pergunta retórica: "É possível que um ser razoável se comporte desse jeito?" A história está meramente rindo de nós: "Verdadeiramente, a humanidade é razoável e sã. Não é insana, de modo algum. Apenas faz mais e se comporta pior do que os pacientes de um hospício".

Infelizmente, isto é um fato que não há como se esconder. E isso não nos mostra apenas alguns erros da humanidade mas que esta é uma característica paradoxal típica de toda a humanidade.

Agora, se examinarmos uma única pessoa, ou para ser mais exato, se uma pessoa tiver força moral suficiente para se olhar, verá uma imagem surpreendente. O apóstolo Paulo corretamente a caracterizou: "Ó homem miserável que eu sou! Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço". E, de fato, aquele que presta um pouco de atenção ao que acontece em sua alma, que enfrenta a si mesmo, não pode deixar de ver quão seriamente se encontra espiritualmente doente, propenso a várias paixões, escravizado por elas. Não é sensato perguntar: "Por que você está, homem miserável, bêbado, mentindo, invejando, fornicando, etc.? Fazendo isso, você está se matando, destruindo sua família, mutilando seus filhos, envenenando toda a atmosfera ao seu redor. Por que você está se batendo, se cortando, se esfaqueando, arruinando seus nervos, sua psique e seu corpo? Você entende que isto é desastroso para você?" "Sim, eu entendo isso, mas não posso deixar de fazer isso." Certa vez Basílio, o Grande disse: "A pior das paixões já nascida nas almas humanas é a inveja". Em regra, mesmo sofrendo, não se pode lidar com essa doença. No fundo de sua alma, cada homem razoável compreende as palavras de Paulo: "Eu não faço o bem que eu deveria, mas o mal, que eu odeio".

Ao mesmo tempo, examinemos como uma pessoa que leva uma reta vida cristã pode mudar. Aqueles que conseguiram se livrar das paixões, adquiriram a humildade, "adquiriram", - de acordo com as palavras de São Serafim de Sarov, - "o Espírito Santo", alcançaram um estado psicologicamente muito interessante: passaram a enxergar a si mesmo como os piores pecadores . Pimen o Grande disse: "Acredite, irmãos, onde Satanás será lançado, também serei lançado"; quando Sisoi o Grande estava morrendo, seu rosto iluminava como sol e era impossível olhar para ele, e implorou a Deus que lhe desse mais tempo para o arrependimento. O que era isso? Hipocrisia, humildade pretensiosa? Nada do tipo. Eles temiam pecar até mesmo em seus pensamentos, por isso falaram de seu coração; eles sinceramente disseram o que sentiam. No entanto, não sentimos isso. Estou cheio de todo tipo de sujeira, mas acredito que sou um homem muito bom. Eu sou um bom homem! Mas se eu faço algo errado, então, penso "Quem é sem pecado? Os outros não são melhores do que eu... e o culpado não sou eu, mas os outros". Nós não vemos nossa alma, é por isso que somos tão bons aos nossos olhos. Veja que grande diferença existe entre a visão espiritual de um santo e de um homem comum!

Gostaria de enfatizar mais uma vez. O cristianismo afirma que, em sua natureza, em seu presente estado, chamado de normal, o homem está profundamente corrompido. Infelizmente, devido a essa estranha cegueira, somos quase completamente incapazes de ver nossa doença. É bem perigoso, porque quando alguém nota sua doença, toma-se remédios, vai-se aos médicos e busca-se ajuda. Mas quando se enxerga a si mesmo como saudável, ele mesmo envia para o médico quem lhe diz que está doente. Este é o sintoma mais difícil da corrupção presente em nós. E esta presença é inequivocamente testemunhada pela história da humanidade e pela história individual de cada pessoa. É para tal lugar que o Cristianismo está apontando.

A confirmação objetiva desse fato, apenas uma verdade da fé cristã (sobre a corrupção da natureza humana) me sugere qual religião eu tenho que escolher: ou escolho uma religião que descobre minhas doenças e oferece meios para curá-las, ou uma religião que as esconde, que nutre o orgulho e diz: tudo é bom, tudo é maravilhoso, não é necessário se curar, mas deve-se curar o mundo ao seu redor, deve-se esforçar-se para o desenvolvimento e a perfeição. A experiência histórica nos mostra o que significa rejeitar o tratamento.
A. I. Osipov 

Bom, chegamos ao cristianismo. Glória ao Senhor, finalmente encontrei a verdadeira fé. Agora eu entro na próxima sala, e novamente há muitas pessoas, e novamente ouço gritos: "Minha fé cristã é a melhor de todas". Os católicos convidam: "Veja, nós somos 1 bilhão 45 milhões no mundo". Os protestantes de várias denominações dizem que são 350 milhões. Os ortodoxos são o menor número dali - apenas 170 milhões de pessoas. Alguém nos alerta: a verdade não está nos números, mas na essência. A questão ainda é extremamente séria: "Onde está o verdadeiro cristianismo?"

Existem também várias maneiras de resolver esta questão. No seminário estudamos sistemas dogmáticos, comparando o Catolicismo e o Protestantismo com a Ortodoxia. Esta maneira é interessante e confiável, mas ainda, na minha opinião, não é perfeita, porque para uma pessoa sem educação e conhecimento profundo, não é fácil chegar ao fundo das disputas dogmáticas e aclarar quem está certo e quem está errado. Além disso, muitas vezes os oponentes usam truques psicológicos fortes que podem ser bastante confusos. Por exemplo, discutimos o problema da primazia do Papa com os católicos, e eles dizem: "Papa? Bem, esta primazia e infalibilidade do Papa é tão insignificante... É o mesmo que a autoridade do Patriarca em relação a vocês. A infalibilidade do Papa e seu poder não é realmente diferente da autoridade das declarações e do poder do líder de qualquer Igreja Ortodoxa local". Entretanto, na verdade, temos que lidar com níveis dogmáticos e canônicos absolutamente diferentes aqui. Então, o método dogmático comparativo não é tão simples. Especialmente quando enfrentamos pessoas que não só conhecem o campo, mas tentam convencê-lo a qualquer preço.

Mas há uma maneira diferente que mostra, aparentemente, o que o catolicismo é e para onde conduz. Este é também um método de investigação comparativa, mas trata-se da investigação da esfera espiritual da vida, demonstrada na vida dos santos. Aqui, todo o engano (como é chamado na linguagem ascética) da espiritualidade católica é revelado; engano repleto de consequências muito graves para um asceta que escolheu este caminho. Sabe, às vezes eu dou palestras públicas, atendida por diferente pessoas. Freqüentemente me fazem a pergunta: "Qual é a diferença do Catolicismo e a Ortodoxia? Onde está o erro? Não é apenas um caminho diferente para Cristo?" Percebi que muitas vezes basta dar alguns exemplos da vida dos místicos católicos para os inquiridores dizerem: "Obrigado, agora ficou claro. Já basta".

De fato, qualquer Igreja Ortodoxa local ou Igreja não-Ortodoxa pode ser julgada por seus santos. Diga-me quem são os seus santos e digo o que é a sua Igreja. Qualquer Igreja chama de santos apenas aqueles que realizaram em sua vida o ideal cristão, como esta Igreja o entende. É por isso que a canonização de um certo santo não é apenas o testemunho da Igreja sobre este cristão, que segundo seu julgamento é digno da glória e sugerido por ela como um exemplo a ser seguido. É ao mesmo tempo um testemunho da Igreja sobre ela mesma. Através dos santos, podemos julgar melhor a verdadeira ou imaginária santidade da Igreja.

Eu vou lhe dar alguns exemplos para ilustrar a idéia de santidade na igreja católica.

Um dos grandes santos católicos é Francisco de Assis (século XIII). Sua mentalidade espiritual é revelada através dos seguintes fatos. Certa vez Francisco orou por um longo tempo (o tema de sua oração é muito indicativo) "sobre duas misericórdias": "A primeira é ... que eu possa passar por todos os sofrimentos que Você, amável Jesus, passou na Sua paixão excruciante. E a segunda misericórdia ... é que eu possa sentir o amor infinito, com o qual Você, Filho de Deus, ardeu". Como vemos, Francisco estava preocupado não com o sentimento de ser pecaminoso, mas clamava abertamente por igualdade com Cristo! Durante esta oração, Francisco "sentiu-se absolutamente transformado em Jesus"; viu [Jesus] certa vez como um Serafim de seis asas, atingindo-o com flechas disparadas nos pontos das chagas da crucificação de Jesus Cristo (mãos, pés e lado direito). Após essa visão apareceram dolorosas chagas sangrentas (estigmas) - os traços da "paixão de Jesus" (M.V. Lodyzhensky, pág. 1915. - P.109).

A natureza desses estigmas é bem conhecida na psiquiatria: a concentração permanente da atenção nas paixões de Cristo excita os nervos e a psique e pode causar esse efeito após um longo exercício. Não há graça aqui, porque em tal compaixão com Cristo não há amor verdadeiro sobre o qual o Senhor disse diretamente: Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; (Jo.14: 21 ). É por isso que a substituição da luta com o velho homem por emoções imaginárias de "compaixão" é um dos erros mais graves na vida espiritual, que leva muitos ascetas à autoconfiança, ao orgulho - ao engano espiritual evidente acompanhado de transtorno mental direto (veja os "sermões" de Francisco para pássaros, lobos, tartarugas, cobras, flores, pedras, minhocas).

O objetivo de vida estabelecido por Francisco também é muito indicativo: "Laborei e queria laborar mais ..., porque traz honra" (São Francisco de Assis. - M., Izd. Frantsiskantsev, 1995. - P.145). Francisco deseja sofrer pelos outros e expiar seus pecados (P.20). E no final de sua vida ele disse francamente: "Não conheço nenhuma transgressão minha, que não expus pela confissão e o arrependimento" (M.V.Lodyzhensky. - p.129). Tudo isso atesta que ele não enxergava seus pecados, isto é, sua cegueira espiritual total.

