Cristianismo Ortodoxo

Cristianismo Ortodoxo

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O Caminho Ortodoxo: Deus como Espírito (Kallistos Ware) [Parte 6/8]


CONTEÚDO
1 Prólogo - Sinais no Caminho 
2 Deus como Mistério 
3 Deus como Trindade 
4 Deus como Criador 
5 Deus como Homem 
6 Deus como Espírito 
7 Deus como Oração 
8 Epílogo - Deus como Eternidade

O Espírito de Deus que foi dado a esta nossa carne não pode suportar tristeza ou restrição.
 O Pastor de Hermas

Quando o Espírito de Deus desce sobre um homem e o ofusca com a plenitude do seu derramamento, sua alma transborda com alegria que não pode ser descrita, pois o Espírito Santo transforma em alegria tudo o que ele toca.
O reino dos céus é paz e alegria no Espírito Santo.
Adquira a paz interior, e milhares ao seu redor encontrarão salvação.
São Serafim de Sarov

Punhos fechados ou mãos abertas?

Nas paredes das catacumbas de Roma,  às vezes há pintada a figura de uma mulher que reza, os Orans. Ela está olhando para o céu, as mãos abertas levantadas com as palmas para cima. Este é um dos mais antigos ícones cristãos. A quem ela representa - a Santíssima Virgem Maria, a Igreja ou a alma em oração? Ou talvez os três de uma só vez? Como quer que seja interpretado, esse ícone retrata uma atitude básica cristã: a da invocação ou epiclesis, o chamar ou aguardar o Espírito Santo.

Existem três posições principais que podemos assumir com nossas mãos, e cada uma tem seu próprio significado simbólico. Nossas mãos podem estar fechadas, nossos punhos fechados, como um gesto de desafio ou esforço para agarrar e segurar, expressando agressão ou medo. No outro extremo, nossas mãos podem ficar penduradas com indiferença em nossos lados, nem desafiadoras nem receptivas. Ou então, como uma terceira possibilidade, nossas mãos podem ser levantadas como dos Orans, não mais fechadas, mas abertas, não mais indiferentes, mas prontas para receber os dons do Espírito. Uma lição importante sobre o Caminho é entender como descerrar nossos punhos e abrir as mãos. Cada hora e minuto devemos fazer nossa própria ação do Orans: invisivelmente devemos levantar as mãos abertas para os céus, dizendo ao Espírito, Venha.

Todo o objetivo da vida cristã é ser um portador do Espírito, viver no Espírito de Deus, respirar o Espírito de Deus.

O vento e o fogo

Há uma qualidade secreta e oculta do Espírito Santo, o que torna difícil falar ou escrever sobre ele. Como diz São Simeão, o Novo Teólogo:

Ele deriva seu nome daquilo sobre o qual ele descansa,

Pois ele não tem um nome distinto entre os homens.

Em outro lugar São Simeão escreve (não, de fato, como referência específica ao Espírito, mas suas palavras se se aplicam muito bem à terceira pessoa da Trindade):


É invisível, e nenhuma mão pode segurá-lo;

Intangível, e ainda assim pode ser sentido em todos os lugares ...

O que é? Ó maravilha! O que não é? Pois não tem nome.

Na minha tolice, tentei compreendê-lo,

E fechei a mão, pensando que eu o segurava:

Mas escapou, e eu não conseguia mantê-lo em meus dedos.

Cheio de tristeza, abri minhas mãos

E eu o vi novamente na palma da minha mão.

Ó maravilha indescritível! Ó estranho mistério!

Por que nos incomodamos em vão? Por que todos nos deviamos?

Essa elusividade é evidente nos símbolos usados ​​pelas Escrituras para apontar para o Espírito. Ele é como "um vento rápido e forte" (Atos 2: 2): o próprio título "Espírito" (em grego, pneuma) significa vento ou respiração. Como Jesus diz a Nicodemos: "O vento (ou espírito) assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai" (João 3: 8). Nós sabemos que o vento está ali, ouvimos ele nas árvores quando acordamos à noite, nós sentimos em nossas faces quando caminhamos nas colinas.   Mas se tentarmos agarrá-lo e segurá-lo em nossas mãos, nós o perdemos. Assim é com o Espírito de Deus. Não podemos pesar e medir o Espírito, ou mantê-lo em uma caixa sob chave e cadeado. Em um de seus poemas, Gerard Manley Hopkins compara a Santíssima Virgem Maria ao ar que respiramos: a mesma analogia pode ser aplicada igualmente ao Espírito. Como o ar, o Espírito é fonte de vida, "presente em todos os lugares e preenchendo todas as coisas", sempre ao nosso redor, sempre dentro de nós. Assim como o ar permanece invisível para nós, mas atua como o meio pelo qual vemos e ouvimos outras coisas, assim o Espírito não nos revela sua própria face, mas nos mostra sempre a face de Cristo.

Na Bíblia, o Espírito Santo também é comparado ao fogo. Quando o Paráclito desce sobre os primeiros cristãos no dia de Pentecostes, está em "línguas repartidas, como que de fogo" (Atos 2: 3). Como o vento, o fogo é evasivo: vivo, livre, sempre em movimento, não podendo ser medido, pesado ou constrangido dentro de limites estreitos. Sentimos o calor das chamas, mas não podemos agarrá-las e mantê-las em nossas mãos.

Tal é o nosso relacionamento com o Espírito. Estamos conscientes de sua presença, conhecemos seu poder, mas não podemos facilmente imaginar a pessoa dele. A segunda pessoa da Trindade tornou-se encarnada, vivendo na terra como homem; os Evangelhos nos contam suas palavras e ações, sua face nos olha nos ícones sagrados, e por isso não é difícil imaginá-lo em nossos corações. Mas o Espírito não se encarnou; Sua pessoa divina não nos é revelada de forma humana. No caso da segunda pessoa da Trindade, o termo "geração" ou "nascer", empregado para indicar sua origem eterna do Pai, transmite a nossa mente uma idéia distinta, um conceito específico, embora nós percebamos que esse conceito não deve ser interpretado literalmente. Mas o termo usado para denotar o relacionamento eterno do Espírito com o Pai, "procissão" ou "proceder", não traz uma idéia clara e distinta. É como um hieróglifo sagrado, apontando para um mistério ainda não revelado. O termo indica que a relação entre o Espírito e o Pai não é a mesma que entre o Filho e o Pai; mas qual é a natureza exata da diferença, não nos é dito. Isso é inevitável, pois a ação do Espírito Santo não pode ser definida verbalmente. Tem que ser vivida e experimentada diretamente.

No entanto, apesar desta qualidade arcana no Espírito Santo, a tradição ortodoxa ensina firmemente duas coisas sobre ele. Primeiro, o Espírito é uma pessoa. Ele não é apenas uma "assopro divino" (como uma vez ouvi alguém descrevê-lo), não apenas uma força insensível, mas uma das três pessoas eternas da Trindade; e assim, por toda a sua aparente dificuldade, podemos e entramos em um relacionamento pessoal 'Eu-Tu' com ele. Em segundo lugar, o Espírito, como terceiro membro da Tríade Sagrada, é co-igual e co-eterno com os outros dois; ele não é meramente uma função dependente deles ou um intermediário que eles empregam. Uma das principais razões pelas quais a Igreja Ortodoxa rejeita a adição latina do filioque ao Credo, como também o ensinamento ocidental sobre a "dupla procissão" do Espírito que está por trás dessa adição, é precisamente o nosso medo de que tal ensino possa levar os homens a despersonalizar e subordinar o Espírito Santo.

A coeternidade e a co-igualdade do Espírito é um tema recorrente nos hinos ortodoxos para a Festa de Pentecostes:

O Espírito Santo para sempre foi, é, e será;

Ele não tem começo nem fim,

Mas ele está sempre unido e contado com o Pai e o Filho:

Vida e Doador da Vida,

Luz e Doador da Luz,

O próprio amor e fonte de amor:

Através dele, o Pai é conhecido,

Através dele, o Filho é glorificado e revelado a todos.

Um é o poder, um é a estrutura,

Um é a adoração a Santíssima Trindade.


O Espírito e o Filho

Entre as "duas mãos" do Pai, seu Filho e seu Espírito, existe uma relação recíproca, um vínculo de serviço mútuo. Muitas vezes, existe uma tendência para expressar a inter-relação entre os dois de uma maneira unilateral que obscurece essa reciprocidade. Cristo, diz-se, vem primeiro; então, depois de sua Ascensão ao céu, ele envia o Espírito no Pentecostes. Mas, na realidade, as ligações mútuas são mais complexos e mais equilibrada. Cristo nos envia o Espírito, mas ao mesmo tempo é o Espírito que envia Cristo. Lembremo-nos e desenvolvamos alguns dos padrões trinitários descritos acima.

1. Encarnação. Na Anunciação, o Espírito Santo desce sobre a Virgem Maria, e ela concebe o Logos: de acordo com o Credo, Jesus Cristo foi "encarnado do Espírito Santo e da Virgem Maria". Aqui é o Espírito que está enviando Cristo para o mundo.

2. Batismo. A relação é a mesma. Quando Jesus levanta-se das águas do Jordão, o Espírito desce sobre ele na forma de uma pomba: assim é o Espírito que "comanda" Cristo e o envia para o seu ministério público. Isso é bastante claro nos incidentes que se seguem imediatamente após o batismo. O Espírito leva Cristo ao deserto (Marcos 1:12), para passar por um período de testes de quarenta dias antes de começar a pregar. Quando Cristo retorna no final desta luta, é "no poder do Espírito" (Lucas 4:14). As primeiras palavras de sua pregação se referem diretamente ao fato de que é o Espírito que o está enviando: ele lê Isaías 61: 1, aplicando o texto para si mesmo: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres." (Lucas 4:18). Seu título "Cristo" ou "Messias" significa precisamente que ele é o ungido pelo Espírito Santo.

3. Transfiguração. Mais uma vez, o Espírito desce sobre Cristo, desta vez não na forma de uma pomba, mas como uma nuvem de luz. Assim como o Espírito enviou anteriormente Jesus para o deserto e depois para a sua pregação pública, então agora o Espírito o envia para seu "êxodo" ou morte sacrificial em Jerusalém (Lucas 9:31).

4. Pentecostes. A relação mútua é aqui revertida. Até então, foi o Espírito que envia Cristo: agora é o Cristo ressuscitado que envia o Espírito. Pentecostes constitui o objetivo e a conclusão da Encarnação: nas palavras de São Atanásio, "O Logos tomou a carne, para que possamos receber o Espírito".

5. A vida cristã. Mas a reciprocidade das "duas mãos" não termina aqui. Assim como o Espírito envia o Filho à Anunciação, o Batismo. e a Transfiguração, e assim como o Filho, por sua vez, envia o Espírito no Pentecostes, assim, depois do Pentecostes, a tarefa do Espírito é testemunhar Cristo, tornando o Senhor ressuscitado sempre presente entre nós. Se o objetivo da Encarnação é o envio do Espírito no Pentecostes, o Pentecostes é a continuação da Encarnação de Cristo dentro da vida da Igreja. Isto é precisamente o que o Espírito faz na epiclesis na consagração Eucarística; e esta epiclesis consagrada serve como modelo e paradigma para o que está acontecendo ao longo de toda a nossa vida em Cristo.

"Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles"(Mateus 18:20). Como está Cristo presente em nosso meio? Através do Espírito Santo. "Eis que estou contigo sempre, até o fim do mundo" (Mateus 28:20). Como Cristo está sempre conosco? Através do Espírito Santo. Por causa da presença do Consolador em nosso coração, não conhecemos simplesmente Cristo na quarta ou quinta mão, como uma figura distante de há muito tempo, sobre quem nós possuímos informações factuais através de registros escritos; mas o conhecemos diretamente, aqui e agora, no presente, como nosso Salvador pessoal e nosso amigo. Com o apóstolo Tomé podemos afirmar: "Meu Senhor e meu Deus" (João 20:28). Nós não dizemos meramente: "Cristo nasceu" - uma vez, muito tempo atrás; nós dizemos "Cristo nasce" - agora, neste momento, no meu próprio coração. Nós não dizemos apenas "Cristo morreu", mas "Cristo morreu por mim". Nós não dizemos meramente: "Cristo ressuscitou", mas "Cristo verdadeiramente ressuscitou" [1] - ele vive agora, para mim e em mim. Este imediatismo e objetividade pessoal em nosso relacionamento com Jesus é precisamente a obra do Espírito.

O Espírito Santo, então, não nos fala sobre si mesmo, mas ele nos fala sobre Cristo. "Quando vier o Espírito da verdade", diz Jesus na Última Ceia, "ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo ... Ele tomará o que é meu e o mostrará "(João 16: 13-14). Aqui está o motivo do anonimato ou, mais exatamente, a transparência do Espírito Santo: ele aponta, não para si mesmo, mas para o Cristo ressuscitado.

O Dom do Pentecostal 

Sobre o dom do Paráclito no dia de Pentecostes, três coisas são particularmente impressionantes:

Primeiro, é um dom para todo o povo de Deus: "Todos foram preenchidos com o Espírito Santo" (Atos 2: 4). O dom ou carisma do Espírito não é conferido apenas aos bispos e clérigos, mas a cada um dos batizados. Todos são portadores do Espírito, todos são - no sentido próprio da palavra - "carismáticos".

Em segundo lugar, é um dom de unidade: "Todos estavam todos reunidos no mesmo lugar" (Atos 2: 1). O Espírito Santo faz com que os muitos sejam um Corpo em Cristo. A descida do Espírito no Pentecostes inverte o efeito da torre de Babel (Gênesis 11: 7). Como dizemos em um dos hinos para a festa de Pentecostes:

Quando o Altíssimo desceu e confundiu as línguas,

Ele dividiu as nações;

Mas quando distribuiu línguas de fogo,

Ele chamou todos à unidade.

Portanto, com uma só voz, glorificamos o Espírito Santo.

