Cristianismo Ortodoxo

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A Inovação da Doutrina do Purgatório (Jean-Claude Larchet)

A inovação da doutrina latina do Purgatório

      Apesar das afirmações da definição de fidei do Concílio de Trento e de um certo número de historiadores católicos, não existe uma base convincente para a doutrina do purgatório nem nas escrituras nem nos escritos dos primeiros Padres. As inúmeras referências bíblicas e patrísticas coletadas a posteriori por teólogos católicos com o objetivo de justificar o purgatório só conseguem, por um lado, mostrar que as escrituras e os Padres consideram que as orações da Igreja são proveitosas para os falecidos (o que sempre foi reconhecido pela Igreja Ortodoxa e não implica, de modo algum, a existência de um Purgatório), e, por outro, se beneficiar da ambiguidade de certos textos que mencionam um castigo por meio do fogo no pós-morte (mas que, na verdade, aludem à condição infernal posterior ao Juízo Final e, em qualquer caso, não implicam, de modo algum, a existência de um purgatório).

    A doutrina do purgatório surgiu de fato na segunda metade do século XII e corresponde verdadeiramente a uma "invenção". Essa censura foi feita aos teólogos latinos pelos teólogos ortodoxos, uma vez que ficaram cientes dessa teoria e a polêmica se seguiu. Mas isso envolve um fato histórico reconhecido hoje pela maioria dos historiadores. Um historiador católico muito aclamado, Jacques Le Goff, demonstrou magistralmente depois de compor um vasto dossiê apropriadamente intitulado: O Nascimento do Purgatório. Ele nos informa explicitamente: "Até o final do século XII, o nome purgatorium não existia: o Purgatório ainda não havia nascido."

Purgatório - Giovanni Battista Crespi

Concordância com os princípios da teologia latina 

        Embora a palavra "purgatório" tenha sido criada e utilizada pela primeira vez na segunda metade do século XII  e o purgatório tenha sido concebido como um "terceiro lugar", essa invenção foi facilitada por certas declarações ou expressões de alguns Padres latinos anteriores como São Ambrósio, São Agostinho e São Gregório Magno (que, no entanto, não elaboraram nenhuma teoria sistemática e cujas posições permanecem ambíguas em muitos aspectos, algo que os historiadores católicos reconhecem.

       Quanto aos pressupostos teológicos básicos, a doutrina do purgatório pode ser compreendida em concordância com a orientação pós-agostiniana da teologia latina. A teoria agostiniana das teofanias (intermediários criados entre Deus e o homem), adotada pela teologia ocidental, está conectada ao conceito de fogo purgante criado e material, ao passo que o conceito oriental das energias divinas não permite tal conceito: para a teologia ortodoxa, em verdade, a energia divina, que pode ser percebida como luz ou fogo, é una e incriada, mas assume diferentes qualidades de acordo com seus efeitos. É chamada de "purificante" quando purifica o homem, "iluminante" quando o ilumina, "deificante" quando o diviniza. Não há, portanto, um fogo para o justo e outro para os pecadores, mas uma única energia divina incriada que atua sobre eles de forma diferente - pois recebem de forma diferente - de acordo com seu estado espiritual. Esta concepção que tem raízes nos Padres como São Basílio o Grande, São Gregório de Nissa, Pseudo-Dionísio, São Máximo o Confessor, São João Damasceno e, claro, São Gregório Palamas foi também base para o posicionamento de São Marcos de Éfeso em sua refutação da teoria latina de um fogo purgante, no Concílio de Florença.

        Mas os fatores que mais contribuíram para o nascimento, no ocidente, da doutrina do purgatório foram, na Alta Idade Média, as teorias da "satisfação"¹ e da expiação penal, a formação do conceito de "pecado venial"² e o desenvolvimento de uma distinção entre "falta" e "culpa"³. A noção de pecado venial induziu a criação de uma terceira categoria de fiéis entre os justos (purificados de todo pecados) e os condenados (culpados de pecados mortais), encontrando para eles, no pós-morte, uma condição e um lugar de permanência (purgatório) diferente dos outros dois. A segunda distinção induziu a imaginação de um lugar para a "satisfação", onde eles seriam purificados de sua punição e purificados dos pecados veniais que haviam sido perdoados, mas cuja "culpa" ainda existia.

       O desenvolvimento da doutrina do purgatório parece também vinculada a fatores da "política" eclesiástica no coração da Igreja latina, expressada pela doutrina e prática de "indulgências" que surgiram logo após o "nascimento do Purgatório."

      Esta doutrina e prática consistem em considerar o Papa como tendo o poder de aliviar e até mesmo libertar totalmente de suas dores as almas no purgatório, o que ele faz em troca de vários "gestos dos fiéis" - por exemplo por meio da oração pela intenção do Soberano Pontífice, ou dando presentes para a construção de edifícios da igreja - ou às vezes de forma gratuita sob certas circunstâncias solenes (grandes festas, jubileus...). Sabemos que essa prática despertou a ira de Lutero e foi certamente uma das principais causas para o nascimento do Protestantismo. Longe de ser obsoleto hoje, permanece fortemente ancorado na piedade católica e foi recentemente lembrado na ocasião do Jubileu do Ano 2000.

      O aparecimento desta doutrina e prática está historicamente conectado, por um lado, com o desejo de reforçar o poder do papado (doravante expandido o poder não apenas sobre as almas, mas sobre o progresso pós-morte) e, por outro lado, com a preocupação mais prosaica visando encorajar presentes em um momento em que o papado tinha embarcado numa política ambiciosa de construção e decoração de igrejas e palácios.

     Essas práticas e a doutrina do purgatório são conhecidas por terem sido rejeitadas não só por teólogos ortodoxos, mas também pelos teólogos da reforma. Mais recentemente, certos teólogos católicos também se mostraram críticos em relação a essas questões, como o padre Ives Congar, que propôs aos seus irmãos Católicos "aceitarem um certo questionamento de posições que não são nem as mais autênticas ou profundas de sua tradição." Não parece que tenha sido dada muita atenção às suas observações, mas ainda há que observar que uma certa erosão da piedade popular pôs fim a alguns dos excessos da doutrina e das práticas em questão.

Notas

1. O vínculo entre essa teoria e a do purgatório é observado por Y. CONGAR, 'Le Purgatoire', em Le Mystere de mort et sa celebration, Paris, 1956, pp. 299-300. O autor observa que essas teorias eram estranhas ao Oriente cristão (pp. 301-302).
2. Veja J. LE GOFF, "O Nascimento do Purgatório, p. 5: "Por um longo tempo, houve uma noção bastante vaga de pecados 'leves', 'rotineiros' ou 'habituais', como Agostinho e Gregório Magno estavam bem cientes, mas não foi até pouco antes do surgimento do purgatório que essa ideia finalmente deu origem à categoria de pecado conhecida como 'venial'. Sobre a história desta noção e seu papel na formação da teoria do purgatório, veja J. LE GOFF, op. cit., pp. 217-220.
3. O vínculo entre essa última distinção e a teoria do Purgatório foi observado por Y. CONGAR, "Purgatoire", p. 299 e por J. LE GOFF, op. cit., pp. 213-214. Esta distinção foi criticada pelos gregos no Conselho de Florença no âmbito das discussões sobre o Purgatório (veja infra).
4. Em 1300, ao que parece, com o jubileu comemorado naquele ano. Veja J. LE GOFF, "O Nascimento do Purgatório", pp. 330-331.


Do livro Life After Death por Jean-Claude Larchet

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