Para comparação, descreverei-lhe um momento da vida de São Sisoi o Grande (século V). "Pouco antes de sua morte, cercado pelos irmãos, quando Sisoi parecia conversar com seres invisíveis, à pergunta "Pai, conte-nos, com quem conversas?", ele respondeu: "Os anjos vieram para me levar, mas eu rezo para que eles me deixem ficar aqui um pouco mais para arrepender-me." Sabendo que Sisoi era perfeito em virtudes, os irmãos se opuseram a ele: "Pai, você não precisa de arrependimento", e Sisoi respondeu assim: "Na verdade, não sei nem se comecei a causa do meu arrependimento" (Lodyzhensky. - p.133). Esta profunda compreensão, visão da própria imperfeição é o principal traço distintivo de todos os verdadeiros santos.

E aqui estão alguns extratos de "Revelações da Beata Angela" († 1309) (Revelações da Beata Angela - M., 1918).

O Espírito Santo, ela escreve, lhe disse: "Ó, minha filha, minha dulcíssima, eu te amo tanto" (p.95). "Eu estive com os apóstolos e eles me viram com seus olhos corporais, mas não me sentiam como você me sente" (p.96). Angela também revela essas coisas sobre si mesma: "Na escuridão, vejo a Santíssima Trindade e sinto que eu mesma habito dentro da Trindade na escuridão no meio desta" (c.117). Seus sentimentos para Jesus Cristo, ela expressa com as seguintes palavras: "Eu poderia colocar todo o meu ser no interior de Jesus Cristo" (p.176). Ou: "Chorei por Sua doçura e sofri por Sua partida e quis morrer" (p.101) - e, em tais momentos, ela começaria a bater-se tão violentamente que as freiras precisavam tirá-la do kostel (p.83).

Um dos maiores filósofos russos religiosos do século XX A.F.Losev dá uma avaliação precisa, mas verdadeira, das "revelações" de Angela. Ele escreveu: "Ser tentado e seduzido pela carne resulta no aparecimento do Espírito Santo para a Beata Angela, que lhe sussurra palavras amorosas: "Minha filha, você é Minha dulcíssima, Minha filha, você é Minha morada, Minha filha, você é Meu deleite, ame-me, pois Eu amo muito você, muito mais do que você Me ama."

O Santa está em uma doce languidez, distante com um amor languido. E o amado aparece mais uma vez e mais e mais arde seu corpo, seu coração, seu sangue. A Cruz parece ser para ela a cama de casal... O que poderia contrastar mais com os ascetas castos e austeros bizantinos-moscovitas do que essas declarações contínuas: "Minha alma foi aceita na luz divina e elevada", - seu olhar apaixonado para a Cruz do Senhor, para as chagas de Cristo e os membros individuais de Seu corpo, sua intenção de chamar as marcas de sangue para seu corpo, etc.? Para coroar tudo isso, Cristo abraça Angela com Sua mão, pregada na cruz, e ela diz-lhe cheia de languidez, tormento e felicidade: "Às vezes, neste abraço forte, minha alma parece entrar no lado de Cristo. E é impossível descrever a alegria e a iluminação que se sente lá. É tão forte que não conseguia me levantar, estava deitada e minha língua e meus membros ficaram adormecidos (A F Losev. Ensaios sobre simbolismo antigo e mitologia. - M., 1930. - V.1. - p.867-868).

Santa Catarina de Siena (+1380) é um exemplo mais vívido da santidade católica. Ela foi canonizada pelo Papa Paulo VI no mais alto nível de santos - "Doutores da Igreja" (Doctor Ecclesiae). Vou citar alguns extratos do livro católico de Antonio Sikari "Retratos dos santos". Para mim, esses extratos não precisam de comentários.

Catarina tinha cerca de 20 anos. "Ela sentia que um ponto decisivo de sua vida estava se aproximando e ela manteve orações devotas para o Senhor Jesus, repetindo uma fórmula mais bela e terna que se tornou habitual para ela:" Una-se em matrimônio de fé comigo!" (Antonio Sikari Retratos de santos. V.II. - Milano, 1991. - p.11).

"Uma vez Catarina teve uma visão: seu noivo divino a abraçou e a atraiu para Si, então Ele tirou o coração do peito dela e deu-lhe outro, que era mais semelhante ao Seu" (p.12).

Certa vez que foi dito que ela morreu. "Mais tarde ela disse que seu coração estava lacerado pelo amor divino e que ela passou pela morte tendo visto as portas do paraíso". Mas "volte, Minha filha, o Senhor me disse, você deve retornar ... Eu a guiarei aos príncipes e mestres da Igreja". "E a humilde jovem começou a enviar suas mensagens para todo o mundo, longas cartas, que ela ditava com uma rapidez surpreendente, às vezes três ou quatro de cada vez e sobre assuntos diferentes, porém, sem se atrapalhar e antes de suas secretárias. Essas cartas terminam com uma fórmula apaixonada: "O mais doce Jesus, Jesus o Amor" e muitas vezes são abertas com as palavras: "Eu, Catarina, serva de Jesus e escrava de Seus escravos, estou escrevendo para você em Seu precioso sangue ..." ( 12).

"A principal coisa que chama atenção nas cartas de Catarina é a insistente repetição das palavras: 'Eu quero'" (12).

"De acordo com alguns, ela, em êxtase, dirigiu-se com essas palavras resolutas 'eu quero' até com Cristo" (13).

Em sua correspondência com Gregório XI, a quem tentou persuadir para voltar de Avinhão a Roma: "Digo-vos em nome de Cristo ... Eu vos digo, Pai, em Jesus Cristo ... Responda ao chamado do Espírito Santo, dirigido a você "(13).

Ela dirigiu-se ao rei da França com as seguintes palavras: "Cumpra a vontade de Deus e a minha" (14).

As "Revelações" de Teresa de Ávila, canonizada pelo mesmo Papa Paulo VI como Doutora da Igreja (século XVI), não são menos indicativas. Antes da morte, ela exclamou: "Oh, meu Deus, meu Esposo, finalmente te vejo!" Esse clamor, extremamente estranho, não foi por acaso. É um resultado natural do exercício "espiritual" de Teresa, cuja essência é revelada, por exemplo, no seguinte fato.

Depois de várias aparições, "Cristo" diz a Teresa: "A partir deste dia você será Minha esposa ... De agora em diante eu não sou apenas o seu Criador, Deus, mas também seu Cônjuge" (DS Merezhkovsky. Místicos espanhóis. - Bruxelas, 1988. - P. 88). "Oh, Senhor, eu quero ou sofrer com você, ou morrer por você!" Teresa reza e colapsa completamente exausta com essas carícias... ", escreve D. Merezhkovsky. Depois disso, não é nenhuma surpresa, quando Teresa confessa: "O Amado chama minha alma com um assovio tão penetrante que não posso deixar de ouvi-lo. Este chamado toca tanto a alma que esta se rompe com o desejo". Não é por acaso que o renomado psicólogo americano William James, analisando experiência mística dela, escreveu que "sua compreensão da religião foi reduzida a um flerte interminável entre o adorador e a divindade " (James W. Variedade das Experiências Religiosas/Transl. From English. - M., 1910. - P.337).

Mais uma ilustração da idéia de santidade no catolicismo é Teresa de Lisieux (Teresa a Pequena ou Teresa do Menino Jesus), que morreu aos 23 anos e, em 1997, marcando o 100º aniversário de sua morte, João Paulo II, por sua decisão "infalível" declarou que ela era mais uma Doutora da Igreja Ecumênica. Aqui estão algumas citações da autobiografia espiritual de Teresa "História de uma alma", testemunhando expressamente seu estado espiritual (História de uma alma // Símbolo, 1996, nº 36. - Paris. - P.151).

"Em uma entrevista, antes de tomar o véu, eu revelei o que eu faria no Carmelo: Eu vim para salvar almas, e antes de tudo para rezar pelos sacerdotes" (não para salvar a si mesma, mas os outros!).

Falando sobre seu desmerecimento, ela acrescenta: "Eu invariavelmente mantenho uma esperança audaz de me tornar uma grande santa ... Pensei que nasci para a glória e procurei as maneiras de alcançá-la. Então, Senhor, nosso Deus ... deixe-me saber que a minha glória não será revelada ao julgamento de um mortal, e a essência disso é que serei uma grande santa!!! " (compare com Macário o Grande, a quem as pessoas chamavam de "deus na terra", que, no fim de sua vida, rezava: "Ó Deus, purifica-me, pecador que sou, pois nunca fiz nada de bom aos teus olhos"). Mais tarde Teresa escreveu ainda mais francamente: "No coração da minha Igreja-Mãe, eu serei Amor... por isso eu me tornarei tudo... e meu sonho se tornará realidade!!!"

A doutrina de Teresa sobre o amor espiritual também é extremamente "notável": "Era um beijo de amor. Eu me senti amada e disse: "Eu Te amo e comprometo-me a Você para sempre . Não houve pedidos, nem luta, nem sacrifícios; há muito tempo Jesus e a pequena pobre Teresa entenderam tudo depois de um único olhar... Este dia trouxe não apenas olhares recíprocos, mas uma fusão, quando não havia mais dois, e Teresa desapareceu como uma gota de água perdida na profundidade do oceano". Eu acho que nenhum comentário é necessário para esse romance fantasioso de uma pobre menina - uma Doutora da Igreja Católica.

A experiência mística de um dos pilares dos místicos católicos, fundador da Ordem dos jesuítas, Inácio de Loyola (século XVI), também baseou-se no desenvolvimento metódico da imaginação.

Seu livro "Exercício Espiritual", que possui grande autoridade entre os Católicos, convida o Cristão a imaginar e contemplar a Santíssima Trindade, Cristo, a Mãe de Deus, os anjos, etc. Tudo isso contradiz fundamentalmente os fundamentos dos feitos espirituais dos santos da Igreja Ecumênica, pois conduz os fiéis a total desordem mental e espiritual.

Uma coleção de escritos ascéticos da antiga Igreja "Dobrotolubie" ("Filocalia") proíbe estritamente esse tipo de "exercício espiritual". Aqui estão algumas citações.

São Nilus do Sinai (5 ° século) adverte: "Não deseje ver sensivelmente Anjos ou Virtudes, ou Cristo, caso contrário você ficará louco tomando um lobo como pastor e se curvando para inimigos demoníacos" (São Nilus do Sinai). 153 Capítulos sobre Oração. Ch.115 // Dobrotolubie: Em 5 volumes. V.2. 2ª edição. - M., 1884. - p. 237).