O Espírito traz unidade e compreensão mútua, permitindo-nos falar "com uma só voz". Ele transforma indivíduos em pessoas. Da primeira comunidade cristã em Jerusalém, no período imediatamente posterior ao Pentecostes, afirma-se que "tinham todas as coisas em comum" e estavam "unidos em coração e alma" (Atos 2:44; 4:32); e essa deve ser a marca da comunidade pentecostal da Igreja em todas as épocas.

Em terceiro lugar, o dom do Espírito é um dom da diversidade: as línguas de fogo estão "repartidas" ou "divididas" (Atos 2: 3), e elas são distribuídas diretamente a cada um. O Espírito Santo não só faz de nós um só, mas ele nos faz cada um diferente. No Pentecostes, a multiplicidade de línguas não foi abolida, mas deixou de ser uma causa de separação; cada um falou como antes, em sua própria língua, mas pelo poder do Espírito cada um podia entender os outros. Para que eu seja um portador do Espírito devo realizar todas as características distintivas da minha personalidade; é tornar-se verdadeiramente livre, verdadeiramente eu mesmo na minha singularidade. A vida no Espírito possui uma variedade inesgotável; é o agir errado, não a santidade, que é chato e repetitivo. Como um amigo meu, um sacerdote que passou muitas horas a cada dia ouvindo confissões, costumava observar com cansaço: "Que pena não haja novos pecados!" Mas sempre há novas formas de santidade.

Pais no Espírito e os Tolos 

Na tradição ortodoxa, a ação direta do Paráclito dentro da comunidade cristã é bastante evidente em duas figuras "portadoras de Espírito": o ancião ou pai espiritual, e o tolo em Cristo.

O ancião ou "velho", conhecido em grego como geron e em russo como starets, não necessariamente velho em anos, mas ele é sábio em sua experiência da verdade divina e abençoado com a graça da "paternidade no Espírito" , com o carisma de orientar os outros no Caminho.  O que ele oferece aos seus filhos espirituais não é primariamente instruções morais ou uma regra de vida, mas um relacionamento pessoal. "O starets", diz Dostoiévski, "é aquele que leva a sua alma, sua vontade, à alma e à vontade dele". Os discípulos do Pe. Zacarias diziam sobre ele: "Era como se ele estivesse com nossos corações em suas mãos."

O starets é um homem de paz interior, de cujo lado milhares podem encontrar a salvação. O Espírito Santo deu-lhe, como fruto de sua oração e abnegação, o dom do discernimento ou da discriminação, permitindo-lhe ler os segredos dos corações dos homens; e, assim, ele responde, não apenas as questões que os outros colocam, mas também as questões - muitas vezes muito mais fundamentais - que nem sequer pensaram em perguntar. Combinado com o dom do discernimento, ele possui o dom da cura espiritual - o poder de restaurar as almas dos homens, e às vezes também seus corpos. Esta cura espiritual que ele fornece, não só por meio de suas palavras de conselho, mas por seu silêncio e sua própria presença. Embora seja importante o seu conselho, muito mais importante é sua oração de intercessão. Ele torna seus filhos plenos orando constantemente por eles, identificando-se com eles, aceitando suas alegrias e dores como suas, levando em seus ombros o fardo de culpa ou ansiedade deles. Ninguém pode ser um starets se não orar insistentemente pelos outros.

Se o starets é um padre, geralmente seu ministério de direção espiritual está intimamente ligado ao sacramento da confissão. Mas um starets no sentido pleno, como descrito por Dostoiévski ou exemplificado pelo P. Zachariah, é mais do que apenas um padre-confessor. A starets no sentido pleno não pode ser nomeado por qualquer autoridade superior. O que acontece é simplesmente que o Espírito Santo, falando diretamente aos corações do povo cristão, deixa claro que essa ou aquela pessoa foi abençoada por Deus com a graça de guiar e curar os outros. O verdadeiro starets é, nesse sentido, uma figura profética, não uma autoridade institucional. Embora seja mais comum um padre-monge, ele também pode ser um pároco casado, ou então um monge leigo não ordenado como padre, ou mesmo - mas isso é menos frequente - uma freira ou um leigo mulher ou homem que vive no mundo. Se o starets não é ele próprio um padre, depois de ouvir os problemas das pessoas e oferecer conselhos, ele enviará freqüentemente a um padre para a confissão sacramental e a absolvição.

A relação entre o filho e o pai espiritual varia muito. Alguns visitam um starets talvez apenas uma ou duas vezes na vida, em um momento de crise especial, enquanto outros estão em contato regular com seus starets, vendo-o mensalmente ou mesmo diariamente. Nenhuma regra pode ser estabelecida antecipadamente; a associação cresce por si mesma sob a orientação imediata do Espírito.

Sempre o relacionamento é pessoal. Os starets não aplicam regras abstratas aprendidas de um livro - como na "casuística" do catolicismo da contra-reforma - mas ele vê em cada ocasião esse homem ou mulher particular que está diante dele; e, iluminado pelo Espírito, ele procura transmitir a vontade única de Deus especificamente para essa pessoa. Porque os verdadeiros starets entende e respeita o caráter distintivo de cada um, ele não suprime sua liberdade interior, mas a reforça. Ele não busca suscitar uma obediência mecânica, mas conduz seus filhos ao ponto de maturidade espiritual, onde eles podem decidir por si mesmos. Para cada um, ele mostra a face verdadeira deles, que antes estava em grande parte escondido dessa pessoa; e sua palavra é criativa e vivificante, permitindo que o outro realize tarefas que antes pareciam impossíveis. Mas tudo isso, o starets pode alcançar apenas porque ele ama cada um pessoalmente. Além disso, o relacionamento é mútuo: o starets não pode ajudar outro, a menos que o outro deseje seriamente mudar seu modo de vida e abrir seu coração em confiança amorosa para os starets. Aquele que vai ver um starets em um espírito de curiosidade crítica provavelmente retornará com as mãos vazias, sem ser impressionado.

Porque o relacionamento é sempre pessoal, um starets específico não pode ajudar todos de forma igual. Ele pode ajudar apenas aqueles que são especificamente enviado a ele pelo Espírito. Do mesmo modo, o discípulo não deve dizer: "O meu starets é melhor do que todos os outros". Ele deveria dizer apenas: "Meu starets é o melhor para mim".

Ao orientar os outros, o pai espiritual espera a vontade e a voz do Espírito Santo. "Dou apenas o que Deus me diz para dar", disse diz Serafim. "Eu acredito na primeira palavra que me vem inspirar pelo Espírito Santo". "Eu acredito que a primeira palavra que me vem seja inspirada pelo Espírito Santo." Obviamente, ninguém tem o direito de agir desta maneira, a menos que, através do esforço e da oração ascética, tenha alcançado uma consciência excepcionalmente intensa da presença de Deus. Para qualquer um que não tenha atingido este nível, tal comportamento seria presunçoso e irresponsável.

Pe. Zacarias fala nos mesmos termos que São Serafim:

Às vezes, o homem não conhece o que ele dirá. O próprio Senhor fala através dos seus lábios. É preciso orar assim: "Senhor, viva em mim, que você fale através de mim, que você possa agir através de mim". Quando o Senhor fala através dos lábios de um homem, todas as palavras desse homem são eficazes e tudo que é falado por ele é cumprido. O homem que fala fica ele próprio surpreso com isso... Só que não se deve contar com a sabedoria..

A relação entre pai e filho espiritual se estende além da morte até o Juízo Final. O Pe. Zacarias tranquilizou seus seguidores: "Depois da morte, eu estarei muito mais vivo do que estou agora, então não se aflija quando eu morrer... No dia do julgamento, o ancião dirá: 'Aqui estou eu e meus filhos'".  São Serafim pediu que essas palavras notáveis fossem inscritas em sua lápide:

Quando eu morrer, venha a mim no meu túmulo, e quanto mais frequentemente melhor. Seja o que estiver em sua alma, seja o que for que aconteceu com você, venha até mim como quando eu estava vivo e, ajoelhada no chão, expulse toda a sua amargura no meu túmulo. Diga-me tudo e eu vou ouvir você, e toda a amargura vai se afastar de você. Como você falou comigo quando eu estava vivo, faça o mesmo agora. Porque eu estou vivendo, e será para sempre.

Nem todos os ortodoxos possuem um pai espiritual próprio. O que devemos fazer se nós buscamos um guia e não conseguimos encontrar um?  É óbvio que é possível aprender com os livros: quer tenhamos ou não um starets, olhamos para a Bíblia como orientação constante. Mas a dificuldade com os livros é saber exatamente o que me é aplicável pessoalmente, neste ponto específico da minha jornada. Além dos livros, e também da paternidade espiritual, há também fraternidade ou irmandade espiritual - a ajuda que nos é dada, não pelos mestres em Deus, mas pelos nossos irmãos discípulos. Não devemos negligenciar as oportunidades oferecidas a nós nesta forma. Mas aqueles que se comprometem seriamente com o Caminho devem, além disso, fazer todos os esforços para encontrar um pai no Espírito Santo. Se eles procurarem humildemente, a eles sem dúvida será dado a orientação que exigem. Não é que eles frequentemente irão encontrar starets como São Serafim ou Pe. Zacarias. Devemos tomar cuidado pois, com nossa expectativa por algo exteriormente mais espetacular, ignoramos a ajuda que Deus realmente está nos oferecendo. Alguém que, nos olhos dos outros, não é interessante, talvez seja o único pai espiritual que pode falar comigo, pessoalmente, as palavras de fogo que, acima de tudo, preciso ouvir.

Um segundo profético portador do Espírito dentro da comunidade cristã é o tolo em Cristo, chamado pelos gregos salos e pelos russos iurodivyi. Normalmente, é difícil descobrir até que ponto sua "loucura" é conscientemente e deliberadamente assumida, e até que ponto é espontânea e involuntária. Inspirado pelo Espírito, o tolo carrega o ato de metanoia ou "mudança de mente" em sua extensão máxima. Mais radicalmente do que qualquer outra pessoa, ele ergue a pirâmide de ponta cabeça. Ele é um testemunho vivo da verdade de que o reino de Cristo não é deste mundo; ele atesta a realidade do "anti-mundo", para a possibilidade do impossível. Ele pratica uma pobreza voluntária absoluta, identificando-se com o Cristo humilhado. Como diz Iulia de Beausobre: ​​"Ele é filho de ninguém, irmão de ninguém, pai de ninguém, e não tem casa". Renunciando a vida familiar, é o viajante ou o peregrino que se sente igualmente em casa em todos os lugares, mas que não se estabelece em lugar algum. Vestido em andrajos, mesmo no frio do inverno, dormindo em um galpão ou na frente da igreja, ele renuncia não só a bens materiais, mas também o que os outros consideram como sua sanidade e equilíbrio mental. Contudo, ele se torna um canal para a sabedoria elevada do Espírito.

Ser tolo por Cristo, desnecessário dizer, é uma vocação extremamente rara; tampouco é fácil distinguir a imitação do genuíno, quem rompe as barreiras de quem cai sob seu peso.. Há, no final, apenas um teste: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:20). O falso tolo é inútil e destrutivo, para si mesmo e para os outros. O verdadeiro tolo em Cristo, possuindo pureza de coração, tem sobre a comunidade ao seu redor um efeito que é potencializador da vida. Do ponto de vista prático, nenhum objetivo útil é servido por qualquer coisa que o tolo faz. E, no entanto, através de uma ação surpreendente ou uma palavra enigmática, muitas vezes deliberadamente provocativa e chocante, ele desperta os homens da complacência e do farisaísmo. Permanecendo separado, ele desencadeia reações nos outros, fazendo subir o subconsciente à superfície e permitindo que seja purgado e santificado. Ele combina audácia com humildade. Por ter renunciado tudo, ele é verdadeiramente livre. Como o tolo Nicolas de Pskov, que colocou nas mãos de Tsar Ivan o Terrível um pedaço de carne pingando sangue, ele pode repreender os poderosos deste mundo com uma ousadia que outros não têm. Ele é a consciência viva da sociedade.

Torne-se o que você é

Apenas alguns cristãos em cada geração se tornam anciãos, e ainda menos se tornam tolos em Cristo. Mas todos os batizados sem exceção são portadores do Espírito. "Você não percebe ou entende sua própria nobreza?", pergunta as Homilias de São Macário.

"... Cada um de vocês foi ungido com o crisma celestial, e tornou-se um Cristo pela graça; cada um é rei e profeta dos mistérios celestes ."

O que aconteceu com os primeiros cristãos no dia do Pentecostes acontece também a cada um de nós quando, imediatamente após o nosso Batismo, estamos na prática ortodoxa ungida com Crisma, ou Myron. (Este, o segundo sacramento da iniciação cristã, corresponde à Confirmação na tradição ocidental.) O recém-batizado, criança ou adulto, é marcado pelo sacerdote na testa, olhos, narinas, boca, orelhas, peito, mãos e pés, com as palavras: 'O selo do dom do Espírito Santo'. Isso é, para cada pessoa, um Pentecostes pessoal: o Espírito, que desce visivelmente sobre os Apóstolos em línguas de fogo, desce sobre cada um de nós de forma invisível, não com menos realidade e poder. Cada um se torna um "ungido", um "Cristo" segundo a semelhança de Jesus, o Messias. Cada um é selado com o charismata do Consolador. Desde o momento do nosso Batismo e Crismação, o Espírito Santo, juntamente com Cristo, vem morar no santuário mais íntimo do nosso coração. Embora digamos ao Espírito 'Venha', ele já está dentro de nós.

Por mais descuidados e indiferentes que os batizados possam ser em sua vida subsequente, esta presença permanente do Espírito nunca é totalmente retirada. Mas a menos que cooperemos com a graça de Deus - a menos que, através do exercício da nossa livre vontade, nos esforcemos para realizar os mandamentos - é provável que a presença do Espírito dentro de nós permaneça escondida e inconsciente. Como peregrinos no Caminho, então, é nosso propósito avançar do estágio onde a graça do Espírito está presente e ativa dentro de nós de forma oculta, até o ponto de percepção consciente, quando conhecemos o poder do Espírito abertamente, diretamente, com a plena percepção de nosso coração. "Eu vim lançar fogo à terra", disse Cristo, "e quem me dera que já estivesse a arder!" (Lucas 12:49). A centelha Pentecostal do Espírito, existente em cada um de nós do Batismo, deve ser acesa em uma chama viva. Devemos nos tornar o que somos.

