Cristianismo Ortodoxo

Cristianismo Ortodoxo

terça-feira, 6 de junho de 2017

Meu êxodo do Catolicismo Romano por Mons. Paulo de Ballester (Parte 2/3)

Bispo Paulo de Ballester



CAPÍTULO 4
"TU ÉS PEDRO"

Fui aconselhado pelas pessoas mais objetivas da minha fé a estudar a base bíblica do papado. Pensavam que eu deveria rever os versículos das Escrituras citado pelo papado como prova e justificação da chamada "Primazia de Pedro".(150) Eu achei esse conselho justo e muito a meu gosto, pois isso proporcionaria a oportunidade de pesquisar o assunto à luz e com base nas Sagradas Escrituras. Naturalmente, selecionei como objeto da minha pesquisa o versículo mais proeminente, que aparece no capítulo 16 do Evangelho de Mateus e que serviu de base ao ensinamento sobre o primado: "Eu vos digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja"(151).


Para o catolicismo romano, esta frase do Senhor dirigidas a Simão Pedro constitui a instituição divina da autoridade papal (152). O jesuíta Bernardino Llorca escreve:


"Como recompensa por sua confissão notável da divindade de Jesus Cristo, Ele anunciou a Pedro que ele seria a pedra angular; em essência, a cabeça e a mais alta autoridade do edifício de Sua Igreja (153)... Para os apóstolos, esta metáfora (Pedro = Rocha) que mostra que ele é o fundamento da Igreja, prova claramente que ele foi estabelecido como seu governante supremo. O significado desta metáfora é que ele deveria ser para a Igreja aquilo o que uma pedra angular é para um edifício. E, assim como em todos os edifícios a pedra angular estabiliza e unifica toda a estrutura, também na Igreja, ele (Pedro), é a única estabilidade concedida e a verdadeira unidade (154) ".

De acordo com a interpretação acima deste versículo da Bíblia, a Igreja Católica Romana ensina que São Pedro, o primeiro papa, "é o fundamento e a pedra angular da Igreja, o governante supremo e sua cabeça, e o mestre infalível do mundo" (155). Certamente, este é o ensino oficial e exigido (da Igreja Católica Romana), isto é, "segundo a vontade e ordem de Deus, a Igreja permanece sob o bendito apóstolo Pedro, como um edifício permanece sob a sua fundação" (156 ). Consequentemente, de acordo com o Concílio Vaticano II, esse ensinamento manifestamente errôneo é apresentado em total acordo "com o significado aparente e absoluto das Escrituras, como sempre tem sido entendido pela Igreja Católica" (157).

Apesar dessas afirmações, na minha opinião, esta alegação papal, que supostamente tem sido "sempre entendido pela Igreja Católica", está diametralmente oposta ao "significado aparente e absoluto das Escrituras." Na verdade, poucas coisas na Escritura são tão aparentes e tão claras como esta verdade: "Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, que é Jesus Cristo" (158).


"Jesus Cristo é o único verdadeiro fundamento da Igreja", de acordo com Santo Atanásio (159). Paulo diz que o Senhor é e estabeleceu o único fundamento. O apóstolo Paulo com o apóstolo Pedro "construíram a Igreja de Roma (160), porque 'o Senhor Jesus Cristo é o fundamento de todos os setores da Sua Igreja'"(161). "Sempre que a Escritura refere-se à fundação", diz São Gregório, o Dialogista, "não é para outro senão o Senhor" (162).

Parece absurdo que alguém que já tenha lido alguma vez os livros canônicos do Antigo (163) e do Novo Testamento (164) possa negar que Jesus Cristo seja a Rocha e o fundamento da Igreja.



As palavras do Senhor, "Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja", registrado no Evangelho de Mateus, não são repetidas por nenhum outro dos evangelistas. Embora João tenha sido uma testemunha ocular da confissão de Pedro, ele não dá testemunho a este respeito no seu Evangelho, e nem Lucas, nem Marcos, que foi discípulo, companheiro, intérprete do próprio Pedro e que compilou o seu Evangelho de acordo com o espírito e ensino do apóstolo Pedro.


Aparentemente, os evangelistas não eram nem partidários nem defensores da primazia papal, na medida em que não existe correspondência em seus escritos sagrados sobre este ensino que, segundo o Catolicismo Romano, é "o elemento mais importante do cristianismo" (165), "síntese e essência "(166). Talvez fizesse mais sentido ter o Espírito Santo como responsável por esta omissão imperdoável, já que eles agiram sob a sua orientação e "falaram movidos por Ele" (167). 


Da mesma forma, os discípulos imediatos dos apóstolos, na segunda geração do cristianismo, não dão nenhuma indicação da passagem em questão. De fato, nos escritos dos Padres Apostólicos, fora dos 412 versos citados da Escritura, nenhum se refere a confissão de Pedro, que se encontra única e exclusivamente no Evangelho de Mateus. O mesmo vale para os outros versos da Escritura utilizados pelos católicos romanos para defender o primado papal. 


A notória versão católica romana de "Tu és Pedro ...", também está ausente na Didach (Ensinamentos dos Doze Apóstolos), em Clemente, em Inácio, em Policarpo, em Barnabás, no discurso a Diogneto, e nos fragmentos de Papías , e inclusive no Pastor de Hermas, cujo principal objetivo é a organização e a constituição da Igreja.

Por conseguinte, parece evidente que a Igreja dos primeiros dois séculos estava alheia a este elemento, que supostamente serve como "base absoluta para o Cristianismo" (168). 