São Simeão, o Novo Teólogo (século XI) sobre aqueles que "imaginam bênçãos celestiais, hostes de anjos e moradas de santos" na oração diz definitivamente  "isto é um sinal de prelest" (engano espiritual). "Agindo assim, mesmo aqueles que vêem a luz com seus olhos corporais, sentem fragrâncias com o nariz, ouvem vozes com os ouvidos e outros são seduzidos." (São Simeão, o Novo Teólogo). // Dobrotolubie V. 5. M., 1990. p.463-464).

São Gregório o Sinaíta (século XIV) lembra: "Nunca aceite coisas ao ver algo sensível ou espiritual, dentro ou fora, mesmo que tenha uma imagem de Cristo ou um anjo ou um certo santo... Aquele que aceita isso é facilmente seduzido... Deus não se ressente daquele que está atento a si... mesmo se, temendo ser seduzido, não se aceita o que Ele dá... mas, ao contrário, o elogia como sábio" (São Gregório o Sinaíta. Hesyhast instruction // . - p .224).

Assim, o dono de terras, que São Ignácio Brianchaninov descreve em sua obra, estava certo, quando viu o livro católico "A Imitação de Cristo" de Thomas a Kempis (século XV) e disse: "Pare de brincar de romance com Deus". Os exemplos acima não deixam dúvidas da verdade dessas palavras. Infelizmente, a igreja Católica perdeu a arte para distinguir o espiritual do sensível e a santidade dos devaneios e, portanto, também o Cristianismo do paganismo.

Isso é o que eu queria dizer sobre o Catolicismo.

Para deixar claro em relação ao protestantismo é suficiente dar uma olhada na sua dogmática. Para examinar a sua essência, vou me limitar à doutrina central do protestantismo: "O homem é salvo apenas pela fé e não por ações, é por isso que o pecado não é contado ao crente como pecado". Aqui está a questão principal onde os protestantes ficaram confusos. Começam a construir a casa da salvação desde o 10º andar, tendo esquecido do ensino da Igreja antiga que tipo de fé salva o homem. 

Qual a diferença na compreensão da fé na Ortodoxia e no Protestantismo? A Ortodoxia diz que o homem é salvo pela fé, mas o pecado é contado ao crente como pecado. Que tipo de fé é esta? - Não é mental, mas o estado adquirido pela vida cristã correta, graças ao qual assegura-se que somente Cristo pode salvá-lo da escravidão e paixões. Como alguém pode alcançar esse estado de fé? Através da compulsão para observar os mandamentos do Evangelho e arrependimento sincero. São Simeão, o Novo Teólogo, diz: "Através da estrita observância dos mandamentos de Cristo, o homem aprende sua enfermidade", isto é, descobre sua incapacidade de extirpar paixões sem a ajuda de Deus. Pois para o homem sozinho isto é impossível, mas, com Deus, tudo é possível. A vida cristã correta revela ao homem, em primeiro lugar, suas paixões - enfermidade, em segundo lugar, que Deus está próximo de cada um de nós e, finalmente, que, em qualquer caso, Ele está pronto nos resgatar e nos salvar do pecado. Mas Ele não nos salva não sem nossos esforços e luta. O ato de fé é necessário para nos capacitar a aceitar Cristo, pois nos mostra que não podemos nos curar sem Deus. Somente quando estou me afogando, percebo que preciso de um Salvador, quando não há ninguém nas margens; e só quando sinto que estou me afogando nas paixões, eu me volto para Cristo. E Ele vem e ajuda. É aí que começa a fé viva-salvífica. O ensino da Ortodoxia é sobre liberdade e dignidade do homem como colaborador de Deus em sua salvação, e não como um "pilar de sal" de acordo com Lutero que não pode fazer nada. Isso deixa claro o significado de todos os mandamentos do Evangelho, levando o Cristão à salvação, não somente pela fé, e torna óbvia a verdade da Ortodoxia.

Alexey Osipov
18 / 03 / 2004

quarta-feira, 19 de julho de 2017

O Filioquismo é uma subordinação Ariana aplicada ao Espírito (Jay Dyer)

Recentemente, revisando alguns antigos manuais e catecismos dogmáticos católicos romanos, uma posição estranha se destacou para mim que eu não tinha visto anteriormente. Há muito tempo conheci as especulações de Agostinho sobre a Trindade e as relações inter-trinitárias baseadas na falsa analogia da psicologia e da fisiologia humana, mas quanto a sua elevação ao status de elemento oficial do filioquismo, não havia percebido. Naturalmente, a teologia Ortodoxa oriental rejeitou oficialmente essas premissas defeituosas que levaram a uma heresia, mas exatamente o tipo de heresia agora tornou-se ainda mais impressionante.

Em primeiro lugar, consideremos uma das formas cruciais de discussão que Santo Atanásio usa para defender a Ortodoxia contra a heresia ariana de que o Filho era uma criação. Na verdade, se assim fosse, o argumento diz: o Filho seria um produto da vontade do Pai. Se o Filho fosse um produto da vontade, então Sua vinda ao ser não é eterna, Ele não é o Logos, e a geração realmente não é diferente da criação. Todos esses elementos constituem a apologética atanasiana, mas considere o seguinte de De Synodis, onde o Santo descreve a doutrina ariana:

Blasfêmias de Ário

"O próprio Deus, em sua própria natureza, é inefável a todos os homens. Igual ou como Ele mesmo, não há ninguém. E não-gerado nós O chamamos, por causa Daquele que é gerado por natureza. Nós O louvamos como aquele que não tem princípio por causa Daquele que tem um princípio. E O adoramos como eterno, por causa Daquele que, com o tempo, veio a ser. Aquele que não tem um princípio fez do Filho um começo de coisas originadas; e o avançou como um Filho para si mesmo por meio da adoção. [...] Pois Ele não é igual, não há nenhum essencialmente igual a Ele. Sábio é Deus, pois Ele é o mestre da Sabedoria. Existe uma prova plena de que Deus é invisível para todos os seres; tanto para as coisas que são através do Filho, quanto para o Filho, Ele é invisível. Digo-o expressamente, como pelo Filho é visto o Invisível; pelo poder que Deus vê, e em Sua própria medida, o Filho perdura para ver o Pai, como é lícito. Assim, há uma tríade, não em glórias iguais. Não se misturam entre si as suas subsistências. Um mais glorioso do que o outro em suas glórias até a imensidão. Exterior do Filho, em essência, é o Pai, pois Ele não tem princípio. Entenda que a Mônada era; mas a Díada não era, antes de existir. Se segue de uma vez que, embora o Filho não fosse, o Pai era Deus. Por isso, o Filho, não sendo (pois Ele existiu à vontade do Pai), é Deus Unigênito, e Ele é exterior de qualquer um. A sabedoria existia como Sabedoria pela vontade do Deus sábio. Por isso, ele é concebido de várias maneiras: Espírito, Poder, Sabedoria, glória de Deus, Verdade, Imagem e Palavra. Compreenda que Ele é concebido para ser Luz e Radiância. Um igual ao Filho, o Superior é capaz de gerar; mas um mais excelente, ou superior, ou maior, ele não é capaz. Pela vontade de Deus, o Filho é tudo aquilo que Ele é. E quando e como Ele era, a partir desse momento Ele subsistiu de Deus. Ele, sendo um Deus forte, louva em seu grau o Superior. Para ser breve, Deus é inefável para o Seu Filho. Pois Ele é para Ele o que Ele é, isto é, indizível. De modo que o Filho não pode falar sobre nada do que está além do que é compreensível; pois é impossível para Ele investigar o Pai. O Filho não conhece a Sua própria essência, pois, sendo Filho, Ele realmente existiu, pela vontade do Pai. O argumento, em seguida, permite dizer que aquele que vem do Pai deve compreender Seu próprio Pai? Pois é claro que, para aquele que tem um começo, conceber ou ter ideia daquele que não tem um começo, é impossível." [1]

Assim, no Arianismo, pelo fato de a definição do Pai ser "ingerada", a simplicidade divina neste caso é obrigatória, que a Paternidade e a ousia sejam sinônimas (como Eunômio diria depois contra São Gregório de Nissa). Para outro ser introduzido seria impossível, pois as distinções implicariam divisões e intervalos de tempo na "essência do Pai" ingerado. Tanto para o ariano como para o eunomiano, a essência do Pai é uma Mônada completamente fechada dentro de si, enquanto, juntamente com a criação, essa essência emanou uma criação secundária, o "Filho". O interessante é que a resposta de Santo Atanásio é baseada em Colossenses e muitos outros textos, que o Filho é a imagem expressa da hipóstase do Pai, e esta geração é de toda a eternidade e, portanto, não é pela vontade.

Essa geração feita pela vontade é um alicerce do argumento ariano e sua rejeição é fundamental para o dogma ortodoxo de que o Filho é homoousios com o Pai. Na medida em que existe uma vontade em Deus, e a vontade é uma propriedade da natureza, o Pai, o Filho e o Espírito compartilham a mesma vontade natural. Este fato básico deve ser conhecido e admitido por todos, mas surge um problema devastador quando chegamos ao dogma consagrado de Roma sobre a chamada "dupla" procissão do Espírito — não só Roma reivindica erroneamente o Pai-Filho operar como uma Única fonte de "princípio único", é dito que a espiração do Espírito é da vontade do Pai e do Filho. 

O teólogo sistemático tradicional católico Ludwig Ott explica:

"O Espírito Santo procede da vontade ou do amor mútuo do Pai e do Filho".

O Catecismo Romano ensina que o "Espírito Santo procede da Divina Vontade, Inflamada, por assim dizer, com amor (uma divina voluntate veluti amore inflamata)".

"O Espírito Santo designa uma... Pessoa Divina, o nome pneuma indica que o Espírito Santo, através de uma atividade da vontade divina, procede como o Princípio da Atividade Divina (por modum voluntatis)... o Espírito Santo procede como um ato de amor".