"O fruto do Espírito é amor, alegria, paz, longanimidade, gentileza ..." (Gálatas 5:22). A percepção consciente da ação do Espírito deve ser algo que permeia toda a nossa vida interior. Não é necessário que todos sejam submetidos a uma "experiência de conversão" impressionante. Ainda menos é necessário que todos "falem em línguas". A maioria das opiniões ortodoxas contemporâneas veem com grande reserva aquela parte do "Movimento Pentecostal" que trata as "línguas" como a prova decisiva e indispensável de que alguém é verdadeiramente um portador do Espírito. O dom das línguas era, é claro, freqüente na era apostólica; mas desde meados do segundo século tem sido muito menos comum, embora nunca tenha desaparecido inteiramente. Em qualquer caso, São Paulo insiste que este é um dos mais importantes dos dons espirituais (ver 1 Coríntios 14: 5).

Quando é genuinamente espiritual, 'falar em línguas' parece representar um ato de 'libertação' - o momento crucial na quebra da nossa auto-confiança pecaminosa, e sua substituição por uma vontade de permitir que Deus atue dentro de nós.

Na tradição ortodoxa, este ato de "deixar-ir" toma mais freqüentemente a forma do dom das lágrimas. "Lágrimas", diz São Isaac o Sírio, "marcam a fronteira entre o estado corporal e o espiritual, entre o esado de sujeição às paixões e o da pureza". E em uma passagem memorável, ele escreve: 

Os frutos do homem interior começam apenas com o derramar das lágrimas. Quando você chega no local das lágrimas, então saiba que seu espírito saiu da prisão deste mundo e pôs o pé no caminho que conduz à Nova Era. Seu espírito começa neste momento a respirar o ar maravilhoso que está lá, e começa a derramar lágrimas. O momento para o nascimento do filho espiritual está próximo e o trabalho de parto torna-se intenso. A graça, a mãe comum de todos nós, apressa-se a misticamente dar à luz a alma, a imagem de Deus, trazendo-a para a luz da Era por vir. E quando a hora para o nascimento chega, o intelecto começa a sentir algo das coisas daquele outro mundo - como um fraco perfume, ou como o sopro da vida que um recém-nascido recebe no seu corpo. Mas nós não estamos acostumados a essa experiência e, achando difícil de suportar, nosso corpo é subitamente tomado por um choro misturado com alegria. 

Há, no entanto, muitos tipos de lágrimas, e nem todas são um dom do Espírito. Além das lágrimas espirituais, há lágrimas de raiva e frustração, lágrimas derramadas por autocomiseração, lágrimas sentimentais e emocionais. O discernimento é necessário; daí a importância de buscar a ajuda de um guia espiritual experiente, um starets. O discernimento é ainda mais necessário no caso de 'línguas'. Muitas vezes, não é o Espírito de Deus que está falando através das línguas, mas o espírito demasiado humano de auto-sugestão e histeria em massa. Há até mesmo ocasiões em que "falar em línguas" é uma forma de possessão demoníaca. "Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus" (1 João 4: 1).

A ortodoxia, portanto, enquanto insiste na necessidade de uma experiência direta do Espírito Santo, insiste também na necessidade de discriminação e sobriedade. Nosso choro, e também a nossa participação nos outros dons do Espírito, precisam ser purificados de toda a fantasia e excitação emocional. Os dons que são genuinamente espirituais não devem ser rejeitados, mas nunca devemos perseguir tais dons como um fim em si mesmos. Nosso objetivo na vida de oração não é obter sentimentos ou experiências "sensíveis" de qualquer tipo, mas simplesmente e unicamente conformar a nossa vontade à vontade de Deus. "Pois que não busco o que é vosso, mas sim a vós", diz São Paulo aos Coríntios (2 Coríntios 12:14); e dizemos o mesmo a Deus. Procuramos não os dons, mas o doador.



Notas:
[1] N.T.: No original há "We do not say merely, ‘Christ rose’, but ‘Christ is risen’ — he lives now, for me and in me." O autor enfatiza a diferença entre "rose" e "is risen", onde "rose" dá uma ideia de algo concluído no passado, enquanto "is risen" continua no presente. 


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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

A Teoria do Conhecimento de São Isaque, o Sírio (São Justino Popovich) [Parte 2/2]

O Mistério do Conhecimento

A cura e purificação dos órgãos do conhecimento humano é provocada pela ação comum de Deus e do homem - pela graça de Deus e pela vontade do homem. No longo caminho de purificação e cura, o próprio conhecimento se torna mais puro e saudável. Em cada etapa do seu desenvolvimento, o conhecimento depende da estrutura ontológica e do estado ético de seus órgãos. Purificados e curados pelo esforço de um homem nas virtudes evangélicas, os próprios órgãos do conhecimento adquirem santidade e pureza. Um coração puro e mente pura geram conhecimento puro. Os órgãos do conhecimento, quando purificados, curados e voltados para Deus, dão um conhecimento puro e saudável de Deus e, quando voltados para a criação, dão um conhecimento puro e saudável da criação.

De acordo com o ensinamento de São Isaque, o Sírio, há dois tipos de conhecimento: aquele que precede a fé e aquele que nasce da fé. O primeiro é o conhecimento natural, e envolve o discernimento do bem e do mal. O último é o conhecimento espiritual, e é "a percepção dos mistérios", "a percepção do que está escondido", "a contemplação do invisível". 

Há também dois tipos de fé: a primeira vem através da audição e é confirmada e comprovada pela segunda, "a fé da contemplação", "a fé que se baseia no que foi visto". Para adquirir conhecimento espiritual, o homem deve primeiro libertar-se do conhecimento natural. Este é o trabalho da fé. É pela ascese da fé que vem ao homem o "poder desconhecido" que o torna capaz do conhecimento espiritual. Se o homem se deixa ser apanhado na teia do conhecimento natural, torna-se mais difícil de se libertar dele do que remover pesadas correntes, e sua vida é vivida "contra a borda de uma espada". 

Quando um homem começa a seguir o caminho da fé, ele deve deixar de lado todo seus velhos métodos de conhecimento, pois a fé tem seus próprios métodos. Então o conhecimento natural cessa e o conhecimento espiritual toma seu lugar. O conhecimento natural é contrário à fé, pois a fé e tudo o que vem da fé, é "a destruição das leis do conhecimento" - embora não do conhecimento espiritual, mas do conhecimento natural.

A principal característica do conhecimento natural é a sua abordagem por meio do exame e da experimentação. Isso em si mesmo é "um sinal de incerteza sobre a verdade". A fé, ao contrário, segue um modo de pensamento puro e simples, que está longe de todo exame enganador e metódico. Esses dois caminhos levam para direções opostas. A casa da fé é "pensamento como de criança e simplicidade de coração", pois é dito: Glorifique a Deus "em simplicidade de coração" (Col. 3:22), e: " se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus"(Mateus 18: 3). O conhecimento natural se opõe à simplicidade do coração e à simplicidade do pensamento. Este conhecimento funciona apenas dentro dos limites da natureza,  “mas a fé tem o seu próprio caminho para além da natureza.”

Quanto mais um homem se dedica aos caminhos do conhecimento natural, mais ele é agarrado pelo medo e menos pode se livrar dele. Mas se ele segue a fé, ele é imediatamente libertado e "como filho de Deus, tem o poder de fazer uso livre de todas as coisas," pois para a fé é dado o poder de "ser como Deus ao fazer uma nova criação". Assim, está escrito: "Tu suplicaste, e todas as coisas são apresentadas diante de ti" (cf. Job 23:13 LXX). A fé geralmente pode "gerar todas as coisas do nada", enquanto o conhecimento não pode fazer nada "sem a ajuda da matéria". O conhecimento não tem poder sobre a natureza, mas a fé tem tal poder. Armados com fé, os homens entraram no fogo e apagaram as chamas, sendo intocados por elas. Outros caminharam sobre as águas como em terra firme. Todas essas coisas estão "além da natureza"; elas vão contra os modos do conhecimento natural e revelam a vaidade de tais modos. A fé "move-se acima da natureza". Os caminhos do conhecimento natural governaram o mundo por mais de cinco mil anos, e o homem não conseguiu "levantar o olhar da terra e entender o poder de seu Criador" até que "nossa fé surgiu e nos livrou das sombras das obras deste mundo" e de uma mente fragmentada. Aquele que tem fé "não faltará nada" e, quando possui nada, "ele possui todas as coisas pela fé", como está escrito: "Tudo o que pedirdes em oração, crendo, receberás" (Mateus 21:22); e também: "O Senhor está próximo; não se preocupe com nada "(Filipenses 4: 5-6) .

As leis naturais não existem para a fé. São Isaque enfatiza decisivamente: "Tudo é possível para aquele que crê" (Marcos 9:23), pois com Deus nada é impossível. O conhecimento natural restringe os discípulos de "aproximar-se do que é estranho à natureza," para aquilo que está acima da natureza.

Este conhecimento natural a que se refere São Isaque aparece na filosofia moderna sob três títulos: realismo baseado nos sentidos, crítica epistemológica e monismo. Essas três abordagens limitam o poder, a realidade, a força, o valor, os critérios e a extensão do conhecimento dentro dos limites da natureza visível - na medida em que estes coincidem com os limites dos sentidos humanos como órgãos do conhecimento. Pisar além dos limites da natureza e entrar no reino do sobrenatural é algo considerado contra a natureza, como algo irracional e impossível, proibido aos seguidores dos três caminhos filosóficos em questão. Diretamente ou indiretamente, o homem está limitado aos seus sentidos e não se atreve a passar além deles.

No entanto, esse conhecimento natural, de acordo com São Isaque, não é culpado. Não deve ser rejeitado. Acontece apenas que a fé é maior. Este conhecimento só deve ser condenado na medida em que, pelos diferentes meios que ele usa, ele se volta contra a fé. Mas quando esse conhecimento "é unido à fé, tornando-se um com ela, se vestindo em seus pensamentos ardentes", quando "adquire asas da despaixão", então, usando outros meios do que os naturais, eleva-se da terra para a "esfera do Criador", para o sobrenatural. Este conhecimento é então realizado pela fé e recebe o poder de "subir às alturas", para perceber Aquele que está além de toda percepção e "ver o brilho que é incompreensível para a mente e o conhecimento dos seres criados". O conhecimento é o nível a partir do qual um homem se eleva às alturas da fé. Quando alcança estas alturas, ele não mais precisará, pois está escrito: "Porque em parte conhecemos, mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado" (1 Coríntios 13:9,10). A fé nos revela agora a verdade da perfeição, como se estivesse diante de nossos olhos. É pela fé que aprendemos o que está além da nossa compreensão - pela fé e não pela pesquisa e pelo poder do conhecimento.

As obras da retidão são: o jejum, a esmola, a vigília, a pureza do corpo, o amor ao próximo, a humildade do coração, o perdão dos pecados, a reflexão sobre as coisas celestiais, o estudo dos mistérios da Sagrada Escritura, o engajamento da mente em as obras mais elevadas - estas e todas as outras virtudes são passos pelos quais a alma se eleva aos mais altos domínios da fé.

Existem três modos espirituais em que o conhecimento aumenta e diminui, e pelo qual se move e muda. Esses são o corpo, a alma e o espírito. Embora o conhecimento seja um todo único por sua natureza, ele muda o modo e a forma de sua ação em relação a cada um desses três. "O conhecimento é um dom de Deus para a natureza dos seres racionais, dado a eles no início, na sua criação. É naturalmente simples e indiviso, como a luz do sol, mas em função do corpo, da alma e do espírito, ele muda e se divide".

No seu nível mais inferior, o conhecimento "segue os desejos da carne", preocupando-se com riquezas, vaidade, vestimentas, repouso do corpo e busca de sabedoria racional. Este conhecimento inventa as artes e as ciências e tudo o que adorna o corpo neste mundo visível. Mas, em tudo isso, esse conhecimento é contrário à fé. É conhecido como "mero conhecimento, pois é privado de todo o pensamento do divino e, por seu caráter carnal, traz à mente uma fraqueza irracional, porque nela a mente é superada pelo corpo e toda a sua preocupação é para a coisas desse mundo". É pomposo e cheio de orgulho, pois remete toda boa obra a si mesmo e não a Deus. O que o apóstolo disse, "conhecimento traz orgulho" (I Cor. 8: 1), obviamente foi dito sobre esse conhecimento, que não está ligado à fé e à esperança em Deus e não ao conhecimento verdadeiro. O verdadeiro conhecimento espiritual, ligado à humildade, traz à perfeição a alma daqueles que o adquirem, como se vê em Moisés, Davi, Isaías, Pedro, Paulo e todos aqueles que, dentro dos limites da natureza humana, foram considerados dignos deste conhecimento perfeito.

"Com eles, o conhecimento sempre está imerso em refletir coisas estranhas a este mundo, em revelações divinas e na contemplação elevada de coisas espirituais e mistérios inefáveis. Em seus olhos, suas próprias almas são apenas pó e cinzas." O conhecimento que vem da carne é criticado pelos cristãos, que o vêem em oposição não somente à fé, mas a qualquer ato de virtude.

Não é difícil ver que, neste primeiro e grau mais inferior de conhecimento do qual o Santo Isaque fala, está incluído praticamente toda a filosofia européia, do realismo ingénuo ao idealismo - e toda a ciência do atomismo de Democrates à relatividade de Einstein.

Do primeiro e mais inferior grau de conhecimento, o homem passa para o segundo, quando ele começa tanto no corpo quanto na alma a praticar as virtudes: jejum, oração, esmola, a leitura da Sagrada Escritura, a luta com as paixões e assim por diante . Todo bom trabalho, toda boa disposição da alma neste segundo grau de conhecimento, é iniciado e realizado pelo Espírito Santo através do funcionamento desse conhecimento particular. Ao coração é mostrado os caminhos que levam à fé, mesmo que esse conhecimento permaneça "corporal e composto".