Esta omissão torna-se mais claramente visível no Pastor de Hermas, já que Hermas era o irmão de Pio, bispo de Roma, e como nos informa o Cânone Muratori, escreveu esta obra durante o episcopado de seu irmão. Nesta obra, Hermas descreve a posição dos apóstolos, bispos, mestres e diáconos (169), oficiais (170) e sacerdotes (171) que presidiam na Igreja. De fato, o Pastor de Hermas, que é um relato muito detalhado da organização da Igreja, cheio de imagens e símbolos de sua hierarquia, não contém um único testemunho que sugere a posição única de um bispo como líder geral de toda comunidade cristã. É significativo, portanto, que mesmo o irmão do bispo de Roma, ignorou completamente o tema da primazia papal.

A primeira referência ao verso da escritura sobre a confissão de Pedro aparece na segunda metade do segundo século, por volta do ano 160, quando Justino Mártir escreveu seu Diálogo com o judeu Trifón. A maneira indiferente em que Justin descreve a confissão do apóstolo é bastante reveladora:

"Um de seus discípulos, aquele que O confessou como Filho de Deus pela revelação do Pai, era chamado primeiramente de Simão, e então Ele (Jesus) o chamou de Pedro" (172).




Já no final do mesmo século, pela primeira vez na filologia eclesial, apareceu uma nota referente sobre esse versículo, ainda que não muito confiável. Esta se encontra no Diatessaron do sacerdote siríaco Taciano. Esta obra era de grande importância, pois substituiu quase que por completo os quatros evangelhos canônicos na Igreja Siríaca, ao menos até a primeira metade do século IV. A nota na margem diz: Bem-aventurado és tu, Simão. E as portas do Inferno não prevalecerão contra ti" (173).  Com base no significado dado as palavras "portas", só podemos concluir que se refere à vitória de Pedro sobre a morte (174).

De Justino Mártir, passamos a Idade de Ouro da Igreja buscando outras referências a este versículo. Inicialmente, a primeira observação dos Padres foi que o Senhor chamou seu apóstolo de Petros, um substantivo grego masculino, ao mesmo tempo constataram que construiria a Igreja sobre "petra", um substantivo feminino.



O texto grego faz claramente distinção entre os substantivos e impede a possibilidade de identificar Petros com petra. A explicação oferecida pelos Padres e outros escritores eclesiásticos é que petra (rocha) sobre a qual a Igreja foi construída não era a pessoa do apóstolo Pedro, porque, nesse caso, o Senhor teria usado a expressão "e sobre este Petros" (175). Consequentemente, muitos dos Padres inclinaram-se a interpretar a palavra "rocha" como uma confissão de fé no Filho de Deus, uma interpretação dada tempo atrás por São Judas aconselhando-nos a ser "edificados vós mesmos sobre o fundamento da vossa santíssima fé... "(176).


Outra interpretação sugere que a "rocha" é o próprio Cristo, a quem os profetas descreveram como a esperada Rocha de Israel (177), algo que Ele também diz de Si mesmo (178). 


Por fim, alguns outros escritores como Tertuliano - ainda que eles também, às vezes, identificam a rocha com o apóstolo - extraem apenas um significado espiritual a esta intepretação metafórica. Eles não consideram que este é um privilégio especial do apóstolo em comparação com os outros, e certamente não consideram como único sucessor (179). O bem-aventurado Agostinho escreveu em suas Confissões que, em primeiro lugar, pensou que este versículo da Bíblia identificava a rocha com o apóstolo. Mais tarde, no entanto, após um exame minucioso, ele entendeu que a interpretação correta é que a Rocha sobre a qual se funda a Igreja é Aquele a quem o apóstolo Pedro confessou ser o Filho de Deus (180). O bem-aventurado Agostinho sempre manteve este ensinamento, algo que parece evidente em inúmeros pontos de suas obras. Ele postula o seu argumento com esta interpretação:

"Já que a Rocha é um substantivo próprio, Pedro recebe seu nome a partir da Rocha e não a Rocha a partir de Pedro, de igual modo como cristãos recebemos este nome a partir de Cristo, e não Cristo a partir dos cristãos. "'Tu', disse Cristo, 'és Pedro, e sobre esta Rocha que confessastes dizendo 'Tu és Cristo, o Filho de Deus', construirei minha Igreja'; [Construirei] sobre Mim, que Sou o Filho de Deus vivo." (181) 



O bem-aventurado Agostinho repete, quase literalmente, em sua primeira homilia sobre a Festa dos Santos Apóstolos, Pedro e Paulo (182). É ainda mais claro em sua quinta homilia de Pentecostes: 

"Eu estabelecerei a minha Igreja sobre esta Petra (Rocha); não sobre Pedro (Petrum), não sobre sua pessoa, mas sobre a Rocha (Petram) que ele confessou "(183).
Mais adiante, em seu vigésimo quarto Tratado sobre João o Evangelista:

"Sobre esta Rocha que tu confessastes Eu edificarei a minha Igreja, porque o próprio Cristo é a Rocha" (184).



Este mesmo Santo Padre deu uma resposta sarcástica a alguns que, assim como papistas hoje, identificam o apóstolo Pedro com a Rocha. Ao interpretar os versos da apostasia de Pedro, Santo Agostinho pergunta ironicamente com seu ardente comportamento característico:


"E onde está vossa Rocha agora? Onde está a solidez? O próprio Cristo era a Rocha, enquanto Simão não era mais que... o firme Pedro. A verdadeira Rocha ascendeu para fortalecer Pedro, que se acovardou e abandonou a Rocha"(185).


Sobre esta Rocha divina - que é Seu verdadeiro Filho - Deus situou a "fundação relativa", isto é, o primeiro elemento humano da Igreja. Esta fundação é constituída por todo o grupo dos Apóstolos, sem que Simão Pedro possua qualquer posição especial de autoridade. O apóstolo Paulo ensina isto (186), e João Evangelista concorda naquilo que foi revelado em uma de suas incríveis visões apocalípticas, que o edifício da Igreja estava construído sobre a Rocha, que "tinha doze fundamentos, e sobre eles os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro" (187).