"O objeto da Vontade Divina, pelo qual o Pai e o Filho produzem o Espírito Santo é principalmente o que Deus necessariamente ama, a saber, a Essência Divina e, secundariamente, o que Ele ama livremente, coisas criadas..." [2]

O absurdo disso deve ser imediatamente evidente, e para ser claro a citação é o Catecismo do Concílio de Trento, páginas 93-4. Note-se que isto é sententia certa, o nível de classificação tola que faz disso uma proclamação romana do que é parte da teologia revelada — funcionando "mais alto" do que o ensino ordinário comum. Sabemos, é claro, que esta doutrina surgiu com base na "analogia" agostiniana da psicologia humana. Para ser ainda mais claro, este ensinamento é explícito em Denzinger 296, onde o errôneo Concílio ocidental de Toledo interpôs o Filioque para guardar-se contra o arianismo, ao mesmo tempo que exige simplicidade divina absoluta. Isto significa que a doutrina em questão é um dogma Católico Romano e não uma mera opinião:

Profissão de Fé sobre a Trindade

"Que a designação desta "vontade" — embora através de uma semelhante comparação da Trindade, onde se chama memória, inteligência e vontade - refira-se à pessoa do Espírito Santo; de acordo com isso, no entanto, o que se aplica a si mesmo, é  predicado substancialmente. Pois a vontade é o Pai, a vontade é o Filho, a vontade é o Espírito Santo; assim como Deus é o Pai, Deus é o Filho, Deus é o Espírito Santo e muitas outras coisas semelhantes, que, segundo a substância, aqueles que vivem como protetores da fé católica não hesitam em dizer por nenhuma razão. E assim como é católico dizer: Deus de Deus, luz da luz, vida da vida, por isso é uma afirmação comprovada de fé verdadeira para dizer a vontade da vontade; assim como sabedoria da sabedoria, essência da essência; e como Deus, o Pai, gerou a Deus o Filho, assim a Vontade, o Pai, gerou o Filho, a Vontade. Assim, embora de acordo com a essência o Pai seja vontade, o Filho é vontade e o Espírito Santo é vontade, não devemos, no entanto, acreditar que existe unidade de acordo com um sentido relativo, já que um é o Pai que se refere ao Filho, outro o Filho, que se refere ao Pai, outro o Espírito Santo que, por Ele proceder do Pai e do Filho, se refere ao Pai e ao Filho; não é o mesmo, mas um de um jeito, um no outro, porque a quem há um ser na natureza da deidade, a estes há uma propriedade especial na distinção de pessoas."

Em uma passagem confusa, supostamente refutando Eunômio, Agostinho escreve sobre o Filho, Espírito e vontade:

"Certamente foi uma resposta afiada que alguém deu ao herege, que lhe perguntou sutilmente se Deus gerou o Filho de forma voluntária ou involuntária, pois, se ele falasse involuntariamente, seguiria o absurdo que Deus era miserável; Mas, se de forma voluntária, ele imediatamente inferiria, como por uma razão invencível, que estava dizendo, a saber, que Ele era o Filho, não da Sua natureza, mas da Sua vontade. Mas aquele outro, com grande atenção, exigiu dele, por sua vez, se Deus Pai era de Deus, de forma voluntária ou involuntária; a fim de que, se ele respondesse de forma involuntária, aquela miséria seguiria, que acreditar em Deus é pura loucura; e se ele dissesse de forma voluntária, seria respondido a ele, então Ele é Deus também por Sua própria vontade, não por Sua natureza. O que resta, então, exceto que ele deve manter a paz, e discernir que ele próprio estava vinculado por sua própria pergunta em um vínculo insolúvel? Mas se alguma pessoa na Trindade também deve ser especialmente chamada de vontade de Deus, este nome, como o amor, é mais adequado ao Espírito Santo; pois o que mais seria o amor, exceto a vontade?" [3]

A pessoa, a vontade, a essência, o ato ou a energia estão aqui fundidos e confundidos, como será a norma perene para a teologia ocidental, mas cito isso para mostrar que Agostinho estava bem ciente do argumento Eunomiano e Ariano de que o Filho era um produto da vontade do Pai. Embora seja certamente um argumento ruim, a resposta de Agostinho é que se qualquer Pessoa na Trindade é a vontade (ou um produto da vontade), é o Espírito! Por quê? Porque nesta tradição latina, em Deus, Suas ações são estritamente Sua essência — e não só isso, elas também são Pessoas. Ao invés da formulação Ortodoxa do amor como uma energia divina natural - em que  todas os Três têm em comum - aqui "Amor" é de alguma forma mais uma Pessoa do que outra. A "justiça" também é uma pessoa divina? E a Onisciência? Se o Espírito é a vontade, e também é um produto da vontade, a estupidez deste erro se torna manifesto, pois o Espírito espira a Si mesmo. Esta longa e louca confusão é justamente refutada no famoso tratado de São Fócio, o Grande, a Mistagogia do Espírito Santo.

Resumidamente, vamos ver que este é também o ensinamento de Tomás de Aquino (seguindo a linha de Agostinho) em seu argumento combinado com a dupla procissão:

"Além disso, a ordem da procissão de cada um concorda com esta conclusão. Pois foi dito acima (I: 27: 4; I: 28: 4), que o Filho procede pelo caminho do intelecto como a Palavra e o Espírito Santo por meio da vontade como Amor. Agora, o amor deve proceder de uma palavra. Pois não amamos nada, a menos que a compreendemos por uma concepção mental. Daí também, desta maneira, é manifesto que o Espírito Santo procede do Filho". [4]

Porque a essência divina é a hipóstase, vontade e ação, todos os predicados de Deus se misturam ao Eunomianismo clássico. O modalismo de Eunômio, como mostrado no volumoso tratado de São Gregório de Nissa, foi baseado em uma identificação isomórfica de vários termos e nomes com a essência divina. Proclamando saber o que ele não sabia, Eunômio, como Ário antes dele, imaginava tolamente as pessoas divinas como produtos da vontade divina. Santo Atanásio e o resto da teologia ortodoxa continuariam enfaticamente e dogmaticamente a rejeitar essas noções e, especificamente, a heresia das hipóstases divinas como produtos da vontade.

O Catolicismo Romano, no seu zelo para defender este erro, simplesmente transferiu um antigo argumento subordinacionista ariano sobre o Filho para o Espírito! A ironia aqui é que o filioquismo é ignorantemente apresentado como uma resposta ao Arianismo, ao mesmo tempo que fazia o mesmo argumento que os arianos fizeram sobre o Filho e aplicando-o ao Espírito — que Ele é um produto da vontade. Além disso, isto é promovido em seus manuais dogmáticos, apologias cotidianas e catecismos clássicos. Admitir que isso é um erro é realmente o colapso de todo o edifício (o que já está acontecendo de qualquer maneira).

De fato, no mesmo trabalho, Santo Atanásio repreende especulações baseadas em analogias humanas para termos como "gerado" e explica que não é pela vontade:

Assim, ao falarmos em "prole", não temos pensamentos humanos, e, embora conheçamos a Deus por ser um Pai, não cogitamos ideias materiais sobre Ele, mas enquanto ouvimos essas ilustrações e termos, pensamos adequadamente sobre Deus, pois ele não é como homem, de modo semelhante, quando ouvimos falar de "coessencial", devemos transcender todos os sentidos e, de acordo com o provérbio, "entenda pelo entendimento o que está definido para nós" (Provérbios 23:1); de modo a saber, não pela vontade, mas, na verdade, Ele é genuíno do Pai, como Vida da Fonte e Radiância da Luz. Por outro lado, por que devemos entender "prole" e "filho", de forma não corpórea, enquanto concebemos "coessencial" à maneira corpórea? Especialmente porque esses termos não são usados aqui sobre diferentes sujeitos, mas de quem a "prole" é predicada, dEle também é "coessencial". [5]

O Espírito, também, possui a mesma Divindade, Essência, Poder, Glória e Vontade do Pai e do Filho, sem ser a Vontade, Pai ou Filho:

"E em um só Senhor Jesus Cristo, Seu Filho, Deus unigênito (João 1:18), que foi gerado do Pai antes de todos os tempos, Deus de Deus, todo do todo, único do único, perfeito do perfeito, Rei do Rei, Senhor do Senhor, Palavra viva, Sabedoria viva, Luz verdadeira, Caminho, Verdade, Ressurreição, Pastor, inalterável e imutável; imagem exata da Divindade, Essência, Vontade, Poder e Glória do Pai; o primogênito de toda criatura, que estava no princípio com Deus, Deus o Verbo, como está escrito no Evangelho, "e o Verbo era Deus" (João 1: 1); por quem todas as coisas foram feitas, e em quem consistem todas as coisas; que nos últimos dias desceu dos céus e nasceu de uma Virgem segundo as Escrituras, e foi feito homem, mediador entre Deus e homem, e apóstolo de nossa fé, e príncipe da vida, como ele diz: desci do céu, não fiz a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou (João 6:38); que sofreu por nós e ressuscitou no terceiro dia, e subiu aos céus, e sentou-se à direita do Pai, e voltará em seu poder e glória, para julgar os vivos e os mortos." [6]


[1] De Synodis 2.15
[2] Fundamentals of Catholic Dogma, pgs. 66-7
[3] On the Holy Trinity 20.38
[4] Summa Theologica, I. Q36, 3
[5] De Synodis 3.42
[6] Ibid. 2.23

Tradução: Felipe Rotta

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Papismo é a mais antiga forma de Protestantismo (São Justino Popovich)