O terceiro grau de conhecimento é o da perfeição. "Quando o conhecimento eleva-se acima da terra e do cuidado com as coisas terrenas e começa a examinar seus próprios pensamentos interiores e ocultos, desprezando aqueles dos quais o mal das paixões brotam e se eleva para seguir o caminho da fé no que concerne a vida por vir... e na busca de mistérios ocultos - então a fé toma esse conhecimento em si mesma e absorve-o, retornando e dando à luz desde o início, de modo a se tornar "desde o início", inteiramente espírito". Então, pode "tomar asas e voar para o reino dos espíritos incorpóreos e aprofundar as profundezas do oceano insondável, ponderando sobre as coisas divinas e maravilhosas que regem a natureza dos seres espirituais e físicos, penetrando os mistérios espirituais que só podem ser apreendidos por uma mente simples e flexível. Em seguida, os sentidos internos despertam para a obra do espírito nas coisas que pertencem a esse outro reino, imortal e incorruptível. Este conhecimento, de forma oculta, aqui neste mundo, já recebeu ressurreição espiritual para dar testemunho verdadeiro da renovação de todas as coisas".

Estes, de acordo com São Isaque, são os três graus de conhecimento com que toda a vida do homem está ligada em corpo, alma e espírito. A partir do momento em que ele "começa a discernir entre o bem e o mal até o momento de sua saída deste mundo", o conhecimento da alma é composto de um ou todos esses três graus.

O primeiro grau de conhecimento "esfria o ardor da alma por empreendimentos no caminho de Deus". O segundo "re-acende para o caminho rápido que leva à fé". O terceiro é um "descanso do trabalho", quando a mente "regojiza nos mistérios da vida por vir ". "Mas, como a natureza não pode, ainda, ascender completamente ao nível da imortalidade e superar o peso da carne e se aperfeiçoar no conhecimento espiritual, nem mesmo esse terceiro grau de conhecimento é capaz de se mover para a perfeição total, de modo a viver na mundo da morte e ainda deixa para trás a natureza completamente carnal ". Enquanto o homem está na carne, portanto, ele passa de um grau de conhecimento para outro. Ele tem a ajuda da graça, mas é impedido pelos demônios, "porque ele não é totalmente livre neste mundo imperfeito." Todo trabalho do conhecimento consiste em "esforço e prática constante", mas o trabalho de fé "não consiste em atos", mas em pensamentos espirituais e na  pureza de alma, e isso está acima dos sentidos. Pois a fé é mais sutil que o conhecimento, assim como o conhecimento é mais sutil do que os sentidos. Todos os santos que alcançaram tal vida "habitam, por fé, nas delícias de uma vida acima da natureza". Essa fé nasce na alma através da luz da graça que, "pelo testemunho da mente, ampara o coração que pode estar incerto em esperança - numa esperança que está longe de qualquer presunção". Esta fé tem "olhos espirituais" que percebem "os mistérios escondidos na alma, riquezas escondidas que estão ocultas dos olhos dos filhos da carne", mas são reveladas pelo Espírito Santo, que é recebido pelos discípulos de Cristo (cf. João 14: 15-17). O Espírito Santo é "o poder santo" que permanece dentro do homem de Cristo, preservando e defendendo sua alma e corpo do mal. Este poder invisível é percebido com os olhos da fé por aqueles cujas mentes estão iluminadas e santificadas. É sabido pelos santos "através da experiência".

Para explicar ainda mais claramente o mistério do conhecimento, São Isaque apresenta mais definições de conhecimento e fé. "O conhecimento que se preocupa com o visível e o sensual é chamado de natural; o conhecimento que se preocupa com o espiritual e o incorpóreo é chamado de espiritual, pois recebe sua percepção através do espírito e não através dos sentidos. O conhecimento que vem pelo poder divino, no entanto, é conhecido como sobrenatural. É incognoscível e é superior ao conhecimento." "A alma não recebe essa contemplação da matéria que está fora dela", como é o caso dos dois primeiros tipos de conhecimento, "mas vem inesperadamente por si só como um dom imaterial contido dentro de si, de acordo com as palavras de Cristo: 'O reino de Deus está dentro de vós' (Lucas 17:21). Não há razão para aguardar seu aparecimento em alguma forma externa, pois não vem 'com observação' (Lucas 17:20)".

O primeiro conhecimento vem "do estudo contínuo e do desejo de aprender. O segundo vem de uma maneira correta de vida e uma fé claramente mantida. O terceiro vem somente da fé, pois nela o conhecimento é extinto, a atividade cessa, e os sentidos tornam-se supérfluos." Pois os mistérios do Espírito, "que estão além do conhecimento e não são apreendidos nem pelos sentidos corporais nem pelos poderes racionais da mente, Deus nos deu uma fé pela qual só sabemos que esses mistérios existem". O Salvador chama a chegada do Consolador "os dons da revelação dos mistérios do Espírito" (ver João 14:16, 26), e, portanto, vê-se que a perfeição do conhecimento espiritual consiste "no recebimento do Espírito, assim ocorreu com os apóstolos." "A fé é a porta de entrada para os mistérios. Assim como os olhos corporais vêem as coisas materiais, a fé vê com os olhos espirituais o que está escondido." Quando o homem atravessa o portão da fé, Deus o leva "aos mistérios espirituais e abre o mar da fé ao seu entendimento".

Todas as virtudes têm um papel a desempenhar neste conhecimento espiritual, pois é fruto da prática das virtudes.A fé "engendra o temor de Deus" e, a partir desse temor de Deus, segue o arrependimento e a prática das virtudes, que dá origem ao conhecimento espiritual. Este conhecimento, "vindo de uma longa experiência e prática das virtudes, é agradável" e dá ao homem um grande poder. A primeira e principal base do conhecimento espiritual é uma alma saudável, um órgão de conhecimento saudável. "O conhecimento é o fruto de uma alma saudável", enquanto uma alma saudável é o resultado de uma longa prática das virtudes evangélicas. Os que "tem a alma saudável" são os perfeitos, e é para eles que o conhecimento é dado.

É muito difícil, e muitas vezes impossível, expressar em palavras o mistério e a natureza do conhecimento. No reino do pensamento humano, não existe uma definição pronta que possa explicá-lo completamente. São Isaque, portanto, dá muitas definições diferentes de conhecimento. Ele é continuamente ocupado neste assunto, e o problema é como um ponto de interrogação incerto diante dos olhos deste santo asceta. O santo apresenta as respostas de sua experiência rica e abençoada, alcançada através de uma longa e dura ascese. Mas a resposta mais profunda e, na minha opinião, mais exaustiva que o homem pode dar a esta questão é a de São Isaque, sob a forma de um diálogo:

"Pergunta: o que é conhecimento?
"Resposta: A percepção da vida eterna.
"Pergunta: E o que é a vida eterna?
"Resposta: perceber todas as coisas em Deus. Pois o amor vem pela compreensão, e o conhecimento de Deus é governante sobre todos os desejos. Para o coração que recebe esse conhecimento, todo prazer que existe na terra é supérfluo, pois não há nada que possa comparar com o deleite do conhecimento de Deus".

O conhecimento é, portanto, a vitória sobre a morte, a ligação desta vida com a vida imortal e a união do homem com Deus. O próprio ato de conhecimento toca o imortal, pois é pelo conhecimento que o homem ultrapassa os limites do subjetivo e entra no reino do trans-subjetivo. E quando o objeto trans-subjetivo é Deus, o mistério do conhecimento torna-se o mistério dos mistérios e o enigma dos enigmas. Esse conhecimento é um tecido místico tecido no tear da alma pelo homem que está unido com Deus.

Para o conhecimento humano, o problema mais importante é o da verdade. O conhecimento traz em si uma atração irresistível para o mistério infinito, e essa fome de verdade que é instintiva para o conhecimento humano nunca é satisfeita até que a verdade eterna e absoluta se torne a substância do conhecimento humano - até que o conhecimento, em sua própria autopercepção, adquira a percepção de Deus, e em seu auto-conhecimento, vem ao conhecimento de Deus. Mas isso é dado ao homem apenas por Cristo, o Deus-homem, Ele que é a única encarnação e personificação da verdade eterna no mundo das realidades humanas. Quando o homem recebe o Deus-homem em si mesmo como a alma de sua alma e a vida de sua vida, este o homem é constantemente preenchido com o conhecimento da verdade eterna.

O que é verdade? São Isaque responde assim: "A verdade é a percepção das coisas que é dada por Deus". Em outras palavras: a percepção de Deus é a verdade. Se essa percepção existe no homem, ele tem e conhece a verdade. Se ele não tem essa percepção, então a verdade não existe para ele. Tal homem sempre pode estar buscando a verdade, mas nunca a encontrará até chegar à percepção de Deus, onde se encontra tanto a percepção quanto o conhecimento da verdade.

É o homem que restaura e transforma seus órgãos de conhecimento pela prática das virtudes que vem à percepção e ao conhecimento da verdade. Para ele fé e conhecimento, e tudo o que acompanha, são um todo indivisível e orgânico. Eles preenchem e são preenchidos um pelo outro, e cada um confirma e apoia o outro. "A luz da mente dá à luz a fé", diz São Isaque, "e a fé dá à luz a consolação de esperança, enquanto a esperança fortalece o coração. A fé é a iluminação do entendimento. Quando o entendimento é escurecido, a fé se esconde e o medo mantém a influência, cortando a esperança. A fé, que banha o entendimento na luz, liberta o homem do orgulho e da dúvida, e é conhecida como "o conhecimento e a manifestação da verdade".

O conhecimento sagrado vem de uma vida santa, mas o orgulho escurece esse conhecimento sagrado. A luz da verdade aumenta e diminui de acordo com o modo de vida do homem. Terríveis tentações caem sobre aqueles que procuram viver uma vida espiritual. O asceta da fé deve, portanto, passar por grandes sofrimentos e infortúnios para chegar ao conhecimento da verdade.

Uma mente perturbada e pensamentos caóticos são fruto de uma vida desordenada, e estes escurecem a alma. Quando as paixões são expulsas da alma com a ajuda das virtudes, quando "a cortina das paixões é retirada dos olhos de a mente", então o intelecto pode perceber a glória do outro mundo. A alma cresce por meio das virtudes, a mente é confirmada na verdade e torna-se inabalável, "cingido por encontrar e matar todas as paixões". Libertação das paixões é provocada pela crucificação do intelecto e da carne. Isso torna o homem capaz de contemplar Deus. O intelecto é crucificado quando os pensamentos impuros são expulsos dele, e o corpo quando as paixões são desenraizadas. "Um corpo entregue ao prazer não pode ser a morada do conhecimento de Deus".

O verdadeiro conhecimento - "a revelação dos mistérios" - é alcançado por meio das virtudes, e este é "o conhecimento que salva". A característica principal - e a "prova" - deste conhecimento é a humildade. Quando o intelecto "habita no domínio do conhecimento da verdade", então todos os questionamentos cessam, e uma grande calma e paz descem sobre ele. Essa paz mental é chamada de "saúde perfeita". Quando o poder do Espírito Santo entra na alma, a alma "aprende através do Espírito".

Na filosofia de São Isaque, o problema da natureza do conhecimento torna-se um problema ontológico e ético que, em última instância, é visto como o problema da personalidade humana. A natureza e o caráter do conhecimento dependem ontologicamente, moralmente e gnoseologicamente da constituição da pessoa humana, e especialmente da constituição e do estado de seus órgãos de conhecimento. Na pessoa do asceta da fé, o conhecimento, por sua própria natureza, se transforma em contemplação.


Contemplação

Na filosofia dos santos pais, a contemplação tem um significado ontológico, ético e gnoseológico. Significa a concentração da alma na oração, através da ação da graça, nos mistérios que superam nosso entendimento e estão abundantemente presentes não só na Santíssima Trindade, mas na pessoa do próprio homem e em toda a criação de Deus. Na contemplação, a pessoa do asceta da fé vive acima dos sentidos, acima das categorias de tempo e espaço. Ele tem uma consciência vívida dos laços que o vinculam ao mundo superior e é alimentado por revelações que contêm as coisas que "o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem" (I Cor.2: 9 ).

São Isaque se esforça para colocar em palavras a sua grande experiência, adquirida através da graça que o levou à contemplação. Na medida em que a linguagem humana permite a compreensão e a tradução das verdades da experiência religiosa, ele procura explicar o mais claramente possível o que é a contemplação. Segundo ele, a contemplação é o senso dos mistérios divinos escondidos nas coisas e nos eventos. A contemplação é encontrada nos melhores trabalhos da mente e em contínua reflexão sobre Deus. Sua morada é a oração incessante, e assim ilumina a parte espiritual da alma, o intelecto.

"Às vezes, a contemplação brota da oração, silenciando a oração dos lábios. Então o homem em oração se torna através da contemplação um corpo sem respiração, fora de si mesmo. Este estado é conhecido como a contemplação da oração." "Nesta contemplação orante existem vários graus e uma diversidade de dons", porque "a mente ainda não passou" para aquele reino onde não há mais oração (onde "a oração não existe"), pois naquele reino há algo maior do que a oração.

Com a ajuda de uma boa vida vivida na graça, o asceta da fé ascende à contemplação. "Para começar, ele se torna confiante na providência de Deus para com os homens e é iluminado pelo amor por seu Criador e se maravilha com o cuidado dele pelos seres racionais que Ele criou. Depois disso, surge nele a doçura de Deus e um amor ardente por Deus em seu coração, um amor que queima as paixões da alma e do corpo". Ele torna-se então "embriagado com o vinho do amor divino ... e seus pensamentos são atraídos para além de si mesmos e seu coração feito cativo por Deus." "Às vezes parece que ele não está no corpo nem mesmo neste mundo. Tal é o começo da contemplação espiritual em um homem - da contemplação e ao mesmo tempo de toda revelação para a mente. "A mente" cresce "com a ajuda da contemplação e se levanta às revelações" que estão além da natureza humana ". Parece-lhe às vezes que ele não está no corpo ou mesmo neste mundo. Tal é o começo da contemplação espiritual em um homem - de contemplação e ao mesmo tempo de toda revelação para a mente." A mente "cresce" com a ajuda da contemplação e se eleva às revelações "que estão além da natureza humana". Em resumo: na contemplação "são trazidos ao homem todas as contemplações divinas e revelações espirituais que os santos recebem neste mundo, e todos os dons e revelações que a própria natureza é capaz de conhecer neste mundo". 