Assim, Santo Inácio de Antioquia escreveu aos Trallianos que "sem estes (os apóstolos), até mesmo o nome de Igreja é inexistente" (188). São Cipriano expressa a mesma coisa em palavras diferentes, ensinando que a Igreja permanece no "super episcopado", que significa os apóstolos e seus sucessores (189), que estavam enraizados na rocha inabalável de nosso Senhor Jesus Cristo (190).


Aceitar que a Igreja foi fundada somente sobre Pedro, excluindo todos outros apóstolos, como reivindica o sistema papista (191), é equivalente a comparar o Salvador com o "homem tolo" da parábola, "que construiu sua casa sobre a areia... e desmoronou, e grande foi sua queda" (192). São Jerônimo escreve a Joviano o herege: 


"Tu afirmas que a Igreja foi fundada sobre o apóstolo Pedro, mas a verdade é que ela foi fundada sobre os apóstolos, e o poder da Igreja se manifestou em todos eles" (193).  


O estudo dos ensinamentos dos Padres em relação a este problema foi bastante útil para mim. Em verdade, de acordo com São Vincentde Lerins:

"É necessário, para evitar o problema e o labirinto da ilusão, que o método de interpretação bíblica esteja em conformidade com, e dentro dos auspícios do espírito tradicional eclesial" (194).  

Após esta pesquisa patrística, eu não tinha dúvida de que o ensinamento católico romano a respeito do primado papal de Pedro era diametralmente oposto ao "sentido óbvio e muito claro" das Escrituras, dos ensinamentos dos apóstolos, da interpretação dos Santos Padres e, no geral, do ensinamento reto e Tradicional da Igreja de Cristo (195). 


CAPÍTULO 5
O INÍCIO DA DISPUTA

Uma vez que minhas conclusões tornaram-se públicas, o rumor que de que eu era um monge perigoso, suspeito de heresia, começou a circular. Um bispo, hoje cardeal, escreveu-me estas duras palavras: 

"Se vivêssemos uns quatro séculos atrás, as teorias expostas pelo Sr. teriam sido mais do que suficiente para entregá-lo ao fogo da Santa Inquisição."

Além disso, logo foi dito que a supervisão eclesiástica hostil passaria a intervir para frustrar minha próxima ordenação ao diaconado.(196) Como último recurso, eles tentaram invocar o voto monástico de obediência e disciplina, para me forçar a abandonar as minhas convicções, mas eu percebi a tempo suas intenções. Alegaram que estava obrigado a obedecer cegamente e restringir a minha intenção de investigar, uma vez que o direito de examinar questões de fé pertencia à hierarquia suprema da Igreja. Eles também argumentaram que, se acreditava na Igreja apostólica, eu era obrigado a seguir indiscriminadamente os sucessores canônicos dos apóstolos. No entanto, a graça do Senhor permitiu-me permanecer firme em minhas convicções, levando ao extremo a máxima de São Irineu sobre heterodoxia:

 "Não podem nos pedir que sejamos seus seguidores simplesmente porque eles têm a sucessão apostólica. Devemos seguir o bem e nos livrar dos maus sucessores dos apóstolos" (197).

De fato, a Igreja Católica Romana pode ter a típica sucessão apostólica devido à imposição sucessiva das mãos dos bispos, mas não tem a verdadeira sucessão de fé e ensinamento dos apóstolos. São Papias exaltou essa sucessão de fé dos cristãos de Roma durante o século II, com estas palavras: "Em qualquer sucessão, em qualquer lugar, tudo o que é exigido pela lei e os profetas, é protegido pelo Senhor" (198 ).

Assim que eu me reconciliei comigo mesmo, nada poderia me convencer do contrário. Inclusive quando um padre, que nunca havia parado de falar com malícia sobre mim, me chamou publicamente de "filho ingrato da Igreja Católica", não duvidei em expressar o meu ceticismo sobre a compatibilidade do título "católico" com o papismo. Para mim, o papismo é apenas uma "inovação ímpia" (199), já que "a verdadeira fé católica pertencente à cristandade antiga e ecumênica" (200).

Em retrospecto, me considerava mais "católico" que minha própria igreja:

"Verdadeiramente, católico é aquele que ama a verdade de Deus, a Igreja, o Corpo de Cristo [...], aquele que não se beneficia com nada mais além da fé divina e não a sobrepõe com a autoridade de um homem, reverenciando especialmente a antiga e única fé. Além disso, ele mostra desprezo por esta autoridade e mantém uma união fixa e inquebrável com a fé verdadeira, totalmente determinado a não crer em qualquer coisa que não seja o que é decretado pela Igreja desde o seu início" (201).

O mundo perguntava como eu, o último dos monges da ordem de São Francisco, desafiei julgar toda a minha Igreja e condená-la como enganada, juntamente com seus papas, sínodos e teólogos. Minha resposta foi simplesmente repetir as palavras de Tertuliano:

"Nenhum ensinamento que expõe a verdade ensinada pela Igreja, pelos apóstolos, por Cristo e Deus Pai, deve ser julgada como errônea" (202).


CAPÍTULO 5
"SAI DELA, POVO MEU..."

Sem ter em conta este desvio dogmático tão grotesco, eu não tinha intenção de abandonar minha Igreja. Porém, primeiro quis ter certeza de que poderia encontrar refúgio no conforto da vida espiritual que minha ordem religiosa e mosteiro me proporcionava. Certamente poderia sair da hierarquia papal para assumir a responsabilidade e a obrigação de reconhecer e corrigir esta heresia.