Na Europa Ocidental, o Cristianismo gradualmente se metamorfoseou no Humanismo. Durante um longo período de tempo e com perseverança, o Divino-Humano tem diminuído constantemente. Ele foi mudado, Ele foi reduzido e, finalmente, reduzido a um mero homem: ao homem "infalível" em Roma e aos homens igualmente "infalíveis" em Londres e Berlim. Foi assim que surgiu o Papado, despojando Cristo de tudo, assim como o Protestantismo fez de maneira semelhante, perguntando pouco a Cristo e muitas vezes ao nada.
No Papado e no Protestantismo, o homem substituiu o Cristo Divino-Humano, tanto pelo valor mais alto como pelo critério mais elevado.
Foram realizadas mudanças minuciosas e deploráveis no trabalho e nos ensinamentos do Divino-Humano. O Papado tem perseguido constantemente e persistentemente a substituição do Homem Divino por um homem mortal, até que finalmente, em seu dogma que define a infalibilidade de (um mero mortal), o Papa, o Cristo Divino-Humano foi de uma vez por todas substituído por um efêmero Homem "infalível"; porque graças a este dogma, o papa foi decisivo e claramente pronunciado como algo superior — não apenas para todos os homens, mas até para os Santos Apóstolos, para os Santos Padres e para os sagrados Concílios Ecumênicos. Com este tipo de desvio do Cristo Divino-Humano, da Igreja ecumênica que é o organismo do Deus-Homem, o Papado superou até mesmo Lutero, o fundador do Protestantismo.
Portanto, o primeiro protesto radical que foi expresso em nome do Humanismo, mas contra o Cristo Divino-Humano e seu organismo Divino-Humano — a Igreja — deve ser buscado no Papado, e não no Luteranismo. O Papado é de fato a primeira e a mais antiga forma de protestantismo.
O Papismo, de fato, é o Protestantismo mais radical, porque transferiu o fundamento do Cristianismo do Deus-homem eterno para o homem efêmero. E proclamou isso como o dogma supremo, que significa: o valor primordial, a medida suprema de todos os seres e coisas do mundo. E os protestantes simplesmente aceitaram este dogma em sua essência, e o ampliaram em terríveis magnitudes e detalhes. Essencialmente, o Protestantismo não é senão um Papismo geralmente aplicado. Pois no Protestantismo, o princípio fundamental do Papismo é trazido à vida por cada homem individualmente. Depois do exemplo do homem infalível em Roma, cada protestante é um homem clonado infalível, porque ele finge infalibilidade pessoal em matéria de fé. Pode-se dizer: o Protestantismo é um Papismo vulgarizado, apenas desprovido de Mistério (isto é, sacramentalidade), autoridade e poder.
Através da redução do Cristianismo, com todas as suas qualidades eternas do Deus-Homem, para o homem, o Cristianismo ocidental foi transformado em Humanismo. Isso pode parecer paradoxal, mas é verdade na sua realidade histórica irresistível e inoperável. Porque o Cristianismo ocidental é, em sua essência, o Humanismo mais promissor; e porque proclamou o homem como infalível e transformou a religião do Deus-Homem em uma religião humanista. E isso é assim, é mostrado pelo fato de que o Deus-Homem foi conduzido ao céu, enquanto seu lugar na terra foi preenchido com o seu substituto, "Vicarius Christi" — o Papa. Que tragédia ilógica: estabelecer uma substituição para o Deus onipresente e o Senhor Cristo! Mas esta concepção ilógica foi encarnada no Cristianismo ocidental: a Igreja se transformou em um Estado, o papa se tornou um governante, os bispos foram proclamados príncipes, os sacerdotes se tornaram líderes de partidos clericais, os fiéis foram proclamados subordinados papais. O Evangelho foi substituído pela compilação do Direito Canônico do Vaticano; a moral e o amor do Evangelho foram substituídos por casuísmo, jesuitismo e a "Santa" Inquisição. O que tudo isso desencadeou? Na remoção sistemática e destruição de tudo o que não se inclina para o papa, mesmo com conversões forçadas à fé papal e a queima dos pecadores para a glória dos mansos e do Senhor Jesus!
Não há dúvida de que todos esses fatos convergem para uma conclusão irresistivelmente lógica: no Ocidente não há Igreja e nenhum Deus-Homem, e é por isso que não há uma verdadeira sociedade fundada sob os valores do Deus-Homem em que os homens são irmãos mortais e imortais. O Cristianismo humanista é, na verdade, o protesto e o levante mais ativo contra Cristo e todos os valores e normas do Evangelho. E até aqui é evidente a tendência favorita do homem europeu, reduzir tudo para o homem como o valor fundamental e a medida fundamental. E por trás disso está um ídolo: Menschliches Allzumenschliches [Humano, Demasiado Humano]. Com a redução do Cristianismo para o Humanismo, o Cristianismo tem sido, sem dúvida, simplificado, mas também ao mesmo tempo destruído! Agora que o "gleischaltung" do Cristianismo com o Humanismo foi realizado, alguns na Europa estão buscando um retorno ao Deus-Homem Cristo. No entanto, os gritos dos indivíduos no mundo protestante — "Zuruck zum Jesus! De volta a Jesus!" — são gritos vazios na noite escura do "Cristianismo" humanista, que abandonou os valores e as medidas de Deus-Homem e agora está sufocado em desespero e impotência. Enquanto aos séculos passados?? Reverberá as amargas palavras do melancólico profeta de Deus, Jeremias: "Maldito seja o homem que confia no homem!"
Numa perspectiva histórica mais ampla, o dogma ocidental sobre a infalibilidade do homem não é outra coisa senão uma tentativa de reviver e imortalizar o Humanismo moribundo. É a última transformação e a ascensão final do Humanismo. Após o Iluminismo racionalista do século XVIII e o Positivismo de uma visão estreita do século XIX, nada mais foi possível para o Humanismo europeu do que desmoronar em sua própria impotência e contradições. Mas naquele momento trágico, o Humanismo religioso veio em sua ajuda com seu dogma sobre a infalibilidade do homem salvou o Humanismo europeu da morte iminente. E, embora dogmatizado, o Humanismo cristão ocidental não podia deixar de absorver todas as contradições fatais do Humanismo europeu, que estão unidos em um único desejo: exilar o Deus-Homem da terra. Porque a coisa mais importante para o Humanismo é que o homem seja o maior valor e a maior medida. Homem, não o Deus-Homem.


De acordo com nossa própria vivência na Ortodoxia: o Cristianismo é apenas o Cristianismo do Deus-Homem, através da noção de Deus-Homem e dos caminhos que levam ao Deus-Homem. Essa é a verdade fundamental. Somente Deus-Homem possui o maior valor e a maior medida. Se Cristo não é o Deus-Homem, então ele é a fraude mais impudente, porque ele se proclamou como Deus e Senhor. Mas a realidade histórica do Evangelho mostra e prova de forma irrefutável que Jesus Cristo está em tudo e em todas as coisas, o Deus-Homem perfeito. Portanto, não se pode ser cristão sem crença em Cristo como Deus-Homem e na Igreja como Seu Corpo, no qual Ele deixou toda sua Pessoa Miraculosa. O poder salvador e vivo da Igreja de Cristo está na personalidade eternamente viva e presente de Deus-Homem. Qualquer substituição do Deus-Homem por um homem e qualquer desvio do Cristianismo para escolher apenas o que agrada a preferência e a razão individual de um homem, transforma o Cristianismo em Humanismo superficial e impotente. Somente pelo poder de Deus-Homem que o Cristianismo é o sal da terra, o sal que salva o homem de toda a podridão no pecado e no mal. Se dissolve em vários humanismos, o Cristianismo torna-se aguado, torna-se sal que tornou-se plano, inútil, apto a ser jogado e pisado.
Qualquer tendência ou tentativa de um "gleischaltung" do Cristianismo com o espírito dos tempos, com movimentos efêmeros e regimes de certos períodos históricos, retira do Cristianismo o valor específico que o torna a religião singular de Deus-Homem no mundo. Na filosofia ortodoxa da sociedade, a regra acima de todas as regras é esta: não adapte Cristo para o espírito dos tempos, mas adapte o espírito dos tempos ao espírito da eternidade de Cristo — a humanidade divina de Cristo. Somente dessa maneira, a Igreja pode preservar a personalidade vivificante e insubstituível do Deus-Homem Cristo e continuar sendo uma sociedade de Deus-Homem, na qual as pessoas confraternizam e vivem com a ajuda do amor e da justiça divina, a oração e o jejum, a mansidão e humildade, bondade e sabedoria, caridade e fé, amor de Deus e amor ao irmão e todas as outras virtudes evangélicas.
De acordo com a filosofia da vida e do homem de Deus-Homem, o homem, a sociedade, a Nação e o Estado devem acomodar-se à Igreja como o ideal eterno, mas a Igreja nunca deve acomodar-se a eles, e muito menos se submeter a eles. Uma nação vale apenas, na medida em que vive as virtudes do Evangelho e encarna em sua história os valores de Deus-Homem. O que se aplica à Nação, também se aplica ao Estado. O objetivo da Nação como um todo é o mesmo que o objetivo de cada pessoa: encarnar em si mesmo a justiça evangélica, o amor, a santidade; para se tornar um homem do "povo sagrado" — "povo de Deus" — que, na sua história, proclama os valores e as virtudes divinas (1 Pedro 2: 9-10; 1: 15-16).
Eles nos perguntarão: onde estão os frutos concretos desta sociedade de Deus-Homem? Como foi que precisamente no campo da radiação da Ortodoxia surgiu a aparência do "secularismo mais radical da história humana"? (Joseph Piper). Não existe também um "Humanismo" oriental (por ex. Cesaro-papismo, etc.)? O sucesso do Humanismo social ateu sobre o solo da Ortodoxia: isso não é prova da "inabilidade da ortodoxia" para resolver os problemas sociais mais elementares?
É um fato que este mundo está no mal e no pecado. A redução de tudo para o homem é, de fato, a atmosfera em que a natureza humana pecadora e o homem em geral — não importa onde ele esteja localizado — vive e respira, e algo para o qual se esforçam. Portanto, não é de admirar que as marés dessa pecaminosidade, assim como as marés dos venenos pseudo-cristãos europeus, de vez em quando também arrastem os povos ortodoxos. No entanto, uma coisa é irrefutavelmente verdadeira: a Igreja Ortodoxa nunca dogmatizou eclesiologicamente qualquer tipo de Humanismo, mesmo se estivermos falando de Cesaro-papismo ou de qualquer outro "ismo". Com a força de sua verdadeira e incorrupta veracidade evangélica, e através do seu constante apelo ao arrependimento em relação a tudo o que não é de Deus-Homem, preservou, pelo poder do Espírito Santo, a sabedoria e a castidade de seu coração e sua alma. E por isso, permaneceu e continua a ser o "sal" da terra, do homem e da sociedade. Por outro lado, a tragédia do Cristianismo ocidental reside precisamente no fato de que, ao mudar a imagem do Deus-Homem, ou ao negá-la, tentou introduzir mais uma vez o Humanismo demonizado, tão característico da natureza humana pecaminosa, aonde? No coração do próprio organismo Deus-Homem — a Igreja, cuja essência reside precisamente na libertação do homem. E através dele em todas as regiões, para todas as pessoas e sociedades, proclamando-a como o dogma supremo, como o dogma universal. Com isso, o orgulho intelectual demonizado do homem, escondido sob o manto da Igreja, torna-se o dogma de uma fé sem a qual não há salvação! É horrível pensar nisso: o único "ofício de salvação" e adoração a Deus-Homem neste mundo, se transformou gradualmente em um "ofício" demonizado da violência sobre a consciência e desumanização! Um ofício de desfiguração de Deus e do homem através da desfiguração do Deus-Homem!
A Igreja Ortodoxa não proclamou nenhum veneno, nenhum pecado, nenhum Humanismo, nenhum sistema social terreno como dogma — nem através de concílios, nem através do "Corpo" da Igreja Ecumênica. Enquanto o ocidente, infelizmente, não fez nada além disso. A última prova: o Concílio Vaticano II.
A Fé Ortodoxa: nela, o arrependimento é uma virtude santa necessária; e sempre exige arrependimento. No Ocidente: a fé pseudo-cristã no homem não exige arrependimento; pelo contrário, "clericamente" obriga a manter a homo-idolização fatal ao homem com seus humanismos pseudo-cristãos, infalibilidade e heresias, e considera com orgulho que, em nenhum caso, são essas coisas pelas quais deve se arrepender.
O Humanismo social ateísta contemporâneo — ideologica e metodologicamente — é em tudo um fruto e uma invenção da Europa pseudo-cristã, casada com nossa própria pecaminosidade. Eles nos perguntam: como chegou no solo da ortodoxia? É Deus tentando a resistência dos justos, visitando os filhos pelos pecados de seus pais e anunciando a força de Sua Igreja, levando-a através do fogo e da água. Porque, de acordo com as palavras do sábio em Deus, Macário do Egito, esse é o único caminho do cristianismo verdadeiro: "Onde quer que o Espírito Santo esteja, segue-se, como uma sombra, perseguição e batalha. É necessário que a verdade seja perseguida". Quais são, por outro lado, os frutos da sociedade fundada sobre os valores do Deus-Homem [a Igreja]? - Santos, mártires e confessores. Esse é seu objetivo, esse é o seu significado, que é a prova de sua força indestrutível. Não livros e bibliotecas, complexos e cidades — todas as coisas que estão aqui hoje e amanhã. Os vários humanismos pseudo-cristãos completam o mundo com livros, enquanto a Ortodoxia o enche com o que é Sagrado. Milhares e centenas de milhares, mesmo milhões de mártires e recentemente martirizados, caíram pela Fé Ortodoxa — há o fruto da sociedade ancorada no Deus-Homem.
Mas e no Ocidente? Eles nem conhecem a Igreja, nem o caminho para sair da desesperança; tudo está afundado na idolatria perdida da alma, apaixonada pelo prazer, pelo amor e pelo amor pela luxúria. Daí, na Europa, vemos o renascimento do politeísmo. Os "Falsos Cristos", deuses falsos que inundaram a Europa e são exportados para todos os mercados do mundo, têm por tarefa principal a matança da alma no homem — esse tesouro único do homem em todos os mundos e em dessa forma impossibilita a possibilidade de uma sociedade genuína.
Ao escrever isso, não estamos escrevendo a história da Europa, suas virtudes e falhas, nem a história das pseudo-igrejas européias. Nós estamos apenas arquivando a enteléquia de sua ontologia, descendo na espinha do orgulho intelectual da sociedade européia, em seu subterrâneo demoníaco, onde são suas fontes negras, cuja água ameaça envenenar o mundo. Este não é um julgamento da Europa, mas um chamado de oração sincero para o caminho solitário da salvação, através do arrependimento.
(São Justino Popovich, The Orthodox Church and Ecumenism.)
"Protestantismo? É o filho leal do Papismo. Passou de uma heresia para outra ao longo dos séculos por causa de sua escolástica racionalista, e está continuamente se afogando nos vários venenos de seus erros heréticos. Além disso, a soberba papal e a tolice "infalível" reinam absolutamente dentro dela, arruinando as almas de seus fiéis. Em primeiro lugar, cada protestante é um papa independente quando se trata de questões de fé. Isso sempre leva de uma morte espiritual a outra; e não há fim para este "morrer", uma vez que uma pessoa pode sofrer inúmeras mortes espirituais (em uma vida).
Uma vez que as coisas são assim, não há saída para este impasse do ecumenismo papista-protestante com sua pseudo-igreja e seu pseudo-cristianismo sem arrependimento sincero perante o Deus-Homem Cristo e Sua Igreja Católica Ortodoxa. O arrependimento é o remédio para cada pecado, a medicina dada ao homem pelo único Amigo do homem (Cristo)".
(São Justino Popovich, "Ecumenismo Humanista", Fé Ortodoxa e a Vida em Cristo.)