A virtude do entendimento "torna a alma humilde e purifica-a de pensamentos nublados, para que não se perca entre as paixões, avançando para a contemplação". Essa contemplação aproxima a mente da sua natureza primitiva e é chamada de "contemplação imaterial". É uma "virtude espiritual", porque "eleva a alma acima da terra, aproximando-a da contemplação primitiva do Espírito, introduzindo a mente a Deus e a contemplação de Sua inefável glória ... mantendo a mente para além desse mundo e a percepção dele." A vida do Espírito é uma atividade na qual os sentidos não têm parte. Os santos pais escreveram sobre isso: "Assim que os intelectos dos santos alcançam essa vida, a contemplação material e a opacidade da carne recuam e a contemplação espiritual toma seu lugar". 

"As modalidades de oração" são múltiplas, diz São Isaque, mas todas têm um único objetivo: a oração pura. Nas profundezas desta oração pura, encontra-se "um arrebatamento que não é oração, pois tudo o que pode ser chamado de oração cessa, e permanece uma contemplação na qual a mente não consegue orar." "A oração é uma coisa, mas essa contemplação-em-oração é outra, embora uma surge da outra. A oração é a semeadura, e a contemplação a coleta, em que o colhedor fica espantado com a maravilhosa abundância que cresceram dos pequenos grãos que semeou." Neste estado de contemplação, o intelecto passa além de seus próprios limites e entra "naquele outro mundo".

Transformada pela oração e outras práticas ascéticas, a mente se purifica e aprende "a contemplar Deus com os olhos divinos e não humanos".

Aquele que guarda o coração das paixões contempla Deus a cada instante. Aquele que mantém uma vigilância constante sobre sua alma "a cada hora contempla o Senhor". "Aquele que vigia a própria alma a cada hora verá seu coração se alegrar com as revelações. Aquele que obtém a contemplação de seu intelecto dentro de si mesmo contemplará o alvorecer do Espírito. Aquele que se afasta da dispersão de sua mente contemplará o Senhor nos recessos internos do seu coração ... Eis que o céu está dentro de você, se você é puro, você verá os anjos em seu esplendor e, com eles e dentro deles, o próprio Senhor ... A alma do homem justo brilha mais do que o sol e se alegra a cada hora na contemplação das coisas reveladas."

Quando, após a ascese rigorosa do Evangelho, o homem encontra em si o centro divino de seu ser - e encontra também o centro da divindade transcendente neste mundo visível -, então, ele se eleva acima do tempo e contempla-se a partir de eternidade. Ele se vê acima do tempo e espaço, imortal e eterno.  Na sua raiz, o verdadeiro autoconhecimento também é verdadeiro conhecimento de Deus, pois o homem traz o caminho mais curto entre ele e Deus na imagem divina de sua própria alma. Aqui está a distância mais curta entre o homem e Deus. Todos os caminhos do homem para Deus podem encontrar um beco sem saída; somente este leva certamente a Deus em Cristo. Em sua filosofia, São Isaque dá grande ênfase ao autoconhecimento.

"Aquele que foi considerado digno de ver a si mesmo", diz ele, "é maior que aquele que foi considerado digno de ver anjos".

Para adquirir a capacidade de ver em sua própria alma, o homem deve primeiro abrir o coração para a graça. "Na medida em que as almas são impuras ou escurecidas, elas não podem ver nem a si mesmas nem a outras pessoas". A visão virá "se o homem purificar sua alma e trazê-la de volta ao seu estado original". "Quem desejar ver Deus dentro de si mesmo deve esforçar-se pela constante lembrança de Deus para purificar seu coração; e assim, com a luz dos olhos de sua mente, ele verá Deus a cada hora. Assim como é um peixe fora da água, assim é um intelecto que se desviou da lembrança de Deus ... Para o homem com uma mente pura, o reino do Espírito está dentro de si mesmo; o sol que brilha dentro dele é a luz da Santíssima Trindade e o ar respirado pelos habitantes deste reino é o Espírito Santo, o Consolador ... Sua vida, sua alegria e felicidade é Cristo, o resplendor da luz do Pai. Tal homem sempre se alegra com a contemplação de sua alma, maravilhando-se com a beleza que é mais brilhante do que mil sóis. Esta é Jerusalém, o Reino de Deus, escondido, como o Senhor diz, dentro de nós (Lucas 17:21). Este reino é a nuvem da glória de Deus, na qual somente o puro coração pode entrar para contemplar o rosto de seu Mestre e preencher seus intelectos com o brilho de Sua luz ... Um homem não pode ver a beleza que está dentro de si mesmo até que ele tenha rejeitado e desprezado toda a beleza que está fora dele ... Um homem que é saudável de alma, que é humilde e manso, tal homem, assim que ele se volta para a oração, vê a luz do Espírito Santo dentro de sua alma e se alegra em contemplar os raios de Sua luz, deliciando-se na contemplação de sua glória ".

Um homem pode entender a natureza de sua alma pela luz do Espírito Santo. "Por natureza, a alma está livre das paixões. Quando, na Sagrada Escritura, falam das paixões da alma e da carne, isso se refere às suas causas, pois a alma é por natureza sem paixão. Isso não é aceito pelos adeptos da filosofia profana" - ou, como diriamos hoje, os adeptos da filosofia materialista, realista e fenomenalista. Pelo contrário, Deus criou a alma à Sua imagem e, portanto, sem paixão.

Existem três estados de alma: natural, não natural e sobrenatural. "O estado natural da alma é o conhecimento da criação de Deus, tanto visível quanto espiritual. O estado sobrenatural da alma é a contemplação da Divindade super-essencial. O estado não natural da alma é o envolvimento nas paixões", pois as paixões não pertencem à sua natureza. A paixão é um estado não natural da alma, mas a virtude é seu estado natural. Quando a mente é alimentada pelas virtudes, especialmente a da compaixão, a alma é então "adornada com a beleza santa" através da qual o homem torna-se realmente semelhante à de Deus.

A "santa beleza" do ser do homem é revelada em um coração puro, e quanto mais o homem desenvolve esta santa beleza dentro de si mesmo, mais ele verá a beleza da criação de Deus.

Isso mostra que o autoconhecimento é a melhor maneira de chegar a um verdadeiro conhecimento da natureza e do mundo material em geral. "Aquele que se submete a Deus", diz São Isaque, "está próximo de ser capaz de submeter todas as coisas a si mesmo. Para quem conhece a si mesmo é dado conhecer todas as coisas, pois o conhecimento de si mesmo é a plenitude do conhecimento de todas as coisas." Se um homem se humilha diante de Deus, toda a criação se humilha diante dele. "A verdadeira humildade nasce do conhecimento, e o verdadeiro conhecimento é fruto da tentação" - isto é, vem pela batalha com as tentações.

A natureza humana é capaz da verdadeira contemplação quando é purificada das paixões pelo exercício das virtudes. A verdadeira contemplação do mundo material e imaterial, e da própria Santíssima Trindade, é o dom de Cristo. Ele revelou essa contemplação aos homens e instruiu-os nela "quando Ele, em Sua própria Pessoa Divina, completou a renovação da natureza humana e, através de Seus mandamentos vivificantes, abriu um caminho para a verdade. A natureza humana só se torna capaz de uma verdadeira contemplação quando o homem primeiro expõe o velho Adão ao suportar as paixões, cumprindo os mandamentos e sofrendo o infortúnio ... Nessas circunstâncias, o intelecto se torna capaz de nascimento espiritual e de contemplação do mundo espiritual, sua verdadeira pátria ... A contemplação do novo mundo revelado pelo Espírito, no qual o intelecto tem deleite espiritual, ocorre sob a ação da graça ... Essa contemplação torna-se um alimento que nutre o intelecto, preparando-o para receber uma contemplação ainda mais perfeita. Pois uma contemplação conduz a outra, até que o intelecto seja trazido para o reino do amor perfeito. O próprio amor é a morada, o "lugar" do homem espiritual; ele habita na pureza da alma. Quando o intelecto alcança o reino do amor, a graça trabalha nele e o intelecto recebe contemplação espiritual e torna-se um espectador de coisas ocultas".

A contemplação mística "é revelada ao intelecto quando a alma foi curada". Aqueles que purificaram suas almas pela prática das virtudes tornam-se dignos da contemplação espiritual. "A pureza vê Deus". Os que se purificaram do pecado e que refletem de forma incessante sobre Deus O contemplam. "O reino dos céus é chamado de contemplação espiritual, pois é isso o que é", diz São Isaque. "Não é encontrado através da atividade do pensamento, mas pode ser provado pela graça. Até que um homem se purifique, ele não tem condições de ouvir o Reino, pois ninguém pode adquiri-lo através de ensinamentos", somente pela pureza de coração. Deus dá pensamentos puros aos que vivem vidas puras." Pureza de pensamento brota da luta e da guarda do coração, e da pureza do pensamento vem a iluminação do entendimento. A partir daí, a graça conduz o intelecto ao reino onde os sentidos não têm poder, onde eles não instruem nem são instruídos".

Por meio da vigilância na oração, "a mente toma asas e ascende", "para as delícias de Deus". "Ela nada em um conhecimento que supera o pensamento humano." "A alma que se esforça para se perseverar nesta vigilância recebe os olhos dos querubins com o qual habita em contemplação constante e celestial". A alma do homem vê a verdade de Deus através do poder de seu modo de vida, isto é, através da vida de fé. "Se a sua contemplação é verdadeira, ele encontrará a luz e o que ele contempla estará no reino da verdade". "A visão de Deus vem do conhecimento de Deus e não pode preceder esse conhecimento" .

O objetivo de um cristão é a vida na contemplação da Santíssima Trindade. De acordo com São Isaque, o amor é "a contemplação primordial da Santíssima Trindade". "O primeiro dos mistérios é chamado de pureza, e é alcançado através da realização dos mandamentos. Mas a contemplação é a contemplação espiritual do intelecto." Ela vem da "mente entrando em êxtase e compreendendo tanto o que era como o que será. A contemplação é a visão do intelecto. Nela, o coração é corrigido, renovado e purificado do mal, familiarizando-se com os mistérios do Espírito e as revelações do conhecimento, elevando-se de conhecimento em conhecimento, da contemplação à contemplação, e do entendimento ao entendimento, aprendendo e crescendo secretamente até que é tomado pelo amor, incorporado na esperança, até que a alegria habite em suas partes mais internas, até que seja levada a Deus e coroada com a glória natural de seu próprio ser criado." Assim, a mente "é purificada e dotada de misericórdia, sendo realmente considerada digno de contemplar a Santíssima Trindade". Pois há três tipos de contemplação natural em que a mente "é edificada, ativa e engajada": "duas são do mundo criado - do racional e do não-racional, espiritual e corporal; e a terceira é a contemplação da Santíssima Trindade ".

Se o asceta da fé, enriquecido pelas riquezas indescritíveis da contemplação, se volta para a criação, todo o seu ser é cheio de amor e compaixão. "Ele ama o pecador", diz São Isaque, "ao passo que odeia suas obras". Ele é entrelaçado com humildade e misericórdia, com arrependimento e amor. Ele tem um coração cheio de amor para toda criatura. "O que é um coração misericordioso?" "É", responde São Isaque, "um coração ardente de amor em relação a toda a criação: para homens, pássaros, animais, demônios e toda criatura. Seus olhos transbordam de lágrimas ao pensar e vê-los. Da grande e poderosa tristeza que aperta seu coração e da sua grande paciência, seu coração se contrai, e ele não pode suportar ouvir ou ver o menor mal causado ou infortúnio sofrido pela criação. Portanto, ele também ora com lágrimas incessantemente pelas bestas irracionais, pelos adversários da verdade e por aqueles que o fazem mal, para que sejam preservados e recebam misericórdia. Ele também ora pelos répteis com grande tristeza, uma tristeza sem medida em seu coração e que o assemelha a Deus".

Quando, por um ascetismo evangélico, alguém se move do temporal para o eterno, quando vive em Deus e pensa nEle, quando fala "como de Deus" (II Cor. 2:17), quando ele olha para o mundo sub specie Christi, então o mundo é mostrado a ele em sua beleza primordial. Com o olhar de um coração purificado, ele penetra na crosta do pecado e vê o núcleo divinamente criado da criação. A contemplação da Santíssima Trindade, essencialmente misteriosa e incognoscível, é manifestada pelo asceta da fé neste mundo de realidades transitórias e limitadas através do amor e da misericórdia, através da mansidão e humildade, através da oração e do trabalho para todos, através da alegria com aqueles que se alegram e choro com aqueles que choram, sofrendo com os que sofrem e se arrependendo com o penitente. Sua vida neste mundo reflete sua vida no outro mundo de valores misteriosos e invisíveis. Seus pensamentos e atos neste mundo têm suas raízes no outro mundo, e é do outro mundo que eles extraem sua miraculosa e vivificante força e poder. Se alguém rastreasse algum de seus pensamentos, sentimentos, atos ou práticas ascéticas, seria levado para a Santíssima Trindade como a principal fonte de todos. Todas as coisas vêm dele do Pai através do Filho no Espírito Santo. Temos o mais belo exemplo disso no próprio São Isaque, o grande asceta da Santíssima Trindade que, com São Simeão, o Novo Teólogo, conseguiu, com a ajuda da graça e da experiência ascética, dar-nos a justificativa mais convincente da verdade da divindade trinitária e da imagem trinitária divina  do ser pessoal do homem.