No entanto, minhas perguntas persistiram. Estaria comprometendo os interesses de minha alma se permanecesse em uma religião em que cada papa é considerado infalível, introduzindo enquanto tal novas doutrinas, decretos e falsos ensinamentos sobre a fé, sacramentos e a adoração? Será que isso não afetaria a integridade de minha vida espiritual? Como observou São Vicente de Lerins, já desde o século V:

"É uma grande tentação daquele que se considera profeta, intérprete dos apóstolos, mestre e pilar da verdade, a quem segues com o maior respeito e amor, de repente, começar a introduzir de forma sutil e imperceptível enganos perigosos que não podem ser facilmente discernidos, deslumbrado pelo preconceito de seus ensinamentos prévios e sua obediência cega" (203). .

Além disso, para mim foi fácil discernir que a vida espiritual do catolicismo romano tem marcas evidentes que indicam a influência de seus desvios teológicos. Desvios doutrinais como o purgatório, práticas como participar de um único elemento na Santa Comunhão, e excessos como adorar a Maria, eram claros indícios e sintomas de degeneração teológica, perceptível apenas para aqueles que desejam ver objetivamente as coisas. Assim, já havendo adulterado a pureza original da fé evangélica e apostólica com a inovação do papismo e a heresia da infalibilidade - abandonando, portanto, partes do verdadeiro ensinamento sobre o homem - se desviaram em muitas outras áreas.

Congruentes com todos os casos de heterodoxia que aparecem na história da Igreja, "estenderam subsequentemente a distorção a outros ensinamentos, inicialmente como hábito e mais tarde como se tivesse dado licença para distorção. Eventualmente,  distorcendo de forma incremental todos os aspectos da doutrina, acabam por distorcer tudo" (204).

Não surpreendentemente, várias pessoas bastantes valorizadas por sua espiritualidade na Igreja Romana, começaram a soar as trombetas, ainda que tardiamente, com declarações públicas como a seguinte:

"Como podemos saber se o "menor sentido de salvação" que nos bombardeiam não nos leva a esquecer o nosso único Salvador, Jesus Cristo... "(205).

"A nossa piedade, hoje, aparece como uma árvore com galhos emaranhados e folhagem espessa, por isso a nossa alma está em perigo de perder de vista o tronco que mantém tudo isso, e as raízes que se agarram à terra "(206).

Outro, ainda mais urgente:

"Nós temos enfeitado e sobreadornado a tela de pintura de tal forma - no que se refere à imagem d'Aquele que é a nossa única necessidade - que deixamos de existir finalmente sob os ornamentos embelezados" (207).

A solução não somente era fácil, mas também possível, como o mais sincero e atrevido fiel desta Igreja havia chegado a reconhecer. Infelizmente, permanecia distante sua aplicação:

"Não saboreemos um cristianismo que seja diferente daquele da era apostólica", clama o sábio e muito respeitado bispo católico romano, Dom Camus. "Não permitamos que aqueles que improvisam e nos sugerem ideias diferentes abalem nossa vida espiritual, moldando nossa boa disposição e diminuindo os nossos esforços" (208).

Estas palavras fazem simplesmente ecoar a admoestação de São Policarpo aos Filipenses:

"Portanto, devemos abandonar as vaidades dos homens e falsos ensinos e voltar ao ensinamento que tem sido entregue a nós desde o princípio" (209).

E as observações de São Cipriano para Cecilio:

"Quando a verdade se perde pela prática e tradição, este é um sinal indicativo da longevidade de engano. Há um método muito seguro para as almas espirituais discernirem entre a verdade e o engano: basta voltar para a fonte de ensinamento divino, onde o engano humana termina. Voltemos à origem evangélica, para o ensinamento original dado por nosso Senhor e a tradição apostólica, de onde emana a palavra de nossos pensamentos e ações "(210).

Igualmente relevantes são as palavras do grande profeta Jeremias:

"Parai nos caminhos, e vede; e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e segui-lo, e achareis descanso para as vossas almas "(211).

Portanto, fiquei convencido de que a vida espiritual dentro da Igreja Romana não estava livre de perigo, já porque:

"É uma grande tentação para o crente da Igreja de Deus quando seus líderes caem em engano. Além disso, a tentação é muito maior e mais grave quando os enganadores ocupam posições elevadas" (212).

Aquele que confia sua alma a uma igreja que está governada e dirigida por heterodoxos corre o risco de enfrentar o mesmo destino dos fiéis que se estiveram sob a autoridade pastoral de Orígenes. Os Santos Padres escreveram o seguinte sobre suas ações:

"Em realidade, a má influência deste mestre sobre os fiéis que lhe foram confiados pela Igreja apresentou, não só uma simples, mas uma grande tentação [...] já que eles não suspeitaram nem viram nenhum perigo nele e foram conduzidos gradual e inconscientemente, da antiga fé para as inovações ímpias" (213).

Assim, tomei uma nova decisão. Não queria permanecer sob o patronato de um falso cristianismo que explora o Evangelho para servir a agenda imperialista do cesaropapismo. Não queria ser contado entre aqueles que, como disse São Cipriano: "não podem ter o verdadeiro Deus como Pai, já que rejeitaram a verdadeira Igreja como sua Mãe"  (214), acrescentando além disso que aqueles que se desviam do verdadeiro ensinamento e da unidade eclesiástica original "não possuem a lei de Deus, não possuem a fé do Pai e do Filho e tampouco possuem vida ou salvação" (215).

Eu tinha certeza absoluta que não tinha mais outro recurso, exceto prosseguir com minha decisão final. Eu saí, colocando fim a meu terrível destino - um destino já difícil em todos aspectos - no seio do papismo. A graça do Senhor me sustentou, sem dúvida, durante esses dias de decisão tão séria que mudava minha vida. Foi com grande esforço e muito questionamento interior que eu resisti ao suplício e lágrimas de meus amados irmãos no mosteiro. Infelizmente, estas eram entremeadas com inúmeras censuras e ameaças daqueles do escalão superior. Eles me chamaram de ingrato e me rotularam de apóstata da igreja de meus antepassados e da tradição religiosa de meu país.