Tradução: 
Felipe Rotta

domingo, 16 de julho de 2017

O Caminho do Conhecimento (Alexander Kalomiros)

Hoje, o ateísmo, bem como o Protestantismo, pode voltar-se contra a Ortodoxia. Mas este ataque fundamenta-se num engano. Eles detestam a ortodoxia porque a vêem com seus próprios critérios, com sua própria mentalidade. Eles a vêem como uma variante do Catolicismo. Isso não é devido a uma má vontade de sua parte, mas a uma incapacidade total de julgar por outros padrões e pensar com outra mentalidade.

O Catolicismo, o Protestantismo e o ateísmo estão no mesmo nível. Descendem da mesma mentalidade. Todos os três são sistemas filosóficos, descendentes do racionalismo, isto é, da noção de que a razão humana é o fundamento da certeza, a medida da verdade e o caminho do conhecimento.

A Ortodoxia está em um nível completamente diferente. Os Ortodoxos têm uma mentalidade diferente. Consideram a filosofia como um beco sem saída que nunca levou o homem à certeza, à verdade e ao conhecimento. Eles respeitam a razão humana como ninguém mais, e nunca a violam. Consideram-na como um dos fatores úteis na detecção de falsidades e na descoberta de erros. Mas eles não a aceitam como capaz de dar certeza ao homem, de iluminá-lo para ver a verdade, ou orientá-lo para o conhecimento.

O conhecimento é a visão de Deus e de Sua criação num coração purificado pela graça divina, pelas lutas e as orações do homem. "Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus".

A verdade não é uma série de definições, mas Deus mesmo, "Que apareceu concretamente na pessoa de Cristo, que disse: "Eu sou a Verdade"".

Certeza não é uma questão de harmonia intelectual; é uma profunda firmeza do coração. Vem ao homem depois de uma visão interior e é acompanhada pelo calor da graça divina. A harmonia intelectual, que é o resultado de um ordenamento lógico das coisas, nunca é acompanhada por essa firmeza.

A filosofia é caracterizada pela conceituação. O intelecto humano não pode aceitar a realidade tal como é. Transpõe-a primeiro em símbolos e depois elabora os símbolos. Mas os símbolos são figuras falsas da realidade. Os conceitos são tão distantes da realidade como uma imagem de um peixe de um peixe vivo.

A verdade do filósofo é uma série de figuras e imagens. Estes símbolos apresentam uma grande vantagem; são compreensíveis. Eles são cortados na medida do homem e satisfazem o intelecto. Mas também apresentam uma grande desvantagem; eles não têm relação com a realidade viva.

A realidade viva não se encaixa nas categorias do intelecto humano. É uma condição acima da razão. A filosofia é uma tentativa de transpor o supraracional para o racional. Mas isso é falso e fraudulento. É por isso que a Ortodoxia rejeita a filosofia e não a aceita como caminho do conhecimento.

O único caminho para o conhecimento é a pureza do coração. Só este permite que a Santíssima Trindade habite no homem. Apenas por esse caminho Deus e sua inteira criação é conhecido, sem serem conceitualizados. Ele é conhecido como Ele realmente é, sem se tornar compreensível e sem ser diminuído para se encaixar nos limites rígidos do intelecto humano. Assim, a mente (nous) do homem, viva e incompreensivelmente, se une com o Deus vivo e incompreensível. O conhecimento é o contato vivo do homem com o Criador e Sua criação, no amor mútuo.

A experiência do conhecimento é algo que não pode ser expresso em palavras humanas. Quando o apóstolo Paulo conheceu, ele disse que tinha ouvido palavras inefáveis - algo que é impossível para o homem expressar.
São Paulo

Tal é a teologia cristã mais profunda - inexprimível. Dogmas são formulações úteis. Mas não são conhecimentos reais; simplesmente orientam e protegem contra erros. Um homem pode ter conhecimento sem conhecer os dogmas, e ele pode conhecer todos os dogmas e aceitá-los sem ter conhecimento. É por isso que, além da teologia afirmativa dos dogmas, os Padres reconheciam o profundo mistério da teologia negativa onde nenhuma definição é aceitável, onde a mente está em silêncio e deixa de se mover, onde o coração abre a porta para receber o Grande Visitante "que fica diante da porta e bate", onde a mente vê Ele que É.

E ninguém pense que essas coisas são verdadeiras somente no que diz respeito ao conhecimento supraracional que é um movimento de Deus em relação ao homem. O homem não pode conhecer nada com sua razão, e pode ter certeza de nada - nem de si mesmo, do mundo, nem mesmo das coisas mais comuns e ordinárias.

Quem honestamente esperou ouvir o silogismo de Descartes "Penso, logo existo"  para ter certeza que realmente existe? E quem esperou os filósofos provarem que o mundo ao seu redor é real para poder acreditar que é? Além disso, tal prova nunca existiu e nunca existirá, e aqueles que estão envolvidos na filosofia sabem disso. Ninguém jamais conseguiu realmente provar por sua razão de que nossos pensamentos e nós próprios, bem como o mundo que nos rodeia, não são fantasias. Mas mesmo que alguém provasse logicamente, o que é impossível, essa prova lógica não seria capaz de assegurar a ninguém.

Se estamos certos de que existimos e de que nossos amigos não são invenções da nossa imaginação, isso não é devido às provas dos filósofos, mas a um conhecimento interior e a uma consciência interior que nos dá certeza de tudo sem silogismos e provas.