Conclusão

A teoria do conhecimento de São Isaque é dominada pela convicção de que o problema do conhecimento é fundamentalmente um problema religioso e ético. Desde o seu início até a sua plenitude infinita na graça, o conhecimento depende do conteúdo ético e da qualidade religiosa da pessoa e, sobretudo, da cultura religiosa e ética e do desenvolvimento dos órgãos do conhecimento do homem. Uma coisa é certa: esse conhecimento, em todos os níveis, depende do estado religioso e moral do homem. Quanto mais um homem é perfeito do ponto de vista religioso e moral, mais perfeito é o seu conhecimento. O homem foi feito de tal maneira que o conhecimento e a moral estão sempre equilibrados dentro dele.

Não há dúvida de que o conhecimento progride através das virtudes do homem e regride através das paixões. O conhecimento é como um tecido tecido pelas virtudes sobre o tear da alma humana. O tear da alma se estende através de todos os mundos visíveis e invisíveis. As virtudes não são apenas poderes criando conhecimento; elas são os princípios e a fonte do conhecimento. Ao transformar as virtudes em elementos constituintes de seu ser através de um esforço ascético, o homem avança de conhecimento em conhecimento. Poderia até mesmo ser possível dizer que as virtudes são os órgãos sensoriais do conhecimento. Avançando de uma virtude para outra, o homem se move de uma forma de compreensão para outra.

Da primeira virtude, a fé, até a última, que é o amor por todos, existe um caminho ininterrupto: o ascetismo. Neste longo caminho, homem se forma, transforma e se transfigura através da graça de seus esforços ascéticos. Desta forma ele cura seu ser das enfermidades do pecado e da ignorância, restaurando a integridade de sua pessoa, unificando e curando seu espírito.

Curado e feito íntegro pelo poder religioso e moral das virtudes, o homem expressa a pureza e a integridade de sua pessoa particularmente através da pureza e integridade de seu conhecimento. De acordo com o entendimento ortodoxo evangélico encontrado em São Isaque, o conhecimento é uma ação, uma ascese, de toda a pessoa humana e não de uma parte de seu ser - seja ele o intelecto, o entendimento, a vontade, o corpo ou os sentidos. Em todo ato de conhecimento, em todo pensamento, sentimento e desejo, todo o homem está envolvido com todo o seu ser.

Curado pela graça do esforço ascético, os órgãos do conhecimento produzem conhecimento puro e saudável, a "sã (literalmente saudável) doutrina" do Apóstolo (I Tim. 1:10; II Tim. 4: 3; Tito 1: 9 ; 2: 1). Em todos os estágios de seu desenvolvimento, esse conhecimento é "cheio de graça", pois é um produto do trabalho conjunto da ascese voluntária do homem e do poder cheio de graça de Deus. Todo o homem compartilha nele com o todo de Deus. Por esta razão, São Isaque fala continuamente da lembrança, a "reunião" da alma, da mente e dos pensamentos, uma lembrança que é alcançada pela prática das virtudes evangélicas.

Mas essas virtudes diferem das de outras éticas religiosas e filosóficas, não apenas em seu conteúdo, mas também em seu método. As virtudes evangélicas têm um conteúdo específico que liga Deus e homem, e seu próprio método específico de trabalho. Em sua pessoa divino-humana, ou "teantrópica" incomparavelmente perfeita, o Deus-homem, Jesus Cristo, mostrou e provou que esse método, esse modo de vida divino-humano, é o único meio natural e normal de vida e de conhecimento. O homem que toma esse caminho de fé para si, também encontra nele um caminho de conhecimento.  O que é válido para a fé é válido também para as outras virtudes divinas: amor, esperança, oração, jejum, mansidão, humildade, e assim por diante; pois cada uma dessas virtudes se torna, no homem que vive em Cristo, uma força viva e criativa de vida e conhecimento.

Neste modo de vida e conhecimento teantrópico, não há nada que seja irreal, abstrato ou hipotético. Aqui tudo é real com uma realidade irresistível, pois tudo é baseado na experiência. Na pessoa de Cristo, o Deus-homem, transcendente, a realidade divina é mostrada e definida de forma totalmente empírica. Por Sua encarnação Cristo deu à carne humana a realidade mais sutil, a mais transcendente, a mais perfeita. Esta realidade não tem limites, pois a pessoa de Cristo é ilimitada. Segue-se que a personalidade humana não tem limites, nem o conhecimento dos homens, pois é dito e comandado: " Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus" (Mateus 5:48). Isso significa que os únicos limites da personalidade e do conhecimento humano são os limites ilimitados de Deus.

A pessoa de Cristo, o Deus-homem, apresenta em si a perfeita e ideal realidade do monismo teantrópico: uma passagem natural de Deus ao homem, do sobrenatural ao natural, da vida imortal à vida humana. Tal passagem também é natural para o conhecimento quando, pela ponte da fé, da esperança e do amor, passa do homem para Deus, do natural ao sobrenatural, do mortal ao imortal e do temporal ao eterno, revelando assim a unidade orgânica desta vida e da vida futura, deste mundo e do outro, do natural e do sobrenatural.

Este conhecimento é um conhecimento integral, pois ele eleva-se nas asas das virtudes divinas e humanas e passa sem obstáculos através das barreiras do tempo e do espaço, entrando no eterno. É desse conhecimento integral que São Isaque está pensando quando, ao definir o conhecimento, ele diz que é "a percepção da vida eterna", e quando, definindo a verdade, ele a chama de "percepção de Deus". Aquilo que é verdadeiro para as virtudes é verdadeiro também para o conhecimento. Como cada virtude engendra outras virtudes e gera conhecimento, então cada tipo de conhecimento engendra outro. Uma virtude produz outra e sustenta-a, e o mesmo vale para o conhecimento.

Quanto mais o homem se exercita nas virtudes, maior se torna seu conhecimento de Deus. Quanto mais conhece Deus, maior é o seu ascetismo. Este é um caminho empírico e pragmático. "Se alguém quiser fazer a vontade dele, pela mesma doutrina conhecerá se ela é de Deus" (João 7:17). Em outras palavras: é vivendo a verdade de Cristo que se conhece a sua veracidade e singularidade. Este é realmente um caminho empírico, experimental e pragmático. O conhecimento da verdade não é dado aos curiosos, mas aos que seguem o caminho ascético. O conhecimento é um fruto na árvore das virtudes, que é a árvore da vida. O conhecimento vem do ascetismo. Para o verdadeiro cristão, a filosofia ortodoxa é de fato a ascese teantrópica do intelecto e da pessoa inteira. Aqui, as fortes palavras do Salvador são especialmente significativas: "A quem tiver, mais lhe será dado; de quem não tiver, até o que pensa que tem lhe será tirado" (Lucas 8:18).

Observado à luz da teoria do conhecimento de São Isaque, o realismo ingênuo é trágico e letalmente simplista. Não pode dar um conhecimento real do mundo, pois faz uso de órgãos do conhecimento doentios e corruptos. Em contraste, o realismo teantrópico dá um conhecimento real do mundo e da verdade que nele existe, pois usa órgãos de conhecimento que foram purificados, curados e renovados e podem ver o coração de tudo o que é criado.

O racionalismo considera que o entendimento é um órgão infalível do conhecimento. Portanto, em relação a toda a pessoa humana, ele aparece como um apóstata anárquico. É como um ramo que se cortou da videira, que não pode ter vida plena ou realidade criativa por conta própria. Ele não está em condições para conhecer a verdade, pois em seu isolamento egocêntrico ele está dividido, espalhado e cheio de lacunas. A verdade, ao contrário, é dada a um intelecto purificado, iluminado, transfigurado e deificado pela ação das virtudes.

O criticismo filosófico é quase que exclusivamente ocupado com o estudo dos órgãos do conhecimento em seu estado psíquico e físico, tal como se encontra no domínio meramente humano. A isso acrescenta o estudo das categorias e condições que são as premissas do conhecimento. Mas não dá atenção à necessidade de cura e purificação dos órgãos do conhecimento. Portanto, a crítica filosófica não pode, por si só, ter conhecimento da verdade, pois não passa de um racionalismo e sensualismo cautelosos.

O idealismo filosófico baseia-se em realidades e critérios transcendentais, mas não está em condições de provar a existência deles. Fundado em idéias transcendentais, é, no entanto, incapaz de alcançar o conhecimento da verdade tão necessário para a natureza humana ou para atenuar, mesmo em parte, a sede de verdade eterna e de realidades duradouras.

Tudo o que esses vários sistemas epistemológicos são incapazes de dar ao homem é dado pela filosofia ortodoxa com sua teoria ascética cheia de graça do conhecimento. Aqui, a própria Verdade eterna está diante do conhecimento humano na plenitude da Sua perfeição infinita, entregando a Si mesmo ao homem iluminado e dotado de graça. Pois é na pessoa de Cristo o Deus-homem que a verdade divina e transcendental vem ao homem. Nele, a verdade torna-se objetivamente imanente e apresenta uma realidade histórica imediata e eternamente vital. Para tornar este conhecimento seu, para torná-lo uma imanência subjetiva, é essencial que o homem, pela prática das virtudes, faça do Senhor Jesus Cristo a alma de sua alma, o coração de seu coração e a vida de sua vida.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A Teoria do Conhecimento de São Isaque, o Sírio (São Justino Popovich) [Parte 1/2]

Introdução

Na filosofia europeia, o homem sempre aparece, em maior ou menor grau, fragmentado. Em nenhum lugar ele é visto em sua totalidade, em sua plenitude e integridade; está sempre dividido ou em fragmentos. Não há qualquer sistema filosófico no qual o homem não esteja dividido em partes; nenhum pensador jamais foi capaz de levar em conta sua totalidade. Por um lado, o realismo ingênuo reduz o homem aos sentidos, e então, dos sentidos para as coisas, para matéria, de modo que o homem não mais pertence a si mesmo, disperso entre as coisas. Por outro lado, o racionalismo separa o homem de sua compreensão, considera-se a razão  a principal fonte da verdade e o critério supremo de tudo o que é, atribuindo-lhe todo o mérito, tornando-a um absoluto e transformando-a em um ídolo, enquanto, ao mesmo tempo, subestima-se e despreza-se todas as outras faculdades psíquicas e físicas do homem. O pensamento crítico, por sua vez, não é mais do que uma apologia ao racionalismo e ao sensualismo que, em última análise, reduz o intelecto - e com isso o homem em sua integridade - ao nível dos sentidos. Quanto ao panteísmo, como todos os sistemas monistas, consideram o mundo e o homem como uma totalidade de opostos contraditórios que nunca poderão constituir uma única unidade lógica. Todos esses sistemas filosóficos têm o mesmo resultado: uma compreensão superficial e fenomenalista do homem e do mundo.

Na filosofia fenomenalista - filosofia que sempre é relativista - o homem permanece privado de um eixo, de um centro. Onde o mundo se fundamenta? E o homem? Qual é o fundamento do intelecto e do conhecimento? O homem tenta explicar-se em termos das coisas, mas não consegue; explicando-se em termos das coisas, o próprio homem, por fim, é reduzido a uma coisa, a matéria. Por mais que se esforce, o homem da filosofia fenomenalista não está em posição de atestar a realidade objetiva das coisas. Ainda menos é capaz de mostrar que as coisas possuem verdade. Ao tentar explicar o homem pelo homem, a filosofia alcança um resultado bizarro: apresenta uma imagem espelhada de uma imagem espelhada. Em última análise, essa filosofia, seja qual for o seu caminho, é centrada na matéria e no homem. E uma coisa resulta de tudo isso: a impossibilidade de qualquer conhecimento verdadeiro do homem ou do mundo.

Este resultado compele o espírito filosófico do homem a fazer conjecturas que transcendem o homem e a matéria. Através do idealismo, ele dá um salto para o sobrenatural. Mas esse salto, por sua vez, lhe conduz ao ceticismo, pois o idealismo filosófico considera o homem como uma realidade metafísica, que não pode ser nem descrita nem comprovada.

O homem, conforme compreendido na filosofia relativista, está sujeito a um destino trágico: demonstra-se que a verdade transcende tanto o homem quanto a matéria. Há um abismo intransponível entre o homem e a verdade. O homem está de um lado do abismo e não consegue chegar ao outro lado, onde a Verdade transcendente pode ser encontrada. Mas o poder da Verdade, do outro lado, responde à impotência do homem em seu lado. A Verdade transcendente atravessa o abismo, chega ao nosso lado e revela a Si mesma - na pessoa de Cristo, o Deus-homem. Nele a Verdade transcendente torna-se imanente no homem. Ele prova a Verdade revelando a Si mesmo. Ele a revela, não pelo pensamento ou razão, mas pela vida que é Sua. Ele não só possui a verdade, Ele mesmo é a Verdade. Nele, Ser e Verdade são um. Portanto, Ele, em Sua pessoa, não só define a Verdade, mas mostra o caminho para ela: aquele que permanece Nele conhecerá a Verdade, e a Verdade o libertará (cf. João 8:32) do pecado, da mentira e da morte .

Na pessoa do Deus-homem, Deus e o homem estão indissoluvelmente unidos. A razão do homem não é rejeitada, mas é renovada, purificada e santificada. É aprofundada e divinizada, tornando-se capaz de compreender as verdades da vida à luz do Deus-feito-homem. No Deus-homem, a Verdade absoluta foi, em sua totalidade, transmitida de forma real e pessoal. É por isso que Ele, sozinho, entre os que nasceram na terra, possui o conhecimento integral da Verdade e pode transmiti-lo. O homem que anseia conhecer a Verdade precisa apenas de uma coisa: tornar-se um com o Deus-homem, tornar-se uma só carne com Ele, tornar-se membro do Seu Corpo divino e humano, a Igreja (cf. Ef. 5:30, 3:6). Tornando-se tal, o homem adquire "a mente de Cristo" (I Cor. 2:16), pensando, vivendo, sentindo em Cristo, e assim alcançando o conhecimento integral da Verdade. Para o homem em Cristo, as antinomias da razão não irreconciliáveis; são simplesmente rupturas causadas pela revolta do pecado original no homem. Unindo-se a Cristo, o homem sente em si mesmo a reunião das partes fragmentadas, à medida que a mente se cura, torna-se inteiro, completo e, portanto, se qualifica para o conhecimento integral.