Aos poucos que ainda queriam ouvir-me, contentava-me em responder com as palavras de São Jerônimo, que me enchiam de muita força e consolação:

"Não somos obrigados a seguir os delírios de nossos predecessores e de nossos parentes, mas a autoridade das Escrituras e os mandamentos de Deus." (216)

Quanto à alegada "traição" da tradição do meu país, fui consolado por estas palavras:

"Qualquer coisa que se opõe à verdade, mesmo que consista em uma tradição ou um velho costume, é heresia." (217)

Meses depois, quando escrevi o primeiro capítulo de minha obra A História da Ortodoxia Espanhola, um relato epistemológico sobre as primeiras Igrejas ibéricas criadas por São Paulo (218), de repente me ocorreu que eu era o único que não havia traído a verdadeira antiga tradição espanhola. E isto porque a Igreja de meu país, durante os quatro primeiros séculos de sua fundação, era verdadeiramente ortodoxa e não papista ou subserviente ao Vaticano, como ela é hoje. (219)

No final, deixei o mosteiro e logo depois disso publiquei minha decisão de abandonar a Igreja Romana. Alguns outros monges e padres se sentiram inclinados a me seguir, mas só até esse ponto. No momento final, nenhum deles parecia disposto a sacrificar sua posição na Igreja, seu prestígio e sua boa reputação na comunidade.(220) No entanto, antes de sair do mosteiro, quis ter certeza de que meus superiores soubessem que minha partida foi o resultado de minha própria escolha, uma vez que meu comportamento global durante a minha vida monástica tinha sido exemplar. Esta carta tornou-se posteriormente o "detalhe deplorável" que impediu os Papistas Uniatas [grego-católicos] de fabricar ataques difamatórios sobre as causas da minha "apostasia".

Esta é a história de como e por que abandonei a Igreja de Roma, cujo líder esqueceu que o reino do Filho de Deus não é "deste mundo". (221) O líder da Igreja de Roma, esquecendo que "aquele que era chamado ao ofício do episcopado não era chamado a ser investido pela autoridade humana, mas a servir toda a Igreja", (222) emulou ele  (Satanás) que "em seu orgulho, desejando ser como Deus, perdeu a verdadeira felicidade para ganhar uma falsa glória ", (223) aquele que "está assentado no templo de Deus, ostentando a si mesmo que ele é Deus ", (224) e que diz em seu coração: "Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembléia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo". (225)

Bernard de Clairvaux, um dos grandes místicos do Ocidente, tinha tinha razão quando escreveu ao Papa Eugênio:

"Para você, não há maior veneno - ou espada mais perigosa - do que a paixão pela supremacia." (226)

Impulsionados por esta paixão desenfreada, os papas forçaram sua igreja a "fornicar com as potestades do mundo, (227) tornando-a a desolação dos mercadores". (228) Ao fazer isso, violaram os mandamentos de Deus, expondo os sofismas e ensinamentos dos homens, (229) e "eles debilitaram a verdade para construir acima dela suas falsidades".(230) Eles tornaram-se mentirosos (231) e seguidores do pai da mentira (232). Isso era inevitável, porque, como acontece com as heresias em todas as épocas,"introduzem superstições humanas nos dogmas divinos e violam os mandamentos dos antigos, mostrando desprezo pelos ensinamentos dos Padres, invalidando a sabedoria dos antecessores, sendo cativados pela paixão desenfreada de uma ímpia e vã cobiça pela inovação, e relutantes em se limitar dentro dos limites da antiguidade sagrada e incorrupta." (233)

Vendo a frustração do papa, que não é tão diferente do lamentável Orígenes, "mostrou desprezo pela simplicidade da fé Cristã e afirmou ser superior a qualquer um em conhecimento, ignorando as tradições da Igreja e os ensinamentos dos antigos"(234).

Sob essas circunstâncias, eu não poderia ter agido de forma diferente. Eu escolhi ser obediente à voz da minha consciência, a voz que ecoou o mandamento de Deus ao seu povo escolhido: "Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas". (235)


CAPÍTULO 7
RUMO À LUZ

A notícia da minha renúncia ao papismo se espalhou rapidamente nos círculos eclesiásticos mais amplos. No entanto, minha situação ficou ainda mais difícil quando fui entusiasticamente acolhido pelos protestantes espanhóis e franceses. Eu lidei com vários insultos e cartas de ameaças nas minhas correspondência diárias. Meus acusadores alegavam que eu estava conspirando para criar uma opinião pública antipapista entre os fiéis. Eles alegavam que eu estava me esforçando para levar à "apostasia" alguns sacerdotes católicos romanos, que eram considerados "dogmaticamente fracos", porque mostraram publicamente compaixão e interesse em minha provação. Tudo isso levou à minha decisão de abandonar Barcelona e me mudar para Madrid, onde recebi a hospitalidade dos anglicanos. Através deles, comecei a desenvolver relações com o Concílio Ecumênico das Igrejas.

Apesar de minha precaução, minha presença não passou despercebida.  Depois de cada um de meus sermões em diferentes igrejas anglicanas, um grande número de ouvintes expressavam o desejo de me conhecer pessoalmente e falar em privado sobre vários assuntos de consciência. A maioria dos que tentaram falar comigo questionavam a coexistência escandalosa de muitas igrejas cristãs diferentes que anatemizaram uma a outra, cada uma alegando que somente ela era a verdadeira representante e cabeça da Igreja antiga. Assim, quase sem querer, comecei a atrair um círculo de seguidores, muitos deles não-papistas, que aumentaram dia após dia. Isso me fez mais visível para as autoridades locais, especialmente porque alguns dos que me visitavam em privado eram padres católicos romanos notórios por serem "rebeldes contra a Igreja e seguidores da idéia libertária quanto à primazia e infalibilidade do Papa Roma".