Este é um conhecimento natural. É o conhecimento do coração e não do cérebro. É o fundamento seguro de cada pensamento. Razão pode construir sobre tal fundamento sem medo de desabar. Mas sem ele, a razão fundamenta-se na areia.


É esse conhecimento natural que guia o homem no caminho do Evangelho e permite que ele separe a verdade da mentira, o bem do mal. É o primeiro passo que ergue o homem ao trono de Deus. Quando o homem, na sua livre vontade, ascende aos primeiros passos do conhecimento natural, então o próprio Deus se inclina e cobre-o com esse conhecimento celestial dos mistérios "que ao homem não é lícito falar."

A pregação dos Apóstolos e dos Pais, dos Profetas e do Evangelho, as palavras do próprio Cristo, são direcionadas ao conhecimento natural do homem. Esta é a província dos dogmas e da teologia afirmativa. Este é o berço onde a fé nasce.

O início da fé é a capacidade do coração de entender que a verdade fala no pequeno livro chamado Evangelho, que naquela igreja comum de pessoas pobres e crentes, Deus descende e habita. Quando o medo se apodera de alguém, quando se pisa na terra que a mão de Deus estabeleceu, quando se olha para o mar grande e amplo, quando se caminha e respira, então seus olhos começarão a derramar lágrimas - lágrimas de arrependimento, lágrimas de amor, lágrimas de alegria - e sentirá as primeiras carícias de mistérios indescritíveis.

O conhecimento natural existe em todos os homens, mas não se encontra na mesma pureza em todos. O amor ao prazer tem o poder de escurecê-lo. As paixões são como uma neblina, e é por isso que poucos homens acham o caminho para a verdade. Quantas pessoas se perderam no labirinto da filosofia, procurando uma pequena luz que nunca verão?

Neste labirinto, não é importante se alguém seja cristão ou ateu, protestante ou católico, platônico ou aristotélico. Existe uma marca de identificação comum em todos - a escuridão. Quem entra na caverna do racionalismo deixa de ver. E, independentemente das vestimentas que veste-se, elas assumem a mesma cor escura. Em suas discussões eles se entendem muito bem porque têm os mesmos pressupostos, os pressupostos da escuridão. Mas é impossível para eles entender aqueles que não estão no labirinto e que vêem a luz. E, não importa o que aqueles de fora diga, eles entendem tudo com seus próprios pressupostos e não podem ver de que maneira os outros podem ser superiores.


Alexander Kalomiros no livro Against False Union 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Conversações sobre a Oração do Coração (Kyriacos C. Markides)

"Muito daqueles que vem nos visitar no Monte Atos assumem que nós monges possuímos fórmulas mágicas e segredos apócrifos. Eles esperam que, quando essas fórmulas esotéricas lhe forem transmitidas, eles estarão no caminho da perfeição espiritual. Não estou ciente de tais segredos", declarou o padre Maximos enquanto caminhávamos uma curta caminhada e nos sentamos em um banco debaixo de um carvalho com vista para o mosteiro Panagia.

Manuseando seu komboschini (NT: Cordão de Oração), ele explicou que de acordo com os ensinamentos dos anciãos, o caminho para a perfeição espiritual não é outra coisa senão a participação plena na metodologia da Ecclesia (NT: Igreja). Isso pressupõe oração, jejum, obediência a um ancião, confissão, arrependimento, comunhão, estudo da Palavra de Deus e escritos de anciãos iluminados, e assim por diante. "Não temos segredos e fórmulas secretas sobre como chegar a Deus", ele zombou. "Uma vez que você começa seriamente a participar dos métodos prescritos da Ecclesia, você é revigorado e elevado espiritualmente. É concedido o tipo de alimento espiritual apropriado para você".

"Isso acontecerá automaticamente?", perguntei.

"Entenda deste modo. A Ecclesia é como o maná com que Deus alimentou os hebreus famintos. A comida do maná era a mesma para todos. No entanto, através da Graça de Deus foi transmutada de forma a satisfazer as necessidades nutricionais específicas de cada indivíduo. Digamos que alguém precisava de vitamina B, então o maná deu a essa pessoa mais dessa vitamina. Alguém precisava mais de vitamina D, mais uma vez o maná transformou-se de forma milagrosa naquela vitamina. Deus alimentou Seu povo de uma maneira pessoal e individualizada.

"O mesmo princípio se aplica à Ecclesia", continuou o padre Maximos enquanto mexia em sua barba. "Durante a Divina Liturgia, o Espírito Santo é ativado de forma diferente para cada indivíduo. Em uma pessoa, pode gerar um profundo sentimento de amabilidade, em outra, um profundo sentimento de reverência. Cada pessoa recebe o que é necessário para seu crescimento espiritual. Esta é a razão pela qual, como mencionei no outro dia, não devemos nos preocupar com o quanto avançamos ".

O padre Maximos continuou a apontar que os seres humanos variam muito em seu nível de compreensão e maturidade espiritual. Eles não são todos da mesma idade espiritual. No entanto, todos podem ser acomodados dentro da Ecclesia precisamente porque o Espírito Santo trabalha desta maneira misteriosa, oferecendo a cada pessoa uma quantidade certa e específica de alimento.

“Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, não foi ensinado para ninguém alguma lição secreta que os conduziu em seu desenvolvimento espiritual, absolutamente ninguém. Todos nós começamos de uma maneira muito simples e procedemos com base em nossa receptividade e nível de desenvolvimento. A maioria dos ensinamentos dos anciãos são, na verdade, formas de exercícios práticos para superar o orgulho e desenvolver a verdadeira humildade e compaixão. Não há espiritualidade sem humildade genuína. Isso é um axioma."

O padre Maximos sorriu quando se lembrou de um episódio de seu próprio aprendizado. "A primeira tarefa que recebi do meu ancião era ir e lavar o chão da igreja. Eu esperava que ele me instruísse sobre os segredos da oração mental e assim por diante. Em vez disso, ele me entregou uma vassoura, uma esponja e um balde de água..."

"A experiência que você acabou de descrever é semelhante a outro novato que foi ao Monte Atos para se tornar um mestre dos segredos espirituais", interrompi enquanto tirava da minha bolsa um livro que eu estava lendo. Comecei a folhear as páginas. Em seguida, traduzi uma passagem relevante para o grego, sentença por sentença.

"Não há muito tempo atrás", eu li, "um jovem aspirante ao monaquismo foi ao Monte Atos. Ao falar com o venerável abade do mosteiro, onde desejava ficar, disse-lhe: "Santo Pai! Meu coração arde pela vida espiritual, pelo ascetismo, pela incessante comunhão com Deus, pela obediência a um ancião. Instrua-me, por favor, Santo Pai, para que eu possa alcançar o progresso espiritual". Ao entrar na estante, o abade tirou uma cópia de David Copperfield por Charles Dickens. "Leia isso, filho", disse ele. - "Mas, pai!" - objetou o aspirante perturbado. "Isto é sentimentalismo vitoriano heterodoxo, um produto do cativeiro ocidental! Isso não é espiritual; nem é ortodoxo! Preciso de escritos que me ensinem a espiritualidade! O abade sorriu, dizendo: "A menos que primeiro você desenvolva sentimentos cristãos e humanos, aprenda a ver a vida como Davey fez - com simplicidade, gentileza, calor e perdão - então, toda a espiritualidade Ortodoxa e os escritos Patrísticos não só não serão ajuda alguma para você, eles o transformarão em um monstro espiritual e destruirão sua alma "

"Ótimo!", reagiu o padre Maximos. "É isso que os anciões nos advertem vez ou outra". O conhecimento espiritual por si só não nos leva a Deus. Na verdade, pode nos impulsionar na direção oposta. Podemos sucumbir à tentação e fantasiar que, porque somos conhecedores, somos especialmente favorecidos por Deus. Poderia estimular nosso orgulho e vaidade", apontou o padre Maximos enquanto eu colocava o livro de volta na minha bolsa.

"Padre Maximos", interrompi-o abruptamente com urgência na minha voz, "em breve partirei do mosteiro e ainda tenho algumas perguntas que eu gostaria que fossem esclarecidas".

"Bem, o que você está esperando?", ele me estimulou enquanto olhava para a Baía de Morphou estendida à distância através do barranco próximo ao terreno do mosteiro.

"Você enfatiza constantemente a centralidade da oração incessante para a vida espiritual. A questão que muitas pessoas levantarão é a seguinte: por que se empenhar em oração e não em outra coisa, a meditação, por exemplo? Primeiro, qual é o propósito da oração? Segundo, como alguém se empenha na oração incessante?"

O padre Maximos mexeu com seu komboschini por alguns segundos para recolher seus pensamentos. Então, depois de encher os pulmões com uma profunda respiração, ele respondeu. "A Ecclesia, como discutimos muitas vezes, tem como objetivo principal a restauração dos seres humanos para seu estado natural, em unidade com Deus. Nós dissemos que antes da Queda, os seres humanos viviam em um estado de contínua contemplação de Deus. Após a queda, nossas mentes e corações se dispersaram e focaram nos objetos deste mundo e, portanto, fomos excluídos dessa conexão e unidade sagrada."


"Você conhece o verdadeiro significado do pecado?", perguntou o padre Maximos abruptamente, como se mudasse o assunto.

"Bem", respondi, "as pessoas pensam no pecado como uma violação de algum código moral. Mas eu sei que isso não é o que você tem em mente. O antigo entendimento de amartia, de pecado, é algo como "fora da meta", o que significa ser separado de Deus ".

"Bom. Quando dizemos, por exemplo, que esse ato é pecaminoso, alguém pode se perguntar por que é assim? Por que a luxúria é um pecado, já que traz prazer para a pessoa e não machuca ninguém? Por que a avareza é um pecado ou a gula?

"Os anciãos ensinam", continuou o padre Maximos, "quando sua mente e coração, seu nous, ficam presos aos objetos deste mundo, quer sejam objetos chamados de dinheiro ou prazeres do corpo, ou egoísmo, opiniões ou ideologias ou qualquer outra coisa, então, você está cometendo amartia, um pecado. Você se torna escravizado por essas distrações que mantêm o coração e a mente longe de Deus ".

"Você está implicando então que todos devemos abandonar o mundo e entrar para um mosteiro?" eu reagi com uma dose de protesto na minha voz.