A verdade é objetivamente transmitida na pessoa de Cristo, o Deus-homem. Mas a maneira pela qual isso se torna subjetivo - isto é, o lado prático da teoria cristã do conhecimento - foi plenamente desenvolvida pelos Pais, filósofos experientes, santos e evangélicos. Entre os mais notáveis desses santos filósofos se encontra o grande asceta, São Isaque, o Sírio. Em seus escritos, com uma rara compreensão baseada na experiência, ele traça o processo de cura e purificação dos órgãos do conhecimento do homem, seu desenvolvimento na compreensão e seu caminho progressivo através da experiência para a aquisição da Verdade eterna. Na filosofia de São Isaque, o Sírio, baseada na experiência da graça, os princípios e a metodologia da teoria Ortodoxa do conhecimento encontra uma das suas expressões mais perfeitas. Agora tentarei esboçar essa teoria do conhecimento, ou gnosiologia.

São Isaque, o Sírio

A Doença dos Órgãos do Conhecimento 

O caráter do conhecimento é condicionado pela disposição, natureza e estado de seus órgãos do conhecimento. Em todos os níveis, o conhecimento depende intrinsecamente dos meios de compreensão. O homem não cria a verdade; o ato de compreender é um ato de tornar própria uma verdade que já é objetivamente dada. Essa integração tem um caráter orgânico: é semelhante a um enxerto feito numa videira (cf. João 15: 1-6). A compreensão é, portanto, um fruto na árvore da pessoa humana. Assim como é a árvore, assim são seus frutos; assim como são os órgãos do conhecimento, assim é o conhecimento que engendram.

Analisando o homem através de seus dons empíricos, São Isaque, o Sírio, descobre que seus órgãos do conhecimento estão doentes. O mal é uma doença que afeta a alma e, portanto, todos os órgãos do conhecimento. O mal tem seus próprios sentidos - as paixões - e essas são "as doenças da alma". O mal e as paixões não pertencem à natureza da alma; são acidentes, adições não naturais à alma.

O que são as paixões em si mesmas? Elas são "uma certa rigidez ou insensibilidade do ser". Suas causas são encontradas nas coisas da própria vida. As paixões são o desejo de riqueza e acumulação de bens, de bem-estar e conforto corporal; são sedentas pela honra e exercício de poder; são luxo e frivolidade; são o desejo de glória dos homens e o medo do próprio corpo. Todas essas paixões têm um nome comum - "o mundo". "O mundo significa conduta e mente carnal". As paixões são os ataques do mundo contra o homem por meio das coisas do mundo. A graça divina é o único poder capaz de afastá-las. Quando as paixões fazem seu lar no homem, elas desenraízam sua alma. Elas confundem a mente, enchendo-a de formas fantásticas, imagens e desejos, a fim de que os pensamentos sejam confusos, cheios de fantasia. "O mundo é uma prostituta", que, por meio de seus desejos destruidores, seduz a alma, enfraquece suas virtudes e destrói sua castidade dada por Deus. Assim, a alma, tornando-se impura e uma prostituta, dá à luz ao conhecimento impuro.

Uma alma debilitada, um intelecto enfermo, um coração e uma vontade enfraquecida - em suma, órgãos  do conhecimento doentes - só podem gerar, moldar e produzir pensamentos, sentimentos, desejos e conhecimento doentes.

A Cura dos Órgãos do Conhecimento

São Isaque dá um diagnóstico preciso da doença da alma e dos seus órgãos do conhecimento, e claramente conhece o remédio, oferecendo-o categoricamente e com convicção. Uma vez que as paixões são uma doença da alma, a alma só pode ser curada pela purificação das paixões e do mal. As virtudes são a saúde da alma, assim como as paixões são a sua doença. As virtudes são os remédios que progressivamente eliminam a doença da alma e dos órgãos do conhecimento. Este é um processo lento que exige muito esforço e grande paciência.

A alma torna-se desregrada pelas paixões, mas pode recuperar sua saúde se fizer uso das virtudes como o caminho para a sobriedade. As virtudes, no entanto, estão inteiramente entrelaçadas com tristezas e aflições. São Isaque diz que toda virtude é uma cruz, e até mesmo que as dores e aflições são a fonte das virtudes. Ele, portanto, defende expressamente o amor à opressão e à tristeza, para que, através disso, o homem possa ser libertado das coisas deste mundo e ter uma mente desapegada da confusão do mundo. Pois o homem deve primeiramente libertar-se do mundo material para nascer de Deus. Tal é a economia da graça e, portanto, a economia do conhecimento. 

Se o homem resolve tratar e curar sua alma, primeiro ele deve se submeter a um exame cuidadoso de todo o seu ser. Ele deve aprender a distinguir o bem do mal, as coisas de Deus daquelas do diabo, pois "o discernimento é a maior das virtudes".  A aquisição das virtudes é um processo progressivo e orgânico: uma virtude segue outra.  Uma depende da outra; uma nasce da outra: "Toda virtude é a mãe da próxima".  Entre as virtudes, não há apenas uma ordem ontológica, mas também cronológica. A primeira delas é a fé.


É pela ascese da fé que o tratamento e a cura da alma enferma pelas paixões é iniciado. Uma vez que a fé começa a viver no homem, as paixões começam a ser desenraizadas da alma. Mas "até que a alma se torne intoxicada com fé em Deus, até que sinta o poder da fé", ela não pode ser curada das paixões nem superar o mundo material. O lado negativo da fé consiste na libertação da matéria pecaminosa e o lado positivo,  a união com Deus.

A alma, que estava dispersa pelos sentidos entre as coisas deste mundo, é recolhida em si mesma pela ascese da fé, pelo jejum das coisas materiais e pela dedicação constante a lembrança de Deus. Este é o fundamento de todas as coisas boas. Libertação da escravização à matéria pecaminosa é essencial para o avanço na vida espiritual. O início deste novo modo de vida constitui-se na concentração dos pensamentos em Deus, em uma reflexão incessante sobre o palavras de Deus e em uma vida de pobreza.

Através da fé, a mente, que antes estava dispersa entre as paixões, é concentrada, liberta da sensualidade e dotada de paz e humildade de pensamento. Vivendo pelos sentidos em um mundo sensível, a mente está doente. Com a ajuda da fé, no entanto, a mente é liberta da prisão deste mundo, onde esteve sufocada pelo pecado, e entra na nova era, onde respira um novo ar maravilhoso. "O sono da mente" é perigoso como a morte e, portanto, é essencial despertar a mente pela fé através da realização das obras espirituais, pelas quais o homem se superará e expulsará as paixões. "Afaste-se de si mesmo, e o inimigo será expulso de seu lado."

Na ascese da fé, o homem é convidado a agir de acordo com uma antinomia que ultrapassa o entendimento: "Esteja morto para sua vida e você viverá após a morte". Pela fé, a mente é curada e adquire sabedoria. A alma torna-se sábia quando pára de "se envolver descaradamente com pensamentos promíscuos". "O amor pelo corpo é um sinal de incredulidade". A fé liberta o intelecto das categorias dos sentidos e o torna sóbrio através do jejum, pela reflexão em Deus e pelas vigílias.

A intemperança e o estômago cheio obscurecem a mente, distraí-a e a dispersa entre fantasias e paixões. O conhecimento de Deus não pode ser encontrado em um corpo que ama o prazer. É da semente do jejum que a grama de um conhecimento saudável cresce - e é da saciedade que a devassidão provém e a impureza do excesso.

Os pensamentos e desejos da carne são como uma chama inquieta no homem, e o caminho para a cura é mergulhar o intelecto no oceano dos mistérios da Sagrada Escritura. A menos que seja liberta das possessões terrenas, a alma não pode ser liberta de pensamentos inquietantes, nem sentir a paz de espírito sem antes morrer para os sentidos. As paixões escurecem os pensamentos e cegam a mente. Os pensamentos agitados e caóticos surgem de um abuso do estômago.

O pudor e o temor de Deus estabilizam o tumulto da mente; a ausência dessa vergonha e temor perturba o equilíbrio do conhecimento, tornando-o inconstante e instável. A mente encontra-se numa base firme somente se mantiver os mandamentos do Senhor, tornando-se pronta para suportar sofrimento e aflição. Se for escravizada pelas coisas da vida, torna-se escurecida. Recolhendo-se pela fé, o homem desperta seu intelecto em relação a Deus e, pelo silêncio orante, purifica  sua mente e vence as paixões. A alma é restaurada à saúde pelo silêncio. Portanto, é necessário treinar-se no silêncio - e este é um labor que traz doçura ao coração. É através do silêncio que o homem alcança a paz de pensamentos indesejados.

A fé traz a paz ao intelecto e, ao trazê-la, elimina os pensamentos rebeldes. O pecado é a fonte de inquietação e conflito nos pensamentos, e também é a fonte da luta do homem contra o céu e contra outros homens. "Esteja em paz consigo mesmo, e você trará paz para o céu e para a terra".  Até que a fé apareça, o intelecto estará disperso entre as coisas deste mundo; é pela fé que esta fragmentação do intelecto é superada. A errância dos pensamentos é provocado pelo demônio da prostituição, assim como a errância dos olhos é causado pelo espírito da impureza.

Pela fé, o intelecto é estabelecido no pensamento de Deus. O caminho da salvação é o da constante lembrança de Deus. O intelecto separado da lembrança de Deus é como um peixe fora da água. A liberdade do homem verdadeiro consiste na sua liberdade das paixões, na sua ressurreição com Cristo e na alegria da alma.

As paixões só podem ser vencidas pela prática das virtudes, e toda paixão deve ser combatida até a morte. A fé é a primeira e principal arma na luta contra as paixões, pois a fé é a luz da mente que afasta a escuridão das paixões e a força do intelecto que expulsa a doença da alma.

A fé contém dentro de si não só seu próprio princípio e substância, mas o princípio e a substância de todas as outras virtudes - desenvolvendo como fazem uma a partir da outra, organicamente, como os anéis do tronco de uma árvore. Se pode se dizer que a fé tem uma linguagem, essa linguagem é a oração.

Oração

É pela ascese da fé que o homem supera o egoísmo, ultrapassa os limites de si mesmo e entra em uma nova realidade transubjetiva e transcendente. Nesta nova realidade, novas leis governam; as coisas velhas passam e tudo se faz novo. Submerso nas profundezas desconhecidas desta nova realidade, o asceta da fé é conduzido e guiado pela oração; ele sente, pensa e vive pela oração.

Traçando esse caminho da fé no intelecto do homem, São Isaque observa que o intelecto é guardado e guiado pela oração, todo bom pensamento é transformado pela oração em uma reflexão sobre Deus. Mas a oração também é uma luta difícil, ela põe em movimento toda personalidade do homem. O homem crucifica-se na oração, 69 crucificando as paixões e pensamentos pecaminosos que se apegam à sua alma. "A oração é a destruição dos pensamentos carnais da vida carnal do homem".

A perseverança na oração é para o homem uma ascese muito difícil, a negação de si mesmo. Isso é fundamental para a obra da salvação. A oração é a fonte da salvação, e é pela oração que todas as outras virtudes - e todas as coisas boas - são adquiridas. É por isso que o homem de oração é atacado por tentações monstruosas, das quais se defende por meio da oração.

O mais seguro guardião do intelecto é a oração. Ela afasta as névoas das paixões e ilumina o intelecto trazendo sabedoria para a mente. A permanência contínua na oração é o sinal da perfeição. 

A oração espiritual se transforma em êxtase, no qual são revelados os mistérios da Santíssima Trindade, e o intelecto entra na esfera do não-saber sagrado que é mais elevado que o conhecimento.

Começando pela fé, a cura dos órgãos do conhecimento continua por meio da oração. Os limites da personalidade humana se expandem cada vez mais, e o egocentrismo gradualmente dá lugar ao teocentrismo.


Amor


"O amor nasce da oração" 78, assim como a oração nasce da fé. As virtudes provém de uma só substância e, portanto, nascem uma da outra. O amor a Deus é um sinal de que a nova realidade, na qual o homem é levado pela fé e oração, é muito maior do que a realidade anterior. O amor a Deus e pelo homem é obra da oração e da fé; verdadeiramente, o verdadeiro amor pelo homem é impossível sem a fé e oração.

Pela fé, o homem transforma o mundo: ele se move do mundo limitado para o ilimitado, onde ele não mais vive pelas leis dos sentidos, mas pelas leis da oração e do amor. São Isaque dá grande ênfase à convicção de que ele alcançou por meio de sua experiência ascética: o amor a Deus vem da oração:

"O amor é fruto da oração". É possível que se receba o amor de Deus através da oração, mas não é possível, de modo algum, adquiri-lo sem a luta da oração. Uma vez que o homem alcança o conhecimento de Deus através da fé e da oração, torna-se estritamente verdade que "o amor nasce do conhecimento".

Através da fé, o homem renuncia à lei do egoísmo; renuncia à sua alma pecaminosa. Embora ame sua alma, ele abomina o pecado que está nela. Através da oração, ele se esforça para substituir a lei do egoísmo pela lei de Deus, para substituir as paixões pelas virtudes, para substituir a vida humana pela vida divina e assim curar a alma do pecado. É por isso que São Isaque ensina que "o amor de Deus encontra-se no auto-controle da alma".

A impureza e a doença da alma são adições não naturais à alma; não fazem parte de sua natureza criada, pois "a pureza e a saúde são o reino da alma".Uma alma debilitada pelas paixões é um terreno apropriado para o cultivo do ódio e "o amor só é adquirido pela cura da alma."

O amor é de Deus, "porque Deus é amor" (I João 4: 8). "Aquele que adquire o amor, veste-se do próprio Deus". Deus não tem limites, e o amor é, portanto, infinito e ilimitado, de modo que "aquele que ama a Deus e em Deus ama todas as coisas igualmente, sem distinções", São Isaque diz sobre o homem que alcançou a perfeição. Como exemplo do amor perfeito, São Isaque cita o desejo do santo Abba Agathon de "encontrar um leproso e trocar de corpo com ele".