O ódio fanático de alguns católicos romanos, que agiram mais como papistas do que como cristãos, apareceria plenamente no dia em que dei uma resposta pública a um notável e longo tratado eclesiológico que me foi enviado pela Action Catholique. O tratado era uma "última tentativa" de me trazer ao "bom senso" e denunciar minha "obstinação herética". Tinha caráter apologético e ostentava o título expressivo "O papa, representante de nosso Senhor sobre a terra." Poderia ser resumido da seguinte forma:

"Por causa da infalibilidade de Sua Santidade, os católicos romanos hoje são os únicos cristãos que podem ter certeza no que acreditam."

Sem perder a calma, respondi-lhes através das colunas de um jornal português:

"Na realidade, por causa dessa infalibilidade, vocês são os únicos cristãos de hoje que não podem estar certos do que Sua Santidade os obrigará a crer amanhã."  


Concluí minha resposta com estas palavras:


"Com um pouco mais de esforço de sua parte, você conseguirá que nosso Senhor se torne o representante do papa no céu."


Pouco depois, terminei essa discussão com um estudo triplo publicado em Buenos Aires, que esgotou o assunto da primazia papal da maneira mais objetiva. (236) Este volume era uma coleção de todas as obras dos Padres da Igreja dos quatro primeiros séculos, que se referem, direta ou indiretamente, aos chamados "versos de primazia". (237) Desta maneira, provava que o ensinamento papista sobre esses versículos bíblicos é diametralmente oposto à exegese dos Padres da Igreja, cuja interpretação bíblica constitui a ÚNICA regra autêntica para a correta compreensão da palavra de Deus. 



CAPÍTULO 8

 MEU ENCONTRO COM A VERDADE

Enquanto isso, entrei em contato direto com a Ortodoxia pela primeira vez e de forma bastante independente das circunstâncias mencionadas anteriormente. Deve ser dito aqui que minha atração para esta Igreja começou a tomar forma desde o início de minha odisseia espiritual.

Mais cedo, enquanto ainda estava no meu mosteiro, tinha tido longas discussões sobre temas eclesiásticos com um grupo de estudantes universitários ortodoxos poloneses que haviam passado por meu país. Mais tarde, a informação que recebi do Concílio Ecumênico sobre a existência e as atividades dos ortodoxos no Ocidente verdadeiramente despertou meu interesse. Além disso, recebi algumas publicações fortuitas da Rússia e das Igrejas Ortodoxas Gregas de Berlim e Londres. Os poderosos artigos escritos pelo arquimandrita Nicholas Katsanevakis de Nápoles começaram a conquistar meu coração.

Tomadas em conjunto, essas três circunstâncias foram úteis para expurgar meus equívocos e preconceitos anteriores contra a Ortodoxia, impregnado em mim pela educação católica romana formal. Os alunos católicos são ensinados na escola secundária que "o cisma do Oriente, a chamada Ortodoxia, não é nada mais do que uma assembléia sem vida, mumificada e dissecada; pequenas igrejas locais sem qualquer das características genuínas e distintivas da verdadeira Igreja de Cristo"(238). Em outras palavras, "um deplorável cisma gerado pelo demônio e nutrido pelo orgulho do Patriarca Fócio."(239)

Durante o período de crise pessoal, combinado com meu conhecimento geral (e recente), comecei me corresponder com respeitados membros da hierarquia ortodoxa. Eu estava finalmente pronto para compreender tudo o que esse bispo queria me dizer sobre o ensino ortodoxo. Em outras palavras, estava com disposição para examinar objetivamente os fatos relevantes sobre a constituição e o estado teológico das igrejas apostólicas.

Ao longo desta comunicação, tornou-se óbvio que minha posição contra o Papismo correspondia com o ensino eclesiológico da Ortodoxia. Assim, enquanto eu combati o que não deveria fazer parte do dogma cristão, a ortodoxia providenciou como deveria ser. Quando discuti minhas observações com aquele reverendo hierarca, ele concordou comigo, embora cautelosamente, dado minha conexão com os protestantes naquela época.

Como nota de interesse, devo dizer que os representantes da Ortodoxia no Ocidente, não estão muito interessados em proselitismo. Isto é devido à sua percepção do status quo eclesiástico na Europa. Proselitismo é contrário às suas convicções, já que os pais espirituais devem aderir à demanda pastoral primeiramente às comunidades gregas e russas, cujos cuidados espirituais lhes foram confiados.

Minha correspondência com este hierarca logo chegou a um estado avançado, momento em que fui posto em contato com o Patriarcado Ecumênico. Só então fui aconselhado a estudar o célebre trabalho de Sérgio Boulgakov, Ortodoxia (240), e a igualmente desafiadora obra do Metropolita de Berlim, Serafim, com o mesmo título (241). Assim que comecei a ler essas duas obras, me encontrei em total acordo com o espírito dos autores. Eu não me deparei com um só parágrafo que eu não poderia aceitar e adotar de todo o coração e em boa consciência. Nas páginas destas obras e em muitas outras que eu comecei a receber da Grécia, juntamente com cartas de encorajamento, eu encontrei o ensino da Ortodoxia exposto com surpreendente clareza. Tornou-se gradualmente claro para mim que os fiéis ortodoxos são os únicos cristãos no mundo de hoje que compartilham a mesma fé com os cristãos das catacumbas. Únicos e verdadeiramente fiéis, só eles estão plenamente justificados para se vangloriarem no Senhor enquanto repetem a frase patrística:

"Cremos em tudo o que recebemos dos apóstolos, em tudo que os apóstolos receberam de Cristo e em tudo o que Cristo recebeu de Deus Pai."