"Nada disso. Basta estar ciente de não escravizar sua mente e seu coração com os objetos desse mundo que o impedem de Deus. Você sabe o que mais os anciãos dizem? Que é possível que uma pessoa seja extremamente rica, mas não seja considerada rica aos olhos de Deus. Alguém mais pode possuir apenas uma única agulha e ser rico nos olhos de Deus. Por outro lado, uma pessoa rica pode ser livre da avareza e psicologicamente completamente livre de sua riqueza e estar perto de Deus, enquanto uma pessoa que possui apenas uma única agulha pode ter sua mente e coração presos naquela agulha ".

"Então a afirmação de Jesus de que é mais fácil para um camelo atravessar o buraco de uma agulha do que um homem rico entrar no Reino dos Céus deve ser interpretado sob esta luz".

"Claro. A pessoa "rica" que não pode entrar no Céu é a pessoa que está obcecada com as coisas desse mundo, seja seus milhões ou sua agulha. Entrar no Reino dos Céus significa libertação dos objetos deste mundo, o que os anciãos chamam de kenosis ou esvaziamento".

“E quanto a oração?”

"Eu estou chegando lá. A metodologia da Ecclesia nos ajuda a alcançar essa liberdade, a kenosis das paixões. A oração é a força que impulsiona o ser humano na direção de se reconectar com Deus. A oração necessita fechar todas as portas para pensamentos, idéias e obsessões, e que se direcione todas as energias para este Deus pessoal. Não é um movimento em direção a uma inteligência impessoal abstrata além do mundo manifesto ou além das nuvens. Em vez disso, no momento em que eu começar a invocar o nome de Deus, eu começo a estabelecer um relacionamento pessoal com Ele. É para essa Pessoa que minha alma começa a se mover enquanto oro".

"Em termos práticos, como se deve orar?", eu interrompi.

"Como você sabe, existem muitas maneiras e formas de oração", respondeu o padre Maximos. "Uma maneira é rezar junto com os outros. Não somos átomos isolados no universo. Somos pessoas em relacionamentos. A oração comunitária reafirma nossa conexão uns com os outros e com Deus.

"Há também a oração pessoal. A Ecclesia, baseada sempre na experiência dos santos anciãos, nos oferece uma infinidade de orações que podemos recorrer quando oramos por nós mesmos. Há orações para todas as ocasiões que podemos utilizar, dependendo dos problemas que enfrentamos ".

"E essas orações são carregadas com energia espiritual", ressaltei.

"Sempre! Elas foram escritas por santos anciãos conscientes de Deus que foram preenchidos com a Graça do Espírito Santo. Seu amor por Deus transbordava enquanto escreviam seus poemas, da mesma maneira que os amantes escrevem poesia para expressar seu amor um pelo outro".

"Os santos são os amantes de Deus", reafirmei quando lembrei de uma conversa anterior com o padre Maximos. Durante essa discussão, ele afirmou que o chamado "temor de Deus" é uma grande distorção do cristianismo com base em uma compreensão infantil de Deus. O "temor de Deus" dos santos, afirmou, refere-se ao temor de perder a conexão com Deus, o Amante Divino, e não o medo de um déspota patriarcal que governa o universo com um punho de ferro.

"Foi nesse espírito que os hinos da Ecclesia foram escritos", repetiu o padre Maximos. "ao adotar o hábito de ler orações escritas por santos, nos conectamos com o espírito de santidade que motivou a redação dessas orações. A energia do amor divino, tal como está inserida nesta poesia, é então transferida para nossas próprias almas. Essa é a razão pela qual é importante aprender a orar usando essas orações bem estabelecidas. Suponhamos, por exemplo, que você experimente algo que cause grande tristeza. Você poderia então ler a paraklesis, ou cânon de súplica, para a Santíssima Virgem ou a paraklesis para Cristo. Ao se concentrar nas palavras dos hinos, dos Salmos ou do Evangelho, você se conecta com a energia divina que foi a própria fonte de inspiração que levou à redação desses versículos ".

"Mas às vezes, padre Maximos, as pessoas não entendem seu significado".

"Não importa. Você ainda pode obter o benefício. A energia espiritual que emana dessas palavras ainda pode afetá-lo de maneiras que talvez você não esteja ciente ".

O padre Maximos falou sobre Efche  (NT: oração), "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador", um assunto que discutimos antes. Esta forma especial de oração tem sido considerada pelos santos anciãos como central para a vida espiritual. Ele me lembrou que a Oração deve ser recitada continuamente pelo peregrino sério. Em tempo integral pelo os que praticam as artes espirituais. É, segundo ele, o medicamento mais potente para a cura da alma, a "ciência das ciências", precisamente porque é o método que, uma vez dominado, pode levar à abertura das portas em direção a Deus. Repetindo essas simples palavras, padre Maximos disse que, em virtude de seu poder, pode nos levar para reinos além das palavras e ao grande mistério da Theosis.

"Talvez estes sejam os segredos espirituais que as pessoas estão procurando", sugeri.

"Espere um pouco. Quaisquer que sejam os segredos revelados, esses não são resultado do conhecimento intelectual de alguma fórmula oculta. São revelações que vêm de cima como resultado da purificação do coração através da profunda metanoia e humildade. Como diz Sofrônio, é quando a Oração é energizada como uma chama reconfortante dentro do indivíduo, que são oferecidos insights e inspirações divinas. É, nas palavras dele, "o doce sentimento do amor de Deus que arrebata a mente e a expõe a visões espirituais, que ocasionalmente são acompanhadas por visões da Luz Divina. São os presentes que são oferecidos à alma que luta pela união com Deus".

"São segredos que não podem ser desbloqueados pela razão pura", acrescentei enquanto pensava na idéia kantiana da impossibilidade da razão de conhecer a natureza da realidade última. Eu mantive esses pensamentos enquanto o padre Maximos continuava.

"Quando você pratica a Oração de Jesus de forma sistemática, é como se você se movesse dentro de uma cidade poluída usando uma máscara de oxigênio no rosto. Nada pode te tocar."

"Parece simples", eu disse, "quero dizer, repetir mais e mais 'Senhor Jesus Cristo, tenha piedade de mim'".

"É simples em sua expressão, mas rico em energia. Também é simples na sua implementação, pelo menos em suas etapas iniciais. No início pensava que aprender sobre a Efche, a Oração, era uma espécie de iniciação complexa que eu tinha que passar, mas quando conheci meu ancião, ele me entregou um komboschini e me pediu para começar a recitar a Oração com humildade e sem fantasias, nada mais. 'Vá e faça isso', ele me pediu, 'e então conversaremos novamente'".

"Quanto tempo nós que vivemos no mundo devemos nos dedicar a Oração?", perguntei.

"Você pode começar com apenas cinco minutos por dia. Mas é importante ser consistente. Depois de algumas semanas você pode dedicar mais tempo, como dez minutos de manhã e dez à noite, mas sempre na mesma hora do dia e em um lugar calmo. No começo, pode ser difícil concentrar-se. Sua mente pode desviar-se, mas você deve persistir. Espera-se que no momento em que começar a Oração, você começará a se lembrar de todo o trabalho que você precisa fazer, todas as coisas que você esqueceu de fazer durante o dia e assim por diante. Não desista sob nenhuma circunstância."

O padre Maximos continuou dizendo que, antes de começar com a Oração de Jesus, é útil "aquecer o coração" com alguns minutos de oração habitual. Depois disso, pode-se começar a recitar e se concentrar na Oração de Jesus, afugentando todos os outros pensamentos.

"No momento em que você perceber que sua mente está vagando aqui e ali, você deve fazer um esforço para trazê-la de volta e mantê-la focada nas palavras da Oração. Este é o primeiro passo sobre como orar sem cessar".

O padre Maximos riu quando lembrou-se de um incidente com um colega monge no Monte Atos. "Ele sempre foi muito esquecido", afirmou, "mas, felizmente, no momento em que ele começava a orar, o diabo sempre lembrava de todas as coisas que ele esqueceu de fazer durante o dia".

O padre Maximos afirmou que a Oração de Jesus pode se tornar um hábito que pode gerar o tipo de energia que pode "abrir nossos corações". O ser humano, então, começa a manifestar uma sensibilidade radicalmente diferente. "A graça visita o coração, levando à ressurreição de poderes latentes, e a pessoa começa a funcionar dentro das energias de Deus. "Sabe", continuou dizendo com um tom sério de voz, "para os santos, a oração de Jesus é mais importante do que a sua própria respiração".

"Então, os mistérios e os segredos de Deus são revelados pela da Graça como consequência natural da oração de Jesus", eu conclui.

"É um fator central. Mas este estágio não pode ser alcançado tão facilmente. Para que a Oração alcance os recessos mais profundos da alma, exige-se uma luta espiritual constante e persistente. Uma vez que isso é alcançado, a pessoa é iluminada e dotada de sabedoria. Naquele estágio, um instrumento diferente de compreensão, além da lógica e da mente racional, é ativado. Na verdade, ele guia a lógica, pois é superior a ela. Uma pessoa que atinge esse estado de espírito julga tudo somente depois que passar pelo teste da Oração. Se uma mensagem vier durante a oração que contraria a lógica, essa pessoa obedecerá a mensagem que veio durante a oração, independentemente do que a lógica convencional diz. Verdadeiramente, Kyriaco, quando o espírito da Oração de Jesus assume o coração, só então as pessoas se curam nas profundezas de seu ser. A chama de Deus foi acesa no coração ".

"Padre Maximos, outro dia, alguém que estava à espera da confissão me mencionou que sempre que está em um avião prestes a decolar, ela começa a recitar a Oração. Mas ela se sente desonesta. Que, de alguma forma, ela tem um motivo escondido, manter-se segura. Quando essa idéia entra na cabeça, ela perde o desejo de orar ".

"Não importa quais são seus motivos quando você se concentra na Oração. Mesmo que suas intenções não sejam perfeitas, com o tempo, a prática sistemática da oração também irá aperfeiçoar seus motivos. O que acontece, entenda, é que a Oração de Jesus lhe ensina como orar. Faça a Oração e então Deus cuidará do resto. Ele o guiará para Ele através da Oração ".


Do livro Mountain of Silence por Kyriacos C. Markides