No reino do amor, as antinomias da razão desaparecem. O homem que se esforça no amor goza de uma antecipação da harmonia do Paraíso em si mesmo e no mundo de Deus ao seu redor, pois ele saiu de seu inferno egoísta e solipsista e entrou no paraíso dos valores divinos e da perfeição. Nas palavras de São Isaque: "O paraíso é o amor de Deus, onde está a doçura de todas as bênçãos". O inferno é a ausência do amor de Deus e "aqueles torturados no inferno são torturados pelo flagelo do amor". Quando um homem adquire perfeitamente o amor de Deus, ele adquire a perfeição. Portanto, São Isaque recomenda: "É necessário primeiro adquirir amor, que é a forma original da contemplação do homem da Santíssima Trindade".

Libertando-se das paixões, o homem se desprende gradualmente da auto-absorção que caracteriza o humanismo. Ele abandona a esfera do antropocentrismo perverso e entra na esfera da Santíssima Trindade. Aqui ele recebe a paz divina em sua alma, onde as oposições e as contradições que surgem das categorias de tempo e espaço perdem seu poder de morte e onde ele pode perceber claramente sua vitória sobre o pecado e a morte.

Humildade 

A fé tem sua própria maneira de pensar, porque tem seu próprio modo de vida. O cristão não apenas vive pela fé (II Cor. 5: 7), mas também pensa pela fé. A fé apresenta uma nova categoria de pensamento, através da qual toda a atividade gnoseológica do homem que crê é revelada. Essa nova categoria de pensamento é a humildade. Dentro da infinita realidade da fé, o intelecto humilha-se diante dos inefáveis mistérios da nova vida no Espírito Santo. O orgulho do intelecto dá lugar à humildade, e a modéstia substitui a presunção. O asceta da fé, protege todos os seus pensamentos por meio da humildade, assegurando assim o conhecimento da Verdade eterna.

Extraindo sua força da oração, a humildade continua crescendo e avançando sem fim.  São Isaque ensina que a oração e a humildade estão sempre equilibradas, e que o progresso na oração significa também progresso na humildade e vice-versa. A humildade é uma força que complementa o coração e impede que ele se dissipe em pensamentos orgulhosos e desejos libidinosos. A humildade é sustentada e protegida pelo Espírito Santo, e não só atrai o homem para Deus, mas também Deus para o homem. Além disso, a humildade foi a causa da encarnação do Filho de Deus, a união mais íntima de Deus com o homem: "A humildade fez de Deus um homem na terra".  A humildade é "o adorno da divindade, pois o Verbo encarnado falou conosco através do corpo humano com o qual ele mesmo assumiu."

A humildade é um poder misterioso e divino que é dado apenas aos santos, aos que são aperfeiçoados nas virtudes, e é dado pela graça. "Contém todas as coisas dentro de si". Pela graça do Espírito Santo "os mistérios são revelados aos humildes" e são aperfeiçoados na sabedoria. "A humilde é a fonte dos mistérios da nova era".

A humildade é temperança, e "as duas preparam na alma uma promessa  para a Santíssima Trindade".

A temperança deriva da humildade, e é pela humildade que o intelecto é curado e feito pleno. "Da humildade fluem uma mansidão e lembrança que é a temperança dos sentidos". "A humildade adorna a alma com temperança".

Voltando-se ao mundo, o homem humilde revela toda a sua personalidade através da humildade, imitando assim Deus encarnado. "Assim como a alma é desconhecida e invisível aos olhos do corpo, assim o homem humilde é desconhecido entre os homens". Ele não só busca passar despercebido pelos homens, mas também recolher-se em si mesmo quanto possível, tornando-se "como alguém que não existe na terra, que ainda não veio a ser, e que é completamente desconhecido até pela sua própria alma." Um homem humilde se despreza diante de todos os homens, mas Deus, por esse motivo, o glorifica, pois "onde a humildade floresce, lá a glória de Deus brota abundantemente", e a planta da alma produz uma flor imperecível.


Graça e Liberdade

A pessoa de Cristo, o Deus-homem, apresenta em si a imagem ideal da personalidade e do conhecimento humano. A pessoa de Cristo em si mesma traça e define o caminho da vida de um cristão em todos os sentidos. Nele encontra-se a realização mais perfeita da união mística de Deus e do homem, ao mesmo tempo em que revela a obra de Deus no homem e do homem em Deus.

A sinergia Deus-homem é uma característica essencial da atividade do cristão no mundo. O homem trabalha com Deus e Deus com os homens (cf. I Cor. 3: 9). Trabalhando interiormente e ao redor de si mesmo, o cristão se entrega inteiramente à ascese, mas ele faz isso, e é capaz de fazê-lo, somente através da incessante atividade do poder divino que é a graça.  Para o cristão nenhum pensamento, nenhum sentimento, nenhuma ação pode vir do Evangelho sem a ajuda da graça de Deus. O homem, por sua vez, traz o desejo, mas Deus dá a graça, e é dessa atividade mútua, ou sinergia, que a personalidade cristã nasce.

Em cada degrau da escada da perfeição, a graça é essencial para o cristão. O homem não pode realizar nenhuma virtude evangélica sem a ajuda e o apoio da graça de Deus. Tudo no cristianismo se dá por meio da graça e do livre arbítrio, pois tudo é a obra comum de Deus e do homem. São Isaque enfatiza particularmente este trabalho comum da vontade do homem e da graça de Deus em toda a vida do cristão. A graça abre os olhos do homem para o discernimento do bem e do mal. Isso fortalece o sentimento de Deus dentro dele, abre-lhe o futuro e o preenche de luz mística.

Quanto mais graça Deus dá ao homem de fé, mais Ele revela a ele os abismos do mal no mundo e no homem. Ao mesmo tempo, Ele permite que haja maiores tentações para atacá-lo, para que possa testar o poder da graça dada por Deus e que possa sentir e aprender que é somente com a ajuda da graça que ele pode superar as tentações cada vez mais temíveis e escandalosas. Pois, assim que a graça percebe que a alma do homem está se tornando auto-suficiente, deixando-o bem aos seus próprios olhos, ela lhe abandona e permite que as tentações o ataquem até que ele tome consciência de sua enfermidade e humildemente se refugie em Deus.

Pelo trabalho conjunto da graça de Deus e de sua vontade, o homem por meio da fé se aperfeiçoa. Isso acontece gradualmente, pois a graça entra na alma "pouco a pouco", sendo dada antes de tudo aos humildes. Quanto maior a humildade, maior a graça, e sabedoria que está contida dentro da graça. "Os humildes são dotados de sabedoria pela graça"

A sabedoria cheia de graça revela gradualmente os mistérios aos humildes, um após o outro, culminando no mistério do sofrimento. Os humildes sabem por que o homem sofre, pois a graça revela-lhes o significado do sofrimento. Quanto maior a graça que o homem possui, maior é a compreensão do significado e propósito do sofrimento e da tentação. Se ele afasta a graça dele devido a indolência e o pecado, o homem expulsa de si mesmo o único meio que ele possui de encontrar o significado e a justificação para seus sofrimentos e tentações.

A Purificação do Intelecto

Por uma renovação incessante de si mesmo através de um ascetismo cheio de graça, o homem gradualmente afasta o pecado e as paixões de todo o seu ser e de seus órgãos do conhecimento, de modo a curá-los dessas doenças mortais. A cura dos órgãos do conhecimento do pecado e das paixões é ao mesmo tempo sua purificação. Especial cuidado deve ser tomado com o principal órgão do conhecimento, o intelecto, pois ele tem um papel particularmente importante no domínio da personalidade humana.

Em nada mais a vigilância é tão vital como no trabalho de purificação do intelecto. Para essa tarefa, o asceta da fé deve lutar com todas as suas forças, de modo que, com a ajuda das virtudes evangélicas cheias de graça, ele possa renovar e transformar seu intelecto. São Isaque nos oferece sua rica experiência nisso.

Segundo ele, a impureza e o caráter grosseiro do intelecto vêm de um estômago cheio. O jejum é, portanto, o principal meio de purificar o intelecto. O intelecto é, por natureza, fino e delicado, enquanto que a grosseria é uma adição não natural introduzida pelo pecado. É através da oração que o intelecto torna-se refinado e claro, transparente. Trabalhando sobre si mesmo, o homem rompe a crosta rígida de pecado de seu intelecto, o refina e o torna capaz de discernimento.

Transformando-se com a ajuda do esforço ascético cheio de graça, o homem adquire a pureza do intelecto, e com este intelecto purificado "passa a ver os mistérios de Deus". "A purificação do corpo produz um estado que rejeita a mácula da impureza da carne. A purificação da alma liberta-a das paixões secretas que surgem na mente. A purificação do intelecto ocorre através da revelação dos mistérios". 

Somente a mente que foi purificada pela graça pode oferecer um conhecimento puro e espiritual. "Até que a mente seja liberta de seus múltiplos pensamentos e se torne completamente pura, ela não pode receber conhecimento espiritual". Os homens deste mundo "não podem purificar suas mentes por causa de seu mau conhecimento e aceitação da perversidade.  Poucos são capazes de retornar à pureza original da mente do homem."

A perseverança na oração purifica o intelecto, ilumina-o e o preenche com a luz da verdade. As virtudes, lideradas pela compaixão, dão ao intelecto paz e luz. A purificação do intelecto não é uma atividade dialética, discursiva e teórica, mas um ato da graça através da experiência e é ética em todos os aspectos. O intelecto é purificado pelo jejum, vigílias, silêncio, oração e outras práticas ascéticas.

"O que é pureza do intelecto? A pureza do intelecto é a realização, através da luta pelas virtudes, da iluminação divina". É fruto do esforço ascético pelas virtudes. A prática das virtudes aumenta a graça no homem, e ao trazer a graça ao intelecto purifica-o dos pensamentos impuros. É através do ascetismo que o intelecto de um santo torna-se puro, claro e discernente. "A pureza da alma era um carisma original de nossa natureza. Até que tenha sido purificada das paixões, a alma não está curada da doença do pecado e não é capaz de alcançar a glória que perdeu devido a sua transgressão. Se o homem se torna digno de purificação - da saúde da alma - seu intelecto verdadeiramente recebe em si a alegria através da consciência espiritual, pois ele se torna um filho de Deus e um irmão de Cristo". 

Se ele supera as paixões, o homem alcança a pureza da alma. O "obscurecimento do intelecto" provém da falta de compaixão e da indolência. As virtudes são "as asas do intelecto", as quais o ajudam a subir aos céus. Cristo enviou o Espírito Santo aos Seus apóstolos, e o Espírito Santo purificou seus intelectos e os fez perfeitos, mortificando neles o velho homem das paixões e trazendo vida ao homem novo e espiritual".

Fragmentado por pensamentos pecaminosos e impuros, o intelecto se recolhe através da oração, do silêncio e das outras práticas ascéticas. Quando o intelecto se liberta através arrependimento de sua estreita ligação com as paixões, no primeiro momento é como um pássaro que teve as suas asas cortadas. Ele se esforça para se elevar acima das coisas terrenas por meio da oração, mas não consegue, estando amarrado à terra. A capacidade de voar só é possível depois de uma longa luta pelas virtudes, pois é então que ele se recolhe e aprende a voar.

O amor de Deus é um poder que conduz o intelecto a si mesmo. A leitura de hinos e salmos, a reflexão sobre a morte e a esperança da vida futura são "coisas que recolhem o intelecto e o protegem da fragmentação". O intelecto é destinado a reinar sobre as paixões, dominar os sentidos, e controlá-los.

O propósito de todas as leis e mandamentos de Deus é a pureza de coração. Deus fez-se carne para purificar nossos corações e almas do mal e trazê-los de volta ao seu estado original. Mas há uma certa diferença entre pureza de coração e pureza do intelecto. São Isaque escreve: "Em que a pureza do intelecto difere da pureza do coração? A pureza do intelecto é uma coisa, mas a pureza do coração é outra. Pois o intelecto é um dos sentidos da alma, mas o coração inclui os sentidos interiores e os governa. Ele é a raiz deles. E se a raiz é santa, então os ramos também são santos. Se, então, o coração é purificado, claramente todos os sentidos são purificados". 

O coração adquire a pureza por meio de muitas provações, tribulações, lágrimas e pela mortificação de tudo o que é do mundo. As lágrimas purificam o coração da impureza. À pergunta: qual é o sinal pelo qual se pode saber se o homem alcançou a pureza de coração, São Isaque responde: "Quando ele vê todos os homens como bons, e ninguém lhe parece ser impuro ou profano". 

A pureza do coração e do intelecto é adquirido através do ascetismo. "O ascetismo é a mãe da santidade". A prática silenciosa da virtude corporal purifica o corpo da matéria que ali se encontra.  Entretanto, o "esforço físico extenuante, sem a pureza do intelecto, é como um útero estéril e seios murchos. De tal maneira não é possível aproximar-se do Conhecimento de Deus, fatiga-se o corpo, mas não erradica-se as paixões do intelecto. Assim, não há proveito". 

O sinal da pureza é: regozijar com aqueles que se regozijam e chorar com os que choram;  sofrer com os doentes e chorar com os pecadores; alegrar-se com o arrependido e participar da agonia daqueles que sofrem; criticar ninguém e, na pureza da própria mente, ver todos os homens como bons e santos.

O intelecto não pode ser purificado nem pode ser glorificado com Cristo se o corpo não sofre com e por Cristo; a glória do corpo é a "submissão comedida diante de Deus, e a glória do intelecto é a verdadeira visão de Deus". A beleza da temperança é alcançada pelo jejum, pela oração e pelas lágrimas. A pureza do coração e do intelecto, a cura do intelecto e dos outros órgãos do conhecimento, tudo isso é fruto de um longo esforço sob a graça, no ascetismo. No intelecto puro do asceta da fé, brota aquela fonte de luz que derrama doçura sobre o mistério da vida e do mundo.