A eles também se aplicam as palavras de Tertuliano:

"Só nós estamos em comunhão com as Igrejas apostólicas porque o nosso ensino é exclusivamente equivalente ao seu ensinamento. Este é o testemunho da nossa verdade". (242)

Durante este período, completei meus livros "O Significado da Igreja De acordo com os Padres do Ocidente" e" Nosso Deus, Seu Deus e Deus" (243). Posteriormente, fui obrigado a interromper a circulação do segundo livro na América do Sul, apenas para impedir seu uso pela propaganda Protestante.

Naquele momento, meus colegas ortodoxos me aconselharam a desprender-me dos meus esforços polêmicos contra o papismo, que se tornaram uma obsessão para mim. Em vez disso, fui aconselhado a iniciar um auto-exame, a fim de definir claramente o meu credo pessoal. Isso proporcionaria a base para avaliar minha posição teológica precisa e para revelar os danos causados por minha associação com o anglicanismo.

Este esforço não foi indolor nem de curta duração, pois me forçou a empreender uma pesquisa mais extensa em uma fé em que eu não tinha proficiência teológica. Não basta simplesmente afastar os dogmas da primazia papista e de seus privilégios enquanto se mantém o restante dos ensinamentos romanos. Então eu procedi com uma análise profunda e completa das verdades básicas do cristianismo. Essas verdades básicas me ajudaram a distinguir os limites dogmáticos papistas sobre os quais o Vaticano havia fundado seus interesses político-eclesiásticos. Através dos séculos, esses limites foram determinados por decretos papais de todas as classes e tipos e serviram para promulgar uma agenda imperialista dentro da igreja.

Minha pesquisa era imperativa porque eu não queria repetir o erro dos [velhos] católicos, que, escandalizados pelo decreto de infalibilidade do Sínodo do Vaticano, abandonaram o papa, mas ainda continuaram aderidos à teologia romana. Esta teologia foi misturada com tantas outras falsas doutrinas, preconceitos e superstições, que já não é mais ortodoxa. Reconhecendo a extrema dificuldade desta tarefa, escolhi expressar a minha posição em termos gerais, porém positivos, e emitir a seguinte declaração de fé:

Creio em todo o conteúdo dos livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento e todo o ensino que emana diretamente de seu conteúdo, de acordo com a interpretação do ensino eclesiástico tradicional, ou seja, os Sínodos Ecumênicos e o pleno consenso dos Santos Padres.

Quase imediatamente, senti que a aliança amistosa com os protestantes chegava ao fim abruptamente. Com exceção de um pequeno grupo de Anglicanos, cuja compreensão e apoio moral me acompanharam durante este período estranho, só os Ortodoxos, ainda que extremamente cautelosos, estavam interessados em meu esforço. Somente quando estes abandonaram seu preconceito e desconfiança em relação a mim, começaram a me considerar um "catecúmeno possível e interessante".

Na época, a amizade casual de um cientista polonês ortodoxo reforçou minha convicção de que a Ortodoxia aderia às verdades essenciais do cristianismo primitivo. Este cristão polonês tinha resistido os esforços desesperados dos Uniatas (244) de atraí-lo ao Papismo devido à sua influência e riqueza. Sua resposta aos Uniatas foi simples mas muito inspiradora:

Você afirma que devo negar a minha fé ortodoxa para me tornar um cristão perfeito. Ótimo! Minha fé ortodoxa consiste nos seguintes elementos: Jesus Cristo, o Evangelho, os Sínodos e os Santos Padres. Qual desses elementos devo negar para ser, como você sugere, "um cristão perfeito"?

Impassíveis, os Uniatas mudaram sua estratégia e sugeriram que não há necessidade de negar qualquer um desses elementos básicos. Ele só tinha que reconhecer o papa como o líder infalível da Igreja. Meu amigo respondeu com esta profunda resposta: "Eu devo reconhecer o papa? Isso seria equivalente a negar tudo o que foi dito acima!"

Percebi naquele momento que, para purificar sua fé, qualquer cristão pensante de qualquer denominação enfrenta a necessidade de rejeitar algum elemento do ensinamento de seu grupo de fé que esteja em conflito com os ensinamentos abrangentes do cristianismo. A única exceção a isso é o cristão ortodoxo - apenas suas crenças constituem a essência pura do cristianismo, a Verdade plena, eterna e imutável, revelada por Deus nos Evangelhos.

Um católico romano, por exemplo, pode rejeitar o papa como eu fiz, retratar o ensinamento sobre fogo purgatório, ou discutir os termos do Sínodo de Trento, sem perder sua identidade cristã. Da mesma forma, um protestante pode rejeitar os ensinamentos dos reformadores sobre a graça divina e a predestinação e ainda ser um cristão.

Somente a Ortodoxia não incorporou elementos externos, de modo que cada item de sua fé é uma verdade essencial e inalterada, impossível de rejeitar ou eximir. A Igreja Ortodoxa é a única Igreja que nunca tentou sugerir outra coisa aos fiéis do que aquilo que sempre foi, em todos os lugares e por todos, considerado a Verdade revelada por Deus. (245) Assim, quando se adota Ortodoxia, simplesmente abraça-se o Evangelho na sua pureza primordial. Por outro lado, se alguém negar e apostatar dela, é semelhante a negar e apostatar do próprio cristianismo.

A Ortodoxia é a única Igreja que guardou fielmente a verdade do Evangelho. Ela "nunca alterou nada dele, nem acrescentou nem subtraiu"; (246) "não removeu o essencial, nem incluiu o não essencial, nem perdeu algo que lhe pertence, nem adicionou algo estranho, sempre sábia e fiel a tudo o que ela herdou."(247) Ela sabe que não é permitido fazer a menor mudança na fé que lhe foi confiada de uma vez por todas, nem mesmo se for sugerida por um anjo do céu (248) e certamente não por um homem terreno cheio de falhas e fraquezas.

A Ortodoxia é a verdadeira noiva de Cristo, "não tendo manchas, nem rugas ou coisas semelhantes; [...] mas santa e sem mácula" .(250) Ela é a Santa Igreja de Deus, Sua Única Igreja (251), "a verdadeira Igreja Católica que luta contra todas as heresias. Ela pode lutar sem nunca ser derrotada. Mesmo se todas as heresias e cismas brotassem como galhos selvagens e fossem cortadas da videira, ela permanece firme em sua raiz, em sua união com Deus ".(252) Quem segue Ela segue a Deus; quem ouve a sua voz, ouve a voz de Deus, (253) e quem a desobedece torna-se gentio.(254)

Convencido completamente por tudo o que eu tinha lido e aprendido, eu já não me sentia desolado. Eu não estava mais sozinho e abatido pelos poderosos católicos romanos ou pelos protestantes cada vez mais indiferentes. Na verdade, eu estava unido na fé e ensino com milhões de meus irmãos cristãos no Oriente e em todo o mundo. Foi um consolo estar finalmente unido a todos aqueles que constituem a verdadeira Igreja Ortodoxa.

A calúnia papista da fossilização teológica da Ortodoxia perdera totalmente sua validade quando finalmente compreendi a persistente perseverança da Ortodoxia em sua verdade herdada. A ortodoxia não é uma postura imóvel, rígida e fossilizada, mas um fluxo incessante de confissão da fé antiga. Pode ser comparada à corrente de uma cachoeira, que parece ser sempre a mesma, mas suas águas se movem incessantemente e mudam constantemente, criando para sempre sons e harmonias novas.

Quando cheguei a esse ponto de revelação em minha fé, os ortodoxos finalmente começaram a me ver como um dos seus, e assim um arquimandrita escreveu, em uma carta, o seguinte:

Discutir a verdade da Ortodoxia com este espanhol não implica proselitismo, mas uma discussão sobre uma doutrina e um espírito religioso que são tanto nossos quanto os seus; a única diferença é que a herdamos de nossos predecessores enquanto ele conseguiu escavá-la sob os detritos de quinze séculos de história eclesiástica ocidental.

Ficou claro então que a jornada de minha "inquietação espiritual", como meu padre confessor havia rotulado, me conduziu naturalmente e sem que tivesse percebido para o seio da Igreja Mãe, a Ortodoxia. Na realidade, durante esse período final da minha jornada, sem o meu conhecimento, eu já era ortodoxo. Eu estava próximo da Verdade divina, assim como os discípulos no caminho de Emaús, sem reconhecê-la até o último trecho da minha peregrinação espiritual.

Quando fiquei inteiramente convencido de tudo, senti que precisava dar um último passo. Escrevi um longo relato de toda a minha provação e seus desenvolvimentos e enviei-a ao Patriarcado Ecumênico e a Sua Beatitude, Arcebispo de Atenas, prelado do Ministério Apostólico da Igreja da Grécia. Eu também enviei um aviso imediato da minha intenção de me tornar ortodoxo para os hierarcas e vários membros das Igrejas com as quais eu tinha desenvolvido uma relação especial. Iluminado pelo sentimento de que eu estava na posse daquela preciosa pérola digna de todo sacrifício, (255) deixei o meu país e fui para a França, onde me conectei plenamente com os meus irmãos ortodoxos que eu tinha recentemente encontrado. No entanto, o passo crítico de se tornar um membro canônico da Igreja Ortodoxa exigiria um pouco mais de tempo.

Ao chegar a uma decisão plenamente madura, eu oficialmente solicitei a entrada na verdadeira Igreja de Cristo. De mútuo acordo foi resolvido que este evento aconteceria na Grécia, um país ortodoxo por excelência, para onde eu em breve me mudaria para prosseguir meus estudos em Teologia. Ao chegar a Atenas, visitei Sua Beatitude o Arcebispo, que me recebeu com o mais paternal abraço. Seu incessante amor sincero, cuidado e interesse acompanharam cada passo da minha nova vida eclesiástica. O mesmo vale para o seu reverendo chanceler, que pela graça de Deus é agora o bispo de Rogon. Ele é realmente um verdadeiro pai, cujo sincero interesse em mim superou todas as minhas expectativas.

Nem é preciso dizer que, no meio dessa atmosfera de terno amor, o Santo Sínodo não demorou muito para me aceitar no seio da Igreja Ortodoxa. Durante o serviço profundamente emocionante da Santa Crismação, pela qual finalmente me tornei um membro da videira verdadeira, fui honrado com o nome de apóstolo das nações e fui posteriormente aceito no Santo Mosteiro da Virgem Maria em Penteli como monge. Alguns meses mais tarde, fui ordenado ao diaconato pela imposição das mãos do bispo de Rogon.

Agora, por fim, sinto-me repleto de alegria, apesar do agravamento sem fim causado pelos membros da obscura Ordem dos Uniatas da Grécia, que nunca cessaram de fabricar calúnias contra a minha pessoa. Eu sou abençoado, porque estou envolto pelo amor, calor e plena aceitação da Santíssima Igreja Ortodoxa da Grécia, incluindo os membros da sua hierarquia sagrada, as várias irmandades religiosas e, em geral, todos aqueles que me abraçaram com a seu apoio espiritual.

Peço a todos estes pais e irmãos na fé e a todos aqueles que gentilmente mantiveram em contato comigo, simpatizantes como foram com minha causa e com a odisseia geral, para que me mantenham em suas orações, para que eu possa receber a graça do alto e me provar digno da maravilhosa beneficência do Deus Mais Bom